“A MAIOR DE TODAS AS IGNORÂNCIAS É REJEITAR UMA COISA SOBRE A QUAL VOCÊ NADA SABE."

domingo, 5 de setembro de 2010

A CLARIVIDÊNCIA


A CLARIVIDÊNCIA
C.W.Leadbeater

SUMÁRIO

O QUE É A CLARIVIDÊNCIA

Literalmente, clarividência quer dizer simplesmente "ver claro", e é uma palavra que tem sido bastas vezes mal empregada, e mesmo degradada ao ponto de a aplicarem para descrever as artimanhas dum charlatão num teatro de variedades. Mesmo no seu sentido mais restrito, abrange um grande número de fenômenos, tão divergentes nos seus característicos que não é fácil dar uma definição do termo que seja ao mesmo tempo conci sa e justa. Tem-se-lhe chamado "visão espiritual", mas não se pode conceber tradução mais errônea, porque na grande maioria dos casos não está ligada a ela faculdade alguma que de longe mereça que a honrem com um nome tão elevado.

Para os fins deste tratado poderemos, talvez, defini-la como sendo o poder de ver o que está oculto à visão física normal. Será bom explicar, também, que ela é freqüentemente (se bem que não sempre) acompanhada por aquilo a que se chama "clariaudição", ou seja, o poder de ouvir aquilo que o ouvido físico normal não pode abranger; tornaremos o termo, que constitui o título deste livro, extensivo também a esta faculdade, para que evitemos estar constantemente a empregar duas palavras onde só uma é suficiente.

Antes de entrar propriamente no assunto, desejo esclarecer dois pontos. Em primeiro lugar, não destino estas páginas àqueles que não acreditem em que haja clarividência, nem busco nelas convencer os que estejam em dúvida sobre o assunto. Em tão pequeno trabalho, não disponho do espaço para o fazer; esses indivíduos deverão estudar os muitos livros que registram listas de casos destes, ou fazer, eles próprios, experiências seguindo uma orientação mesmérica. Escrevo para os mais cultos, que sabem que a clarividência existe, e que sentem pelo assunto um interesse suficiente para que desejem ser informados sobre os seus métodos e possi bilidades; a esses quero assegurar que o que aqui exponho é o resultado de muitos anos de estudo e de experimentação cuidadosa, e que, conquanto alguns dos poderes que descreverei lhes possam parecer novos e espantosos, não me refiro a nenhum de que não tenha visto casos.

Em segundo lugar, ainda que procure evitar, tanto quanto seja possível, o uso de uma linguagem técnica, permitir-me-ei de vez em quando, visto que estou escrevendo para estudiosos da Teosofia, usar, para ser breve e sem me demorar em explicações, a vulgar terminologia teosófica que posso confiadamente supor que eles conheçam.

Se este livro for ter às mãos de alguém para quem o emprego ocasional desses termos constitua uma dificuldade, só posso pedir-lhe que mo releve e citar-lhe, para que nela busque essas explicações preliminares, qualquer obra teosófica elementar, como, por exemplo, A Sabedoria Antiga ou O Homem e os seus Corpos de Mrs. Besant. A verdade é que o sistema teosófico é a tal ponto coerente, as suas partes componentes estão em interdependência tal, que dar uma explicação plena de cada termo empre gado implicaria escrever um tratado completo de Teosofia como prefacio mesmo a este breve estudo sobre clarividência.

Antes, porém, que se possa utilmente tentar uma explicação detalhada da clarividência, será necessário que gastemos algum tempo em algumas considerações preliminares, para que nitidamente tenhamos presentes alguns fatos gerais sobre os diferentes planos em que se pode exercer a visão clarividente, e as condições que tornam possível esse exercício.

Constantemente nos é garantido nos livros teosóficos que estas faculdades superiores brevemente terão de ser herança da humanidade em geral - que a capacidade clarividente, por exemplo, existe latentemente em cada indivíduo, e que aqueles em quem ela já se manifesta apenas estão, nesse sentido, um pouco mais avançados do que os outros homens. Ora esta declaração é verdadeira, e contudo parece absolutamente vaga e irreal à maioria das pessoas, simplesmente porque consideram tal faculdade como sendo uma cousa absolutamente diferente de tudo de quanto têm tido experiência, e confiadamente crêem que eles, pelo menos, serão inteiramen­te incapazes de a desenvolver em si.

Talvez tenda a desvanecer esta impressão de irrealidade se nos esforçarmos por compreender que a clarividência, como muitas outras cousas da natureza, é sobretudo uma questão de vibrações, e não passa, de resto, de uma extensão dos poderes que todos os dias empregamos. Vivemos sempre cercados por um vasto mar de éter e de ar, aquele interpenetrando este, como, aliás, a toda a matéria física; e é principalmente por vibrações nesse grande mar de matéria que nos chegam as impressões do exterior. Isto sabemos todos, mas talvez a muitos de nós nunca tenha ocorrido que o número dessas vibrações a que podemos responder é na verdade pequeníssimo.

Entre as vibrações excessivamente rápidas que afetam o éter há uma certa pequena secção — uma secção pequeníssima — que pode afetar a retina humana, e este gênero de vibrações produz em nós a sensação a que chamamos luz. Isto é, podemos ver só aqueles objetos de onde pode ou sair ou ser refletido esse gênero de luz.

De modo inteiramente análogo, o tímpano do ouvido humano é capaz de responder a um certo número pequeníssimo de vibrações relativa mente lentas — suficientemente lentas para que afetem o ar que nos cerca; e, assim, os únicos sons que podemos ouvir são aqueles que são produzidos por objetos que vibram num grau dentro da gama dessas vibrações.

Em ambos os casos, sabe a ciência perfeitamente que há grande número de vibrações tanto acima como abaixo destas duas secções, e que portanto há muita luz que não podemos ver e muitos sons a que os nossos ouvidos são surdos. No caso da luz, a ação dessas vibrações superiores e inferiores é fácil de perceber nos efeitos produzidos pelos raios actínicos numa extremidade do espectro e pelos raios do calor na outra extremidade.

O fato é que existem vibrações de todos os graus concebíveis de rapidez, enchendo todo o vasto espaço que medeia entre as lentas ondas do som e as rápidas ondas da luz; nem é isso tudo, pois que há sem dúvida vibrações mais lentas do que as do som e uma infinidade delas mais rápidas do que aquelas que conhecemos sob a forma de luz. E assim começamos a compreender que as vibrações pelas quais vemos e ouvimos são apenas como que dois pequenos grupos de poucas cordas numa harpa enorme de extensão praticamente infinita, e quando refletimos em quanto nos tem sido possível aprender e deduzir do uso desses pequenos fragmentos, entre vemos vagamente que possibilidades podiam revelar-se-nos se pudéssemos utilizar o todo vasto e maravilhoso.

Um outro fato, que tem de ser considerado em relação a este, é que diferentes indivíduos variam consideravelmente, se bem que dentro de limites relativamente pequenos, na capacidade, que têm, de responder mesmo às pouquíssimas vibrações que estão ao alcance dos nossos sentidos físicos. Não me refiro á agudeza de vista ou de ouvido que torna possível a um indivíduo ver um objeto mais indeciso ou ouvir um som mais tênue do que outro indivíduo; não se trata, de modo algum, duma questão de força de vista, mas sim de extensão de suscetibilidade.

Por exemplo: se se pegar num bom prisma de bissulfito de carbono, e com ele se lançar um espectro nítido sobre uma folha de papel branco, levando depois várias pessoas a marcar no papel os limites extremos do espectro, tal qual o vêem, verificar-se-á quase sempre que o poder de visão dessas pessoas varia consideravelmente de umas para outras. Algumas verão o violeta estender-se muito mais longe do que outras; outras haverá que, vendo muito menos do violeta do que a maioria, terão porém uma visão maior do vermelho. Alguma.- haverá, talvez, que possam ver mais do que as outras a ambas as extremidades, e estas serão quase infalivelmente aquilo a que chamamos gente sensível — susceptíveis de um alcance maior de visão do que a maioria da gente hoje em dia.

Na audição, a mesma divergência se poderá demonstrar com qualquer som que, sendo muito tênue, não esteja porém fora do alcance do ouvido — um som, por assim dizer, na fronteira da audibilidade — e ver quantas pessoas, entre várias, o conseguem ouvir. O guincho dum morcego é um bom exemplo dum som destes, e a experiência mostrará que numa noite de verão, quando o ar está cheio dos guinchos agudos, como agulhas, destes animaizinhos, muita gente haverá que nenhuma consciência tenha deles, incapaz de todo de os ouvir.

Ora estes exemplos mostram claramente que não há limite definido ao poder, que o homem tem, de responder às vibrações etéricas ou atmosféricas, mas que já há alguns de nós que tenham esse poder mais desenvolvido do que outros; e verificar-se-á, mesmo, que no mesmo indivíduo essa capacidade varia de umas ocasiões para outras. Não é, pois, difícil imaginarmos que um indivíduo possa desenvolver este poder de modo a vir a poder ver muita cousa que é invisível aos seus semelhantes, a ouvir muita cousa que eles não podem ouvir, visto que sabemos que existe um número enorme destas vibrações adicionais, que apenas como que esperam ser conhecidas.

As experiências feitas com os raios Roentgen dão-nos um exemplo dos resultados espantosos que se produzem quando mesmo poucas destas vibrações adicionais são trazidas para o alcance do conhecimento humano, e a transparência, a estes raios, de muitas substâncias até aqui tidas por opacas, imediatamente nos mostra pelo menos uma maneira em que se pode explicar tais fenômenos de clarividência elementar, como sejam ler uma carta fechada numa caixa ou descrever as pessoas que estão numa sala contígua. Aprender a ver pelos raios Roentgen, além de pelos vulgar mente empregados, seria bastante para tornar qualquer indivíduo capaz de executar um ato mágico dessa natureza.

Até aqui temos considerado apenas uma extensão maior dos sentidos físicos do homem; e, quando refletimos que o corpo etérico dum indivíduo é na realidade apenas a parte mais tênue do seu corpo físico, e que portanto todos os órgãos dos seus sentidos contêm uma grande parte de matéria etérica em vários graus de densidade, a capacidade da qual está ainda apenas latente na maioria de nós, compreendemos que, mesmo limitando-nos a esta linha de desenvolvimento, ha já enormes possibilidades de todas as espécies abrindo-se diante de nós.

Mas além e acima disto sabemos que o homem tem um corpo astral e um corpo mental; cada um dos quais pode, com tempo, ser acordado para a atividade, e por sua vez responder às vibrações da matéria do seu plano, abrindo ao Eu, à medida que ele aprende a funcionar através destes instru mentos, dois mundos inteiramente novos e imensamente maiores de conhecimento e de poder. Ora estes novos mundos, se bem que nos cerquem e uns aos outros se interpenetrem, não devem ser considerados como distintos e inteiramente desligados quanto à sua substância, mas antes como fundin do-se uns nos outros, o astral inferior formando uma série d ir et a com o físi co superior, assim como o mental inferior, por sua vez, forma uma série direta com o astral superior. Não nos é exigido, ao pensarmos neles, que imagine mos qualquer nova e estranha espécie de matéria, mas simplesmente que consideremos a vulgar matéria física como tão tenuamente subdividida e vibrando com uma rapidez tão superior que nos revela condições e qualida­des que se podem dizer inteiramente novas.

Não nos é, pois, difícil compreender a possibilidade de um alargamento regular e progressivo dos nossos sentidos, de modo que, tanto pela vista como pelo ouvido, possamos apreciar vibrações muito superiores e muito inferiores àquelas que são vulgarmente conhecidas. Uma grande secção destas vibrações adicionais pertencerá ainda ao plano físico e apenas nos tornará possível obter impressões da parte etérica desse plano, que atualmente é para nós um livro fechado. Essas impressões serão ainda obtidas pela retina; afetarão, é claro, a sua matéria etérica, e não a sólida, mas podemos, ainda assim, considerá-la como agindo apenas sobre um órgão especializado para as receber, e não sobre a superfície total do corpo etérico.

Há, porém, alguns casos anormais em que outras partes do corpo etérico respondem a essas vibrações adicionais tão, ou mesmo mais, pronta mente de que os olhos. Essas anormalidades são explicáveis de diversas maneiras, mas sobretudo como efeitos de qualquer parcial desenvolvimento astral, pois que se verificará que as partes sensíveis do corpo quase que invariavelmente correspondem a um ou outro dos chakrams ou centros de vitalidade no corpo astral. E ainda que, se a consciência astral não estiver ainda desenvolvida, estes centros não sejam aproveitáveis no próprio plano a que pertencem, têm, contudo, força suficiente para estimular para uma atividade maior a matéria etérica que penetram.

Quando passamos a considerar os sentidos astrais propriamente ditos, os métodos de trabalho são muito diferentes. O corpo astral não tem órgãos de sentidos especializados, e é este um fato que talvez precise de ser bem esclarecido, visto que muitos estudiosos, que tentam compreender a sua fisiologia, acham que isso é difícil de conciliar com as afirmações que se têm feito, sobre a perfeita interpenetração do corpo físico pela matéria astral, sobre a exata correspondência dos dois instrumentos, e sobre o fato de que cada objeto físico tem necessariamente o seu correspondente astral.

Ora todas as afirmações são verdadeiras, e contudo é perfeitamente possível que as não compreendam bem indivíduos que normalmente não têm a visão astral. Cada ordem de matéria física tem a sua ordem correspondente de matéria astral em constante comunicação com ela, nem dela pode ser separada exceto por um exercício considerável de força oculta, e, mesmo assim, só está dela separada enquanto tal força se exerce para tal fim. Mas, apesar de tudo isso, a inter-relação das partículas astrais é muito mais lassa do que a das suas correspondentes físicas.

Numa barra de ferro, por exemplo, temos uma massa de moléculas físicas na condição sólida, isto é, capazes de mudanças relativamente peque nas nas suas posições relativas, ainda que vibrando cada uma com imensa rapidez na sua esfera própria. O correspondente astral disto consiste daquilo a que muitas vezes chamamos matéria astral sólida — isto é, matéria do mais baixo e mais denso subplano do astral; mas as suas partículas constante e rapidamente estão mudando a sua posição relativa, movendo-se umas entre as outras com a mesma facilidade com que o fariam as de um líquido no plano físico. De modo que não há associação permanente entre qualquer partícula física e aquela quantidade de matéria astral que aconteça estar sendo, em determinado momento, o seu correspondente.

Isto é igualmente verdade com respeito ao corpo astral do homem, que, para os nossos fins de momento, poderemos considerar como consis tindo de duas partes — o agregado mais denso que ocupa exatamente a posição do corpo físico, e a nuvem de mais tênue matéria astral que cerca esse agregado. Em ambas estas partes, e entre as duas, está constantemente dando-se a rápida intercirculação de partículas que se descreveu, de modo que, ao observarmos o movimento das moléculas no corpo astral, constante mente nos ocorre a sua semelhança com as de água em forte ebulição.

Posto isto, facilmente se compreenderá que, conquanto qualquer órgão do corpo físico terá sempre de ter como seu correspondente uma certa quantidade de matéria astral, esse órgão não retém as mesmas partícu las durante mais de uns segundos de cada vez, e por conseguinte nada há que corresponda a especialização de matéria nervosa física em nervos éticos ou auditivos, etc. De modo que, conquanto o olho ou ouvido físico tenha sempre o seu correspondente de matéria astral, esse especial fragmento de matéria astral não é mais (nem menos) capaz de responder às vibrações que produzem a visão ou a audição astral do que qualquer outro fragmento do instrumento.

Nunca se deve esquecer que, conquanto constantemente tenhamos de nos referir a "visão astral" ou "audição astral" para nos fazermos com­preender, o que queremos dizer com essas expressões é a faculdade de responder a vibrações das que levam à consciência do indivíduo, quando ele funciona no seu corpo astral, informação da mesma natureza do que aquela que lhe é dada através dos seus olhos e dos seus ouvidos quando ele está no seu corpo físico. Mas nas, inteiramente diferentes, condições

astrais, não são precisos órgãos especializados para a obtenção deste resulta do; há em todas as partes do corpo astral matéria capaz de responder a tais vibrações, e por isso o indivíduo funcionando nesse corpo vê da mesma maneira objetos que estão por detrás dele, por cima dele, por baixo dele, sem precisar para isso mexer a cabeça.

Há, porém, um outro ponto que não seria justo omitir de todo, e esse é a questão dos chakrams a que acima me referi. Os estudantes da Teosofia conhecem bem a idéia da existência nos corpos astral e etérico do homem de certos centros de força que têm de ser, cada um por sua vez, vivificados pelo fogo da serpente à medida que o homem avança na evolução. Ainda que se não possa dizer que estes são órgãos, no sentido vulgar da palavra, pois que não é através deles que o homem vê ou ouve, como na vida física através de olhos e de ouvidos, é contudo, ao que parece, em grande parte da vivificação desses centros que o poder de exercer estes sentidos astrais depende; e à medida que cada um desses centros é vivificado, ele dá a todo o corpo astral o poder de responder a um novo grupo de vibrações.

Nem têm estes centros, porém, ligada a eles qualquer agregação permanente de matéria astral. Eles são apenas vórtices na matéria do corpo — vórtices através dos quais todas as partículas alternadamente passam — pontos, talvez, nos quais a força superior de planos mais altos age sobre o corpo astral. Mesmo esta descrição não dá senão uma idéia parcial do seu aspecto, porque, na realidade, eles são vórtices de quatro dimensões, de modo que a força que vem através deles, e é a causa da sua existência, parece surgir de parte nenhuma. Mas, seja como for, visto que todas as partículas, umas após outras, passam por cada vórtice desses, claro está que é possível a cada um evocar em todas as partículas do corpo o poder de receptividade para com um certo grupo de vibrações, de modo que todos os sentidos astrais são igualmente ativos em todas as partes do corpo.

A visão do plano mental é, por sua vez, inteiramente diferente, porque neste caso já não podemos falar de sentidos separados tais como a vista e o ouvido, mas temos, antes, que postular um sentido geral que responde tão plenamente às vibrações que o atingem que qualquer objeto que chegue ao seu conhecimento é imediatamente por ele compreendido, é, por assim dizer, visto, ouvido, palpado, e inteiramente conhecido numa só operação instantânea. E, contudo, mesmo esta maravilhosa faculdade não difere senão em grau, e não em espécie, daquelas que estão ao nosso alcance atualmente; no plano mental, exatamente como no físico, as impressões são dadas por meio de vibrações projetadas do objeto visto sobre o indiví duo que vê.

No plano búdico encontramos pela primeira vez uma faculdade inteiramente nova, que nada tem de comum com aquelas de que temos

falado, pois que naquele plano um indivíduo toma conhecimento de um objeto por um meio inteiramente diferente, no qual as vibrações externas não têm parte nenhuma. O objeto torna-se parte dele, indivíduo, e ele estuda-o de dentro em vez de fora. Mas com este poder a clarividência de que aqui tratamos nada tem.

O desenvolvimento, completo ou parcial, de qualquer destas faculda des caberia dentro da nossa definição de clarividência — o poder de ver aquilo que está oculto à visão física normal. Mas estas faculdades podem ser desenvolvidas de várias maneiras, e será bom dizer algumas palavras a esse respeito.

Podemos calcular que se fosse possível que, durante a sua evolução, um indivíduo estivesse isolado de todas, exceto as mais suaves, influências externas, e se desenvolvesse desde o princípio duma maneira perfeitamente regular e normal, os seus sentidos se desenvolveriam também de maneira e por ordem regular. Também verificaria que os seus sentidos físicos pouco a pouco aumentavam de alcance até que respondiam a todas as vibrações físicas, tanto da matéria etérica, como da matéria mais densa; então, numa seqüência ordenada, viria a sensibilidade à parte mais grosseira do plano astral, e em breve também à parte mais elevada, até que, por um decurso natural, a faculdade do plano mental apareceria também.

Na vida real, porém, quase que nunca se conhece um desenvolvimento assim regular, e muitos homens há que têm vislumbres de consciência astral sem que neles haja sequer acordado a visão etérica. E esta irregularidade de desenvolvimento é uma das principais causas da tendência extraordinária do homem para o erro em matéria de clarividência — tendência à qual só se escapa mediante um longo período de instrução dada por um professor qualificado.

Os estudiosos da literatura teosófica sabem bem que é possível encon trar esses professores — que mesmo neste século materialista o velho dito permanece certo, que "quando o aluno está pronto, o Mestre está pronto também", e que "quando o aluno se torna capaz de entrar para o vestíbulo da sabedoria, ali sempre encontrará o Mestre". Eles sabem também que só assim guiado pode um indivíduo desenvolver com segurança e proveito os seus poderes latentes, visto que sabem quão fatalmente fácil é ao clarividente pouco instruído enganar-se quanto ao valor e a significação daquilo que vê, ou. mesmo deformar inteiramente a sua visão ao trazê-la para baixo, para a sua consciência física.

Não segue que mesmo o aluno que esteja recebendo instrução regular no uso dos poderes ocultos os veja desenvolver-se em si exatamente pela ordem regular que acima se esboçou como provavelmente apenas ideal. O seu progresso anterior poderá não ter tomado essa estrada a mais fácil

ou a mais desejável para ele; mas, ao mesmo, está entregue a alguém que tem toda a competência para ser o seu guia no desenvolvimento espiritual, e tem a plena e contente segurança que o caminho pelo qual o levam é aquele que para ele é o melhor.

Outra grande vantagem que ele ganha é que as faculdades que adquire ficam definitivamente sob o seu domínio e podem ser constantemente e plenamente usadas quando ele precisar delas para o seu trabalho teosófico; ao passo que, no caso do indivíduo mal instruído, estes poderes muitas vezes se manifestam apenas de modo muito parcial e espasmódico, parecendo ir e vir, por assim dizer, por sua livre vontade.

Pode com certa razão de ser objetado que, se a faculdade da clarivi dência é, como se disse, parte do desenvolvimento oculto do homem, e, assim, uma indicação de certa quantidade de progresso nessa direção, parece estranho que muitas vezes seja possuída por povos primitivos, ou pelos ignorantes e incultos da nossa raça — indivíduos evidentemente sem desenvolvimento algum, de qualquer ponto de vista que os encaremos. Por certo que isto parece estranho à primeira vista; mas o fato é que a sensibilidade do selvagem ou do europeu ignorante e grosseiro não é de modo algum a mesma cousa que a faculdade do seu semelhante propria mente cultivado, nem é obtida de maneira idêntica.

Uma explicação exata e detalhada da diferença levar-nos-ia a pontos complexamente técnicos, mas talvez seja possível dar uma noção geral da distinção entre as duas por meio de um exemplo tirado do plano ínfimo da clarividência, em contato próximo com o plano físico mais denso. O duplo etérico no homem está numa relação excessivamente íntima com o seu sistema nervoso, e qualquer ação sobre uma destas cousas rapidamente atua sobre a outra. Ora, no aparecimento esporádico da visão etérica no selvagem, quer da África Central, quer da Europa Ocidental, tem-se observa do que a perturbação nervosa correspondente é quase toda apenas no sistema simpático, e que toda a questão está realmente fora do domínio da vontade do indivíduo — é, de fato, uma espécie de sensação em massa, pertencendo vagamente a todo o corpo etérico, e não uma percepção exata e definida dos sentidos comunicada através dum órgão especializado.

Corno nas raças posteriores e no meio de um desenvolvimento mais elevado a força do homem mais e mais se acha entregue ao desenvolvimento das faculdades mentais, esta vaga sensibilidade em geral desaparece; mas, mais tarde, quando o homem espiritual se começa a desenvolver, retorna o seu poder de clarividência. Desta vez, porém, a faculdade é exata e precisa, sob o domínio da vontade do indivíduo, e exercida através dum órgão sensorial definido; e é de notar que qualquer ação nervosa com que se relacione e agora quase exclusivamente do sistema cérebro-espinal.

Sobre este assunto escreve Mrs. Besant: "Às formas inferiores do psiquismosão mais freqüentes nos animais e em seres humanos de rudimen tar inteligência do que em homens e mulheres em quem as faculdades intelectuais estejam bem desenvolvidas. Parecem estar ligadas ao sistema simpático, e não ao cérebro-espinal. As grandes células ganglionares nucleais neste sistema contêm uma grande porção de matéria etérica, e são por isso mais facilmente afetadas pelas vibrações astrais mais grosseiras do que as células em que a porção é menor. A medida que o sistema cérebro-espinal se desenvolve e que o cérebro se torna mais perfeito, o sistema simpático cai para uma situação subordinada, e a sensibilidade às vibrações psíquicas é dominada pelas vibrações mais fortes e mais ativas do sistema nervoso superior. Ë certo que, num estádio ulterior da evolução, a sensibilidade psíquica reaparece, mas então, é desenvolvida em relação com os centros cérebro-espinais e está sob o domínio da vontade. Mas o psiquismo histérico e irregular, de que vemos tantos lamentáveis exemplos, é devido ao pequeno desenvolvimento do cérebro e à predominância do sistema simpático".

Vislumbres passageiros de clarividência acontecem, porém, algumas vezes ao indivíduo altamente culto e com tendências espirituais, ainda que ele nem mesmo tenha ouvido falar na possibilidade de se cultivar essa faculdade. No seu caso, esses vislumbres em geral significam que ele se está aproximando daquele estádio na sua evolução quando esses poderes come çaram naturalmente a manifestar-se, e o seu aparecimento deve servir de estímulo adicional para que ele tente manter aquele alto nível de pureza moral e equilíbrio mental sem os quais a clarividência é um mal e não um bem para quem a possui.

Entre aqueles que são inteiramente incapazes de ser impressionados e aqueles que estão de plena posse do poder de clarividência há muitos estádios intermédios. Um desses estádios, que convém talvez examinar por alto, é aquele em que o indivíduo, ainda que não tenha faculdades de clarividência na vida normal, contudo as revela em grau maior ou menor quando sob a influência do hipnotismo. É este um caso em que a natureza psíquica já é sensível, mas a consciência ainda incapaz de funcionar nela no meio das múltiplas distrações da vida física. É preciso que ela seja libertada pela suspensão temporária dos sentidos exteriores no transe hipnótico antes que possa usar as mais divinas faculdades que começam nela a aparecer. Mas, é claro, mesmo no transe hipnótico há inúmeros graus de lucidez, desde o paciente vulgar, que é nitidamente obtuso, até ao indivíduo cujo poder de visão está inteiramente sob o domínio do hipnotizador, e pode ser dirigido na direção que ele quiser, ou até ao estádio ainda mais avançado em que, uma vez libertada, a consciência escapa intei ramente ao domínio de quem magnetiza e sobe a alturas de visão exaltada onde fica inteiramente fora do seu alcance.

Um outro passo neste mesmo caminho é aquele em que não é precisa uma tão perfeita supressão do físico, como a que se dá no transe hipnótico, mas em que o poder de visão sobrenormal, ainda que inatingível na vigília, se torna possível quando o corpo está sob o domínio do sono vulgar. Neste estádio de desenvolvimento estavam muitos dos profetas e dos videntes dos quais lemos que "foram avisados por Deus num sonho", ou comunga ram com seres muito mais elevados do que eles no alto silêncio da noite.

A maioria da gente culta das raças superiores do mundo tem até certo ponto atingido este desenvolvimento: isto é, os sentidos dos seus corpos astrais estão plenamente aptos a funcionar e perfeitamente capazes de receber impressões de objetos e entidades no seu plano. Mas para que isso lhes sirva de qualquer cousa aqui no seu corpo físico, são, em geral, precisas duas condições: primeiro, que o Eu seja acordado para as realidades do plano astral e levado a sair da crisálida formada pelos seus pensamentos de vigília, de modo a olhar em seu redor e aprender; e, depois, que a cons ciência seja retida o bastante pelo Eu, ao regressar ao seu corpo físico, para que consiga fixar no seu cérebro físico a memória do que aprendeu ou viu.

Se a primeira destas alterações se produziu, a segunda é de pequena importância, visto que o Eu, o verdadeiro homem, poderá aproveitar com a informação que se pode obter nesse plano, mesmo que não tenha a satisfa ção de trazer qualquer memória disso para aqui, para a sua vida de vigília.

Os estudantes destes assuntos perguntam muitas vezes como é que esta faculdade de clarividência primeiro se manifestará neles — como pode rão saber que chegaram ao estádio em que os seus primeiros e pálidos vislumbres começam a notar-se. Há tanta diferença entre uns casos e outros, que é impossível dar a esta pergunta uma resposta que seja aplicável a todos.

Alguns começam, por assim dizer, por um mergulho, e sob qualquer excitação invulgar tornara-se aptos a ver, por uma vez que seja, qualquer visão notável; e muitas vezes num caso destes, porque a experiência se não repita, o vidente chega depois a crer que deve ter sido vítima de uma aluci nação. Outros começam por adquirir uma consciência intermitente das cores brilhantes e das vibrações da aura humana; outros encontram-se, com uma freqüência crescente, vendo e ouvindo cousas a que são cegos e surdos aqueles que os cercam; outros, ainda, vêem caras, paisagens ou nuvens coloridas pairar-lhes diante dos olhos antes de adormecer; mas talvez a mais vulgar de todas as experiências é a de aqueles que começam a recordar com uma nitidez cada vez maior o que viram e ouviram em outros planos durante o sono.

Tendo assim, até certo ponto, desimpedido o nosso caminho, pode mos passar a considerar os vários fenômenos de clarividência.

Eles diferem tanto, quer em gênero, quer em grau, que não é muito fácil decidir qual a melhor classificação que deles se faça. Poderíamos, por exemplo, classificá-los segundo a espécie de visão empregada — mental, astral, ou apenas etérica. Poderíamos classificá-los segundo a capacidade do clarividente, considerando se ele é educado, ou não, na clarividência; se a sua visão é regular e sob o domínio da sua vontade, ou espasmódica e independente dela; se a pode exercer apenas sob influência mesmérica, ou se essa influência lhe é desnecessária; se é capaz de empregar esse poder quando em vigília no seu corpo físico, ou se apenas a pode empregar quando temporariamente afastado desse corpo pelo sono ou pelo transe.

Todas estas distinções são importantes, e teremos que as considerar todas à medida que avançarmos no assunto, mas talvez a classificação mais prática e útil seja uma no gênero daquela adotada pelo Sr. Sinnett no seu livro Explicação do Mesmerismo — um livro, aliás, que deve ser lido por todos quantos queiram estudar a clarividência. Ao tratar destes fenômenos, dividi-los-emos, pois, mais segundo a capacidade da visão empregada do que segundo o plano em que é excitada, de sorte que poderemos agrupar os casos de clarividência em secções do gênero das seguintes:

1. — Clarividência simples — isto é, um mero abrir da visão, tornando o seu possuidor capaz de ver as entidades astrais ou etéricas que aconteça estarem presentes à sua volta, mas não incluindo o poder de observar lugares distantes ou cenas pertencentes a um tempo outro que o presente.

2. — Clarividência no espaço — o poder de ver cenas ou acontecimen tos afastados do vidente no espaço, quer por estarem muito longe para a observação normal, quer por estarem ocultos por objetos interpostos.

3. — Clarividência no tempo — isto é, o poder de ver objetos ou acontecimentos que estão afastados do vidente no tempo, ou, em outras palavras, o poder de ver o passado e o futuro.

CLARIVIDÊNCIA SIMPLES: COMPLETA

Definimos esta como sendo um mero abrir da visão etérica ou astral, que torna o seu possuidor capaz de ver o que o cerca em níveis correspon­dentes, mas não é em geral acompanhado pelo poder de ver qualquer cousa a grande distância ou ler no passado ou no futuro. Não é possível, decerto, excluir de todo estas últimas faculdades, porque a visão astral tem necessa riamente uma extensão consideravelmente maior do que a física, e por vezes acontece que quadros fragmentados tanto do passado como do futuro são casualmente visionados mesmo por clarividentes que não têm nenhuma noção de como especialmente procurá-los; há contudo uma distinção muito real entre esses vislumbres acidentais e o poder, nitidamente tal, de projetar a vista quer no espaço, quer no tempo.

Entre gente sensível encontramos todos os graus desta espécie de clarividência, desde a do indivíduo que obtém uma impressão vaga que mal merece o nome de visão, até à plena posse da visão etérica ou da visão astral. Talvez que o mais simples seja que comecemos por descrever o que seria visível no caso deste mais pleno desenvolvimento da faculdade, visto que os casos da sua posse parcial serão, então, devidamente compreendidos em relação a esse.

Tratemos, primeiro, da visão etérica. Esta consiste simplesmente, como já se disse, na suscetibilidade a uma série muito maior de vibrações físicas do que é normal, mas, ainda assim, a sua posse traz para a vista uma porção de cousas a que a maioria da humanidade ainda é cega. Vejamos que efeitos produz a aquisição desta faculdade no aspecto de objetos fami­liares, animados e inanimados, e notemos depois a que fatores inteiramente novos ela nos torna conscientes. Mas deve ter-se presente que o que vou descrever é o resultado da posse plena e perfeitamente dominada da facul­dade, e que a maioria dos casos que encontramos pelo mundo fora serão, com respeito a esse, deficientes num ou noutro ponto.

A alteração mais flagrante que é produzida, no aspecto dos objetos inanimados, pela aquisição desta faculdade, é que a maioria deles se torna quase transparente, devido à diferença do comprimento de onda em algumas das vibrações a que o indivíduo acaba de se tornar sensível. Ele verifica que é capaz de realizar com a maior das facilidades o feito tradicional de "ver através dum muro de pedra", porque, para a sua nova visão, o muro de pedra parece não ter maior consistência do que uma névoa ligeira. Por isso ele vê o que se passa num quarto ao lado, quase como se não existisse uma parede intermédia; pode descrever sem errar o conteúdo duma caixa fechada, ou ler uma carta que está lacrada dentro do seu envelope; com alguma prática pode encontrar determinado trecho num livro fechado. Este último feito, ainda que perfeitamente fácil para a visão astral, é bastan te difícil para quem empregue a visão etérica, porque cada página tem de ser vista através de todas as outras que calhe estarem a ela sobrepostas.

Muitas vezes se pergunta se nestes casos um indivíduo vê sempre com a sua visão anormal, ou se apenas o faz quando assim deseja. A resposta é que, se a faculdade está perfeitamente desenvolvida, estará inteiramente sob o domínio do indivíduo, e ele poderá, conforme queira, empregar essa visão, ou apenas a sua visão normal. Ele passa de uma para a outra com a prontidão e a naturalidade com que normalmente mudamos o foco dos nossos olhos ao levantá-los do livro, que estamos lendo, para seguir os movimentos dum objeto a um quilômetro de distância. Trata-se, por assim dizer, de focar a consciência sobre um ou outro aspecto do que se vê; e, ainda que o indivíduo tenha claramente em vista aquele aspecto sobre o qual a sua atenção se fixa no momento, sempre terá uma vaga consciência do outro aspecto também, exatamente como quando focamos a vista sobre qualquer objeto que tenhamos na mão, contudo vagamente vemos a parede fronteira do quarto, como fundo.

Uma outra curiosa alteração, que vem da posse desta visão, é que a terra sólida, sobre a qual o indivíduo caminha, se torna até certo ponto transparente a seus olhos, de modo que ele pode ver até bastante fundo nela, exatamente como normalmente vemos através de água relativamente límpida. Isto o torna capaz de ver qualquer animal construindo um túnel subterrâneo, ou distinguir um filão de carvão ou de minério, se não estiver muito fundo, etc.

Os limites da visão eténua quando olha através de matéria sólida, parecem ser análogos àqueles que nos são impostos quando vemos através de água ou de nevoeiro. Não podemos ver para além de uma certa distância, porque o meio, através do qual olhamos, não é perfeitamente transparente.

O aspecto dos objetos animados também resulta perfeitamente altera do para o indivíduo que aumentou até este ponto os seus poderes visuais. Os corpos dos homens e dos animais são para ele em grande parte transpa rentes, de modo que pode ver em operação os vários órgãos internos e, até certo ponto, diagnosticar as doenças deles.

Esta visão mais extensa também lhe permite ver, com maior ou menor clareza, várias espécies de criaturas, elementais e outras, cujos corpos não são capazes de refletir quaisquer dos raios dentro dos limites do espectro como o vemos normalmente. Entre as entidades assim vistas estarão algumas das ordens inferiores dos espíritos-da-natureza — aqueles cujos corpos são compostos da mais densa matéria etérica. A esta classe pertencem todas as fadas, gnomos, etc., a respeito dos quais tantas histórias ainda restam nas montanhas da Escócia e da Irlanda e em países longínquos em todo o mundo.

O vasto reino dos espíritos-da-natureza é sobretudo um reino astral, mas há uma grande secção dele que pertence à parte etérica do plano físico, e esta secção, é claro, é muito mais natural que entre na esfera do conheci­mento de gente normal, do que as outras. Na verdade, ao lermos os vulgares contos de fadas, freqüentemente encontramos nítidas indicações de se estar tratando desta classe. Qualquer estudioso de contos de fadas deve lembrar-se do grande número de vezes que neles se fala dum ungüento ou droga miste riosa, a qual, quando aplicada aos olhos dum indivíduo, o torna apto a ver os membros da república das fadas, onde quer que os encontre.

A história desta aplicação e dos seus resultados é tão repetida e surge-nos de tanta parte do mundo que com certeza deve basear-se numa verdade qualquer, como numa qualquer verdade sempre se baseia qualquer tradição popular realmente universal. Ora não há mero untar apenas dos olhos de um indivíduo que seja capaz de lhe abrir a visão astral, mas há certos ungüentos que, esfregados sobre todo o corpo, muito auxiliam o corpo astral a abandonar o físico com plena consciência — fato este cujo conhecimento parece ter vindo até aos tempos medievais, como se verá dos testemunhos dados em alguns dos julgamentos por bruxaria. Mas a aplicação aos olhos físicos bem poderá de tal modo excitar a sua sensibili dade que os torne acessíveis a algumas das vibrações etéricas.

A história muitas vezes, continuando, acrescenta como quando o ser humano, que empregou esse ungüento místico, revela de qualquer modo a uma fada a sua visão alargada, ela lhe bate ou lhe espeta os olhos, privando-o assim, não só da vista etérica, mas mesmo daquela do mais denso plano físico. (V.A Ciência dos Contos de Fadas, por E. S. Hartland, na "Contemporary Science Series" — ou, de resto, qualquer coleção razoavel mente completa de contos de fadas.) Se a vista adquirida tivesse sido astral, tal procedimento da parte da fada teria resultado perfeitamente inútil, pois que nenhum estrago produzido no aparelho físico pode afetar uma faculdade astral; mas se a visão produzida pelo ungüento tivesse sido etérica, a destruição dos olhos físicos imediatamente, na maioria dos casos, a extin­guiria, visto que é através deles que essa visão opera.

Qualquer indivíduo que possuísse esta vista, de que estamos falando, poderia também ver o duplo etérico do homem; mas, visto que este e quase idêntico em tamanho ao corpo físico, é pouco provável que lhe chamasse a atenção, a não ser que estivesse parcialmente projetado em transe ou pela influência de anestésicos. Depois da morte, quando se retira inteiramente do corpo denso, ser-lhe-ia claramente visível, e ele freqüentemente o veria pairando por cima de sepulturas recentes ao passar por um cemitério. Se fosse assistir a uma sessão espírita veria a matéria etérica saindo do lado do médium e observaria as diversas maneiras de que as entidades comunicantes se servem dela.

Um outro fato que em breve não deixaria de o impressionar seria a extensão da sua percepção da cor. Ele encontrar-se-ia capaz de ver várias cores inteiramente novas, em nada parecidas com aquelas que formam parte do espectro como o conhecemos agora, e portanto inteiramente indescritíveis em quaisquer palavras de que disponhamos. E não só veria novos objetos inteiramente compostos dessas cores novas, mas também descobriria que se tinham modificado as cores de muitos objetos que ele conhecia, consoante eles tinham ou não algum elemento destes novos matizes na sua constituição. De modo que duas superfícies coloridas, que aos olhos vulgares pareceriam assemelhar-se perfeitamente, muitas vezes se revelariam de todo diferentes à sua vista mais apurada.

Referimo-nos já a algumas das principais alterações que aconteceriam no mundo de um indivíduo quando ele adquirisse a visão etérica; e devemo-nos sempre lembrar que, ao mesmo tempo, uma alteração correspondente aconteceria também aos seus outros sentidos, de modo que ele se tornaria capaz de ouvir, e talvez mesmo de sentir mais do que a maioria dos que o cercam. Suponhamos, agora, que, além disto, ele adquiria também a visão do plano astral; que alterações adicionais de aí resultariam?

Essas alterações seriam muitas e importantes; de fato, abrir-se-ia diante dos seus olhos um mundo inteiramente novo. Consideremos resumi damente as suas maravilhas pela mesma ordem do que dantes, e vejamos primeiro qual a diferença que haveria no aspecto dos objetos inanimados. Sobre este ponto começarei por citar uma estranha resposta, recentemente impressa em The Vahan:

"Há uma diferença nítida entre a visão etérica e a visão astral, e é esta última que parece corresponder à quarta dimensão.

"O modo mais fácil de compreender a diferença é por meio de um exemplo. Se olhásseis para um homem com as duas visões, uma após outra, nos dois casos veríeis os botões nas costas do seu sobretudo; mas, se usásseis a visão etérica, vê-los-ei através dele. e veríeis portanto mais próximo de vos o lado de trás do botão, ao passo que, se vísseis astralmente, veríeis

não só assim, mas ao mesmo tempo como se estivésseis colocado por detrás do indivíduo e olhando-lhe para as costas.

"Ou se estivésseis olhando etericamente para um cubo com caracteres escritos em todos os lados, o cubo seria para a vossa vista como se fosse de vidro, de modo que podíeis ver através dele, vendo o que está escrito do lado oposto de trás para diante, ao passo que o que está escrito dos lados só poderia estar nítido para vós se mudásseis de lugar, visto que sem isso apenas o veríeis de lado. Mas se olhásseis para ele astralmente, veríeis todos os lados ao mesmo tempo e todos diante de vós a direito como se todo o corpo tivesse sido tornado plano diante dos vossos olhos; e veríeis também cada partícula do interior do cubo, não através das outras, mas planamente. Estaríeis olhando para o cubo de uma outra direção, perpendicularmente a todas as direções que conhecemos.

"Se olhardes etericamente para a parte de trás de um relógio, vereis as rodas todas do maquinismo através dela, e o mostrador através das rodas,mas ao contrário; se olhardes para ela astralmente, vereis o mostrador como deve ser e todas as rodas separadas umas das outras, mas nenhum destes objetos sobreposto a outro."

Aqui temos nós nitidamente a nota, o principal fator da mudança; o indivíduo está vendo tudo de um ponto de vista inteiramente diferente, inteiramente fora de tudo quanto antes pôde imaginar. Já não tem a menor dificuldade em ler qualquer página dum livro fechado, porque já não está olhando para ela através de todas as outras páginas que estão antes ou depois, mas sim olhando diretamente para ela como se fosse a única página a ver. A profundidade a que está um filão de minério ou de carvão já não é um obstáculo à sua visão dele, porque ele já não está olhando para o filãoatravés da profundidade de terra que medeia. A grossura dum muro, ou o número de muros entre o observador e o objeto, fariam uma grande diferen ça para a nitidez da visão etérica; não fariam diferença nenhuma para a visão astral, porque no plano astral nada disso estaria entre o observador e o objeto. Está claro que isto parece paradoxal e inexplicável, e é na verda­de inteiramente inexplicável a um espírito que não esteja educado a com­preender idéias destas; mas nem por isso é menos verdadeiro.

Isto leva-nos naturalmente à questão debatidíssima da quarta dimen são — assunto do maior interesse, mas que não podemos discutir no curto espaço de que dispomos. Quem o quiser estudar, com a atenção que o problema merece, deve ler, de princípio, Os Romances Científicos do sr. C. II. llinton ou Outro Mundo do Dr. A. T. Schofield, passando depois à obra mais extensa do primeiro destes autores, Uma Nova Era do Pensa mento. O sr. llinton não só afirma ser pessoalmente capaz de abranger mentalmente algumas das figuras quadridimensionais mais simples, mas também diz que o pode fazer quem se der ao trabalho de seguir atenta e perseverantemente as suas instruções. Não me parece que isto esteja ao alcance de toda a gente, como crê o autor, pois se me afigura que para isso é precisa uma considerável habilidade matemática; mas posso testemunhar, pelo menos, que o tesserato, ou cubo quadridimensional, é uma realidade, porque é uma figura muito conhecida no plano astral. O sr. Hinton acaba de aperfeiçoar um novo método de representar as várias dimensões por meio de cores em vez de por meio de símbolos escritos arbitrários. Afirma que assim o estudo ficará muito simplificado, visto que o leitor será capaz de reconhecer imediatamente, à vista, qualquer parte ou feição do tesserato. Diz-se que uma descrição completa deste método, com ilustrações, está a entrar no prelo, devendo aparecer dentro de um ano, de modo que os que pretendem estudar este assunto fascinador farão bem em aguardar a sua publicação.

Sei que Madame Blavatsky, ao aludir à teoria da quarta dimensão, deu o seu parecer no sentido de que isso é apenas uma maneira grosseira de afirmar a idéia da inteira permeabilidade da matéria, e que o sr. W. T. Stead seguiu a mesma orientação, apresentando esse conceito aos seus leitores sob o nome de throughth ('). A investigação cuidadosa, detalhada e repetida parece, porém, mostrar concludentemente que essa explicação não abrange todos os fatos. É uma descrição perfeita da visão etérica, mas a idéia mais avançada, e inteiramente diferente, da quarta dimensão, tal qual a expõe o sr. Hinton, é a única que dá qualquer explicação plausível sobre os fatos de visão astral constantemente observados neste mundo. Tomarei portanto, e com o devido respeito, a liberdade de sugerir que Madame Blavatsky, quando escreveu como citei, tinha em mente a visão etérica, e não a astral, e que a extrema aplicabilidade da frase a esta outra, e mais elevada, faculdade, na qual ela ao momento não pensava, não lhe ocorreu.

A posse deste poder extraordinário e que mal se pode definir deve, pois, estar sempre presente no espírito do leitor através de tudo o que segue. Ela torna patente aos olhos do vidente cada ponto no interior de um sólido, exatamente como cada ponto no interior de um círculo está patente à vista do observador que olha para esse círculo.

Mas mesmo isto não esgota tudo quanto essa visão dá ao seu possuidor. Ele vê não só o interior, como o exterior, de cada objeto, mas também o seu correspondente astral. Cada átomo e molécula da matéria física tem (O Esta palavra nova e intraduzível é um substantivo formado da preposição through(= através).

o seu átomo ou molécula astral correspondente, e o volume com estas construído é claramente visível ao clarividente. Em geral a parte astral de qualquer objeto é projetada um pouco para além dos limites do seu físico, e assim os metais, as pedras e outros objetos aparecem cercados por uma aura astral.

Ver-se-á imediatamente que, mesmo no estudo da matéria inorgânica, um indivíduo ganha imenso com a aquisição desta visão. Não só vê a parte astral do objeto para que olha, que antes lhe era inteiramente oculta; não só vê muito mais da sua constituição física do que antes vira; mas mesmo o que antes lhe era visível é agora visto com uma clareza e uma verdade muito maiores. Um momento de reflexão mostrará que esta nova visão se aproxima muito mais da verdadeira percepção do que a vista física. Por exemplo, se se olhar astralmente para um cubo de vidro, todos os seus lados parecerão iguais, como com efeito são, ao passo que no plano físico se vê o lado oposto em perspectiva — isto é, parecendo mais pequeno do que o lado que está perto, o que não passa, é claro, duma mera ilusão devida às nossas limitações físicas.

Quando passamos a considerar as facilidades adicionais que ela oferece na observação dos objetos animados, mais claramente vemos as vantagens da visão astral. Ela mostra ao clarividente a aura das plantas e dos animais; e, no caso destes, portanto, os seus desejos e emoções, como os pensamentos que tenham, estão patentes aos olhos dele.

Mas é com referência aos seres humanos que ele mais apreciará as vantagens desta faculdade, porque muitas vezes os poderá auxiliar muito melhor quando se guiar pela informação que ela lhe fornece.

Poderá ver a aura até ao corpo astral, e, ainda que isso deixe ainda invisível toda a parte superior do homem, ser-lhe-á possível, mediante uma observação cuidadosa, aprender, pela parte que lhe é visível, bastantes cousas a respeito dessa parte superior. A sua capacidade de examinar o duplo etérico dar-lhe-á grandes facilidades em localizar e classificar quais quer doenças ou defeitos do sistema nervoso, e do aspecto do corpo astral verá imediatamente as emoções, as paixões, os desejos e as tendências do indivíduo que tem em sua frente, e, também, grande parte dos seus pensamentos.

Ao olhar para um indivíduo, vê-lo-á cercado pela névoa luminosa da aura astral, faiscando em variadíssimas cores brilhantes, e constantemente mudando de matiz e de brilho com cada variação dos pensamentos e dos sentimentos do indivíduo. Verá essa aura cheia do belo cor de rosa da afeição pura, do azul brilhante dos sentimentos de devoção, do castanho duro e baço do egoísmo, do escarlate vivo da cólera, do horrível vermelho ardente da sensualidade, do cinzento lívido do medo, das nuvens negras do ódio e da maldade, ou de qualquer das tantas outras indicações tão facil­mente lidas por um olhar experimentado; e assim será impossível a qualquer pessoa esconder-lhe o estado verdadeiro dos seus sentimentos sobre qualquer assunto.

Estas variadas indicações da aura são, de per si, um estudo profunda mente interessante, mas não me sobra o espaço para aqui me referir a elas detalhadamente. Um relato muito mais circunstanciado a seu respeito, acompanhado de ilustrações coloridas, encontra-se na minha obra sobre O Homem Visível e Invisível.

A aura astral, porém, não só lhe mostra os resultados temporários da emoção que a está atravessando no momento, mas também lhe revela, pelo arranjo e proporção das suas cores quando num estado de relativo repouso, uma indicação quanto à disposição geral e ao caráter do seu dono. Porque o corpo astral é a expressão de quanto do indivíduo pode ser expresso naquele plano, de modo que, do que nele se vê, se pode, com razoável segurança, concluir muito mais, de cousas que pertencem a planos mais elevados.

Neste juízo sobre o caráter o clarividente será consideravelmente auxiliado por aquilo que do pensamento do indivíduo se exprime no plano astral, e que, por conseguinte, fica dentro do alcance da sua visão. A verda deira sede do pensamento é no plano mental, e todo o pensamento primeiro se manifesta ali como uma vibração do corpo mental. Mas se o pensamento tiver qualquer elemento egoísta, ou se de algum modo estiver ligado a uma emoção ou a um desejo, desce imediatamente ao plano astral e toma uma forma visível de matéria astral.

No caso da maioria dos homens, quase todos os seus pensamentos entram em uma ou outra destas categorias, de modo que se pode dizer que toda a sua personalidade estará patente à visão astral do observador, visto que os seus corpos astrais e as formas de pensamento que delas constantemente emanam seriam para ele como um livro aberto onde os característicos do observado estariam escritos claramente, de modo a poder ser lidos por quem quer que seja com o preciso alcance de visão. Quem quiser ter uma idéia decomo as formas de pensamento se apresentam à visão clarividente pode até certo ponto satisfazer a sua curiosidade examinando as ilustrações que acompanham o valioso artigo sobre o assunto, que Mrs. Besant escreveu emLúcifer, de setembro de 1896.

Vimos já qualquer cousa com respeito à alteração no aspecto, tanto dos objetos inanimados como dos animados, quando vistos por quem possui a plena visão clarividente no que se refere ao plano astral; vejamos agora que objetos inteiramente novos ele será capaz de ver. Terá consciência de uma plenitude muito maior na natureza em muitas direções, mas a sua atenção será especialmente atraída pêlos habitantes vivos deste novo mundo. Não podemos, no pouco espaço de que dispomos, sequer tentar um relato detalhado do que eles são; o assunto pode ser estudado, porém, no quinto dos nossos Manuais Teosóficos. Não podemos aqui senão enumerar rapida mente apenas algumas classes de entre as vastas hostes de habitantes astrais.

Impressioná-lo-ão as formas protéicas da maré incessante de essência elemental, redemoinhando sempre em seu torno, por vezes ameaçando, mas sempre retirando perante um esforço forte da vontade; maravilhá-lo-á o exército enorme de entidades temporariamente arrancadas desse oceano para uma vida separada pêlos pensamentos e os desejos dos homens, bons ou maus que sejam. Assistirá ao trabalho ou ao recreio das múltiplas tribos de espíritos da natureza; poderá por vezes estudar, com deleite crescente, a evolução magnífica de algumas das ordens inferiores do glorioso reino dos devas, que corresponde aproximadamente às hostes angélicas da termi nologia cristã.

Mas talvez de maior interesse para ele serão os habitantes humanos do reino astral, e ele encontrá-los-á divididos em duas grandes classes — aqueles a quem chamamos os vivos, e os outros, alguns dos quais infinitamente mais vivos, a quem absurdamente chamamos os mortos. Entre os primeiros encontrará aqui e ali um ou outro inteiramente desperto e plenamente consciente, mandado, talvez para lhe comunicar qualquer cousa ou exami nando-o atentamente, para ver que progresso está fazendo; ao passo que a maioria dos seus semelhantes, quando fora dos seus corpos físicos durante o sono, passará por ele sem nexo ou direção, tão presos das suas cogitações que pouca ou nenhuma consciência têm do que os cerca.

Entre a grande multidão dos recém-mortos encontrará todos os graus de consciência e de inteligência, e todas as nuances de caráter — porque a morte, que parece à nossa curta visão ser urna mudança tão absoluta, nada altera do homem propriamente tal. No dia depois da morte ele é exatamente o mesmo homem que era no dia antes, com a mesma disposição, as mesmas qualidades, as mesmas virtudes e os mesmos vícios, salvo apenas que aban­donou o seu corpo físico; mas a perda desse faz-lhe tanta diferença como o tirar um sobretudo. E, assim, entre os mortos o nosso observador encontrará gente inteligente e gente estúpida, gente bondosa e gente maligna, gente séria e gente frívola, gente de feitio espiritual e gente de índole sensual, exatamente como entre os vivos.

Visto que pode, não só ver os mortos, mas também falar com eles, pode muitas vezes ser-lhes útil e dar-lhes informação e conselhos que lhes sejam de grande utilidade. Muitos deles estão num estado de grande surpresa e perplexidade, e, às vezes, mesmo de grande angústia, por encontrarem os

do mundo seguinte tão diferentes de todas as lendas infantis que enquanto a religião popular do Ocidente tem a oferecer com respeito a este assunto transcendentemente importante; e por isso um indivíduo que compreenda este novo mundo e possa dar explicações é na verdade um amigo na ocasião de o ser.

De muitas outras maneiras pode um indivíduo que possui esta facul dade ser útil tanto aos vivos como aos mortos; mas esta parte do assunto já por mim foi tratada no meu livro Auxiliares Invisíveis. Além de entidades astrais ele encontrará cadáveres astrais — sombras e "cascas" em todos os estados de decomposição; mas aqui basta que estes se mencionem, visto que nos nossos terceiro e quinto manuais o leitor, que deseje saber mais a esse respeito, encontrará o que procura.

Um outro resultado maravilhoso que um indivíduo tira do pleno gozo da clarividência astral, é que deixa de ter quebras ou intervalos na sua vida consciente. Quando de noite adormece, deixa o seu corpo físico ao descanso que ele precisa, e segue tratando da sua vida no seu, bem mais confortável, instrumento astral. De manhã regressa e retoma posse do seu corpo físico mas sem interrupção de consciência ou perda de memória entre os dois estados, podendo assim, por assim dizer, viver uma vida dupla que contudo é só uma, e empregar utilmente toda ela, em vez de perder a terça parte da sua existência numa inconsciência total.

Um outro estranho poder que talvez se encontre possuindo (ainda que a sua completa posse e pleno domínio antes pertença à, mais elevada, faculdade devacânica) é o de aumentar, quando assim quiser, o tamanho da mais pequena partícula física ou astral, até ela ter as dimensões que ele deseja, como se estivesse empregando um microscópio — ainda que nenhum micros cópio que existe, ou seja provável que exista, possua nem a milésima parte deste poder físico de aumentar. Por meio desta faculdade a molécula e átomo hipotéticos, que a ciência postula, tornam-se realidades visíveis e vivas para o estudioso das cousas ocultas, e, ao examiná-las assim de mais perto, ele verifica que a sua estrutura é muito mais complexa do que pensa o homem de ciência. Também essa faculdade o torna capaz de seguir com a mais interessada atenção todas as espécies de ação elétrica, magnética, e etérica de outras espécies; e quando alguns dos especialistas nestes ramos da ciência conseguirem desenvolver o poder de ver estas cousas de que tão facilmente escrevem, há a esperar algumas revelações bem maravilhosas e belas.

Ê este um dos sidhis ou poderes descritos nos livros orientais como vindo a ser pertença do indivíduo que se dedique ao aperfeiçoamento espiritual, ainda que o nome que ali lhe é dado possa não ser imediatamente compreendido. Ali chama-se-lhe "o poder de nos tornarmos grandes ou pequenos conforme quisermos", e a razão de o fato ser descrito em expressões que parecem exatamente invertê-lo é que, na verdade, o método pelo qual este feito se consegue é precisamente esse que esses livros antiquíssimos indicam. E pelo emprego de um maquinismo visual temporário de uma pequenez inconcebível que o mundo do infinitamente pequeno tão nitida mente se observa; e, do mesmo modo (ou, antes, seguindo o método opos to), é por um aumento enorme e temporário do tamanho do maquinismo visual que se torna possível alargar o alcance da nossa vista — no sentido físico tanto como, esperemo-lo, no sentido moral — para além de tudo quanto a ciência tem concebido como possível ao homem. De modo que a alteração no tamanho é realmente no instrumento da consciência do obser­vador, e não em qualquer cousa fora dele; e o velho livro oriental expôs, afinal, a questão com mais justeza do que nós.

A psicometria e a dupla-vista in excelsis estariam também no número das faculdades que o nosso observador possuiria; mas dessas mais propria mente trataremos em outro capítulo, visto que, em quase todas as suas manifestações, implicam a clarividência quer no espaço, quer no tempo.

Indiquei, pois, ainda que nas linhas mais gerais, o que é que um observador instruído, possuindo a plena visão astral, veria no mundo imensa mente mais vasto que essa visão lhe abriria; mas nada disse ainda da espanto sa alteração na sua atitude mental que resulta da certeza experimental da existência da alma, da sua sobrevivência à morte, da ação da lei do carma, e de outros pontos de enorme importância. A diferença entre mesmo a mais profunda convicção intelectual e o conhecimento exato adquirido pela experiência pessoal direta deve ser sentida para poder ser compreendida.

CLARIVIDÊNCIA SIMPLES: PARCIAL

As experiências do clarividente sem instrução — e não se deve esquecer que a essa classe pertencem quase todos os clarividentes europeus — ficarão, porém, em geral, muito aquém do que tentei esboçar; ficarão aquém de muitas e diferentes maneiras — em grau, em variedade, em permanência, e. sobretudo em precisão.

Casos há, por exemplo, em que a clarividência dum indivíduo será permanente, mas muito incompleta, abrangendo apenas uma ou duas classes dos fenômenos observáveis; ele encontrar-se-á possuindo um qualquer fragmento isolado de visão superior, sem aparentemente possuir outros poderes de visão que deviam normalmente acompanhar, ou mesmo prece der, tal fragmento. Por exemplo: um dos meus mais íntimos amigos teve sempre o poder de ver o éter atômico e a matéria astral atômica, e de reconhecer a sua estrutura, quer em plena luz, quer às escuras, como interpe netrando todas as outras cousas; e contudo raríssimas vezes tem conseguido ver entidades cujos corpos sejam compostos dos éteres inferiores, ou da mais densa matéria astral, aliás muito mais evidentes, ou, pelo menos, é com certeza incapaz de as ver permanentemente. Ele encontra-se simplesmente de posse desta faculdade especial, sem haver razão alguma que explique essa posse, ou relação recognoscível entre ela e outra cousa qualquer; e, além de lhe provar a existência destes planos atômicos e de lhe demonstrar a sua estrutura, é difícil calcular para que lhe serve atualmente tal faculdade. Seja como for, a faculdade aí está, e é prova de que cousas maiores se lhe seguirão — de poderes maiores que ainda esperam desenvolver-se.

Há muitos casos semelhantes — semelhantes, quero dizer, não na posse daquela forma especial de visão (que é única na minha experiência), mas em revelar o desenvolvimento duma pequena parte da plena e nítida visão dos planos astral e etérico. Em nove casos em cada dez, porém, esta clarivi­dência parcial carecerá, também, de precisão — isto é, haverá nela uma grande parte de impressões vagas e de meras deduções, em vez da nítida definição e clara certeza do indivíduo educado na clarividência. Exemplos deste tipo encontram-se freqüentemente, sobretudo entre aqueles que se reclamam como "clarividentes demonstrativos e profissionais".

Há, também, os indivíduos que são apenas temporariamente clarivi dentes em certas condições especiais. Entre estes há várias subdivisões, porque há indivíduos que podem reproduzir, quando querem, o estado de clarividência mediante a reconstrução das mesmas condições, ao passo que há outros em quem ela se dá esporadicamente, sem referência palpável ao que os cerca, e ainda outros em quem a faculdade se revela apenas uma ou duas vezes em toda a vida.

à primeira destas subdivisões pertencem aqueles que são clarividentes apenas quando em transe hipnótico, e que, quando não estão em tal transe, são totalmente incapazes de ver ou ouvir qualquer cousa de anormal. Estes podem por vezes atingir grandes alturas de conhecimento, e ser extraordi­nariamente precisos nas suas indicações, mas quando assim acontece é que, em geral, estão seguindo um curso regular de educação clarividente, ainda que, por uma razão qualquer, não possam por enquanto livrar-se sem auxílio do peso de vida terrena.

Na mesma classe poderemos incluir aqueles — na sua maioria orientais — que adquirem uma visão temporária apenas pela influência de certas drogas, ou mediante a prática de certos processos. As vezes hipnotizam-se pela repetição do processo e nessa condição tornam-se até certo ponto clarividentes; as mais das vezes, porém, apenas se reduzem a uma condição passiva, na qual qualquer outra entidade os pode obcecar e falar através deles. Por vezes, ainda, as cerimônias ou ritos que empregam não visam de modo algum a afetarem-se a si próprios, mas apenas a invocar qualquer entidade astral que lhes dê a desejada informação; mas isso, é claro, não passa de um caso de magia, e não de clarividência. Tanto as drogas como os ritos são métodos que devem ser rigidamente afastados por quem quiser aproximar-se da clarividência pelo seu lado superior, e usá-la para seu progresso e para auxílio de outrem. Os bruxos da África Central e alguns dos shamans tártaros são bons exemplos deste tipo.

Aqueles a quem certa dose de clarividência aconteceu apenas ocasio­nalmente, e sem relação alguma com os seus desejos, têm muitas vezes sido pessoas histéricas ou altamente nervosas, em quem esta faculdade era apenas, em grande parte, um dos sintomas de uma doença. O seu apareci mento mostrava que o instrumento físico estava a tal ponto enfraquecido que já não constituía sequer um obstáculo a um certo grau de visão astral ou etérica. Um exemplo extremo desta classe é o indivíduo que se alcooliza ao ponto de atingir o delirium tremens, e que, na condição de ruína física absoluta e impura excitação psíquica produzida pêlos estragos dessa terrível doença, se torna temporariamente capaz de ver algumas das hediondas enti dades elementais e outras de que se cercou no longo decurso da sua bestial degradação. Há, porém, outros casos em que o poder de visão tem aparecido e desaparecido sem relação aparente com o estado da saúde física; mas o mais provável é que, mesmo nesses casos, se tivessem sido observados bem de perto, não teria sido impossível notar qualquer alteração na condição do duplo etérico.

Aqueles que em toda a sua vida tiveram apenas um momento de clarividência são um grupo difícil de classificar cabalmente, por causa da grande diversidade das circunstâncias que para isso contribuíram. Há muitos deles em quem essa experiência se deu nalgum dos momentos culminantes da sua vida, quando se compreende bem que houvesse uma exaltação temporária das faculdades que bastasse para explicar esse poder.

No caso de uma outra subdivisão destes, a experiência única consiste em ver uma aparição, que na maioria dos casos é de um parente ou amigo que está a morrer. Temos aqui que escolher entre duas possibilidades, e em qualquer delas o desejo forte do moribundo é a força impulsora. Essa força pode tê-lo tornado capaz de se materializar por um momento, e nesse caso não seria precisa clarividência para o ver; ou, com maior probabilidade, pode ter agido hipnoticamente sobre o percipiente, momentaneamente apagando a sua sensibilidade física e estimulando a sua sensibilidade supe rior. Em qualquer dos casos a visão é o produto das circunstâncias, e não se repete simplesmente porque se não repetem as condições necessárias.

Permanece, porém, um certo número de casos" insolúveis em que se trata de um caso único de indiscutível clarividência, tratando-se contudo de circunstâncias inteiramente triviais e sem importância. Acerca destes casos" só podemos formar hipóteses; as condições que os governam não pertencem evidentemente ao plano físico, e seria preciso que examinássemos separada mente cada caso antes que pudéssemos dar qualquer opinião segura sobre as suas causas. Nalguns deles resultou que se tratava de uma entidade astral que se estava esforçando por fazer uma comunicação, e não conseguia transmitir ao indivíduo senão um detalhe sem importância dessa comunicação — porque a parte essencial e útil não conseguia, por qualquer razão, entrar para a consciência desse indivíduo.

Na investigação dos fenômenos da clarividência, todos estes tipos, e muitos outros, se encontrarão, e não faltarão alguns casos de simples aluci nação, que terão de ser rigorosamente excluídos da lista de exemplos. O estudioso dum assunto destes precisa ter um fundo inesgotável de paciência e de perseverança, mas, se continuar com tenacidade, começará vagamente a perceber a ordem que existe por detrás do caos, e pouco a pouco irá tendo alguma noção das grandes leis pelas quais toda a evolução se rege.

Muito o auxiliará nesses estudos a adoção da ordem que acabamos de seguir — isto é, se começar por se tornar conhecedor, tanto quanto lhe seja possível, dos fatos verdadeiros com respeito aos planos de que a clarividência vulgar trata. Se aprender o que se pode realmente ver com a visão .sutil e etérica, e quais são as suas respectivas limitações, então terá, por assim dizer, uma bitola pela qual ajuíze dos casos que observar. Visto que todos os casos de visão parcial devem necessariamente entrar para qualquer escani nho desta classificação, o estudioso, se tiver sempre presente a linha geral do esquema, verá que lhe é relativamente fácil, com alguma prática, classifi car os casos que venha a encontrar.

Nada ainda dissemos quanto às possibilidades ainda mais maravilhosas da clarividência no plano mental, nem, na verdade, é preciso dizer muito a esse respeito, visto ser extremamente improvável que o investigador encon­tre casos desses, exceto entre alunos educados em qualquer das mais altas escolas de ocultismo. Para eles essa visão abre ainda um outro mundo, inteiramente novo, muito mais vasto do que todos os outros abaixo dele — um mundo onde tudo quanto podemos imaginar de glória e de esplendor supremos é apenas o vulgar e o normal da vida. Alguns detalhes a respeito desta maravilhosa faculdade, da felicidade espantosa que dá, das suas magní ficas oportunidades para aprender e trabalhar, vêm no sexto dos nossos Manuais Teosóficos, que o estudioso deve consultar sobre este assunto.

Tudo o que esse plano tem a dar — tudo, pelo menos, quanto ele pode assimilar — está ao alcance do aluno educado, mas que o clarividente semeducação o possa tocar, não passa da mais vaga das possibilidades. Tem-se feito isso em transe mesmérico, mas o caso é de uma raridade extrema, porque exige qualificações quase sobre-humanas no sentido de alta aspiração espiritual e absoluta pureza do pensamento e de intenção tanto da parte do hipnotizado como do hipnotizador.

A um tipo de clarividência tal como este, e, ainda mais, àquele que pertence ao plano imediatamente superior, o nome de visão espiritual pode na verdade ser dado; e, visto que todo o mundo celestial, para o qual ele nos abre os olhos, nos cerca aqui e agora, é próprio que a nossa referên­cia passageira lhe seja feita ao tratarmos da clarividência simples, ainda que se torne necessário tornar a aludir a esse poder quando tratarmos da clari vidência no espaço, da qual passamos a falar.

26IV. Clarividência no espaço: Intencional

Definimo-la como sendo a capacidade de ver acontecimentos ou cenas afastadas do vidente no espaço e longe demais para a observação usual. Os casos desta visão são tantos e tão variados que veremos ser precisa uma classificação um pouco mais detalhada deles. Não importa muito qual o critério de que nos servimos para tal classificação, logo que ele seja suficien temente largo para incluir todos os casos que encontremos; talvez um crité rio cômodo seja o de os agrupar sob as classes de clarividência no espaço, intencional e não intencional, com uma classe intermédia, descritível como semi-intencional — um título curioso, é certo, mas que adiante explicarei.

Como dantes, começarei por dizer o que é possível neste sentido ao vidente inteiramente instruído, e tentarei explicar como opera essa faculda de e dentro de que limites se revela. Depois disso, estaremos em melhor situação para tentar compreender os múltiplos exemplos de visão parcial enão educada. Consideremos em primeiro lugar a clarividência intencional.

É evidente, do que antes se disse sobre o poder de visão astral, que qualquer pessoa que a possua completamente será capaz de, por meio dela, ver quase tudo o que quiser ver neste mundo. Os mais recônditos lugares estão patentes à sua vista, e não há para ela obstáculos intermédios, dada a mudança no seu ponto de vista; de modo que, se lhe concedermos o poder de se deslocar de um lado para o outro com o corpo astral, ela poderá sem dificuldade, ir a toda a parte e ver tudo dentro dos limites do planeta. De resto, isto é-lhe, mesmo, em grande parte possível sem que haja de deslocar o seu corpo astral, como adiante se verá.

Consideremos um pouco mais de perto os métodos pêlos quais esta vista super física pode ser empregada para observar acontecimentos que se estão passando a distância. Quando, por exemplo, um indivíduo aqui em Inglaterra vê nos seus mínimos detalhes qualquer cousa que está acontecen do no momento na índia ou na América, como é que isso se dá?

Apareceu uma hipótese engenhosíssima para explicar o fenômeno. Supôs-se que cada objeto esteja perpetuamente emanando radiações em todas as direções nalguns respeitos semelhantes (salvo em serem infinita-

mente mais tênues) aos raios de luz, e que a clarividência não passa do poder de ver por estas mais tênues radiações. Nesse caso, a distância não constituiria obstáculo à vista, pois que todos os objetos intermédios seriam penetráveis por estes raios, e estes poderiam entrecruzar-se até ao infinito em todas as direções sem se embrulharem, exatamente como acontece às vibrações da luz usual.

Ora, ainda que não seja esta a maneira de operar da clarividência, a teoria é, ainda assim, perfeitamente verdadeira na maioria dos seus pos­tulados. Não há dúvida que cada objeto constantemente está irradiando em todas as direções, e é precisamente deste modo, ainda que num plano superior, que os registros akáshicos parecem ser formados. Destes registros será necessário que tratemos na secção seguinte, e por isso basta, por enquanto, que apenas os mencionemos. Os fenômenos de psicometria dependem também destas emanações, como adiante será explicado.

Há, porém, certas dificuldades práticas no uso destas vibrações etéricas (porque é isso, é claro, o que elas são) como meio de ver qualquer cousa que esteja acontecendo a distância. Os objetos interpostos não são inteira mente transparentes, e como os atores na cena que o experimentador quisesse observar seriam pelo menos tão transparentes como esses, é eviden te que se correria o risco de uma séria confusão.

A dimensão adicional que entraria em jogo se fossem astrais, em vez de etéricas, as emanações sentidas, afastaria algumas das dificuldades, mas, por seu turno, traria novas complicações, de outro gênero; de modo que, para fins práticos, ao tentarmos compreender a clarividência, o melhor será que afastemos esta hipótese das radiações e passemos a considerar os métodos de visão a distância que presentemente estão ao alcance do estudio so deste assunto. Veremos que esses métodos são cinco, dos quais quatro são na verdade propriedades da clarividência, ao passo que o quinto não entra propriamente nessa classe, visto que pertence ao domínio da magia. Comecemos por este, para que desde já o afastemos.

1. — Pelo auxílio de um espírito da natureza. — Este método não implica necessariamente a posse de qualquer faculdade psíquica da parte do experimentador; basta que ele saiba como fazer com que qualquer habitante do mundo astral o sirva nas suas investigações. Isto pode ser feito quer por invocação, quer por evocação; isto é, o operador pode, ou persuadir, por meio de orações e ofertas, o seu auxiliar astral a dar-lhe o auxílio de que carece, ou obrigá-lo a fazê-lo pelo exercício de uma vontade altamente desenvolvida.

Este método tem sido muito empregado no Oriente (onde a entidade utilizada é em geral um espírito da natureza) e na velha Atlântida, onde os "senhores do rosto negro" empregavam para este fim uma variedade altamente especializada e requintadamente venenosa de elemental artificial. Por vezes obtém-se informação da mesma maneira nas sessões espíritas hodiernas, mas nesse caso o mensageiro empregado é mais freqüentemente um indivíduo recém-morto funcionando com maior ou menor liberdade no plano astral — ainda que por vezes seja um espírito da natureza amável, que se entretenha fazendo-se passar por um parente morto de qualquer indivíduo. Em qualquer dos casos, como disse, este método não é clarivi dente, mas sim mágico; e se aqui a ele nos referimos, é apenas para que o leitor não caia em confusão ao querer classificar sob qualquer das seções seguintes um ou outro caso do seu emprego.

2. — Por meio de uma corrente astral. — É esta uma expressão que freqüentes vezes, e sem grande justeza, tem sido empregada em livros teosóficos de modo a abranger uma grande variedade de fenômenos, entre os quais aqueles que vou explicar. O que o operador, que adote este método, realmente faz, não é tanto pôr em movimento uma corrente na matéria astral, mas erguer uma espécie de telefone temporário por meio de tal corrente.

É impossível dar aqui qualquer explicação detalhada da física astral, nem eu tenho para isso os conhecimentos necessários; basta, porém, que eu diga que é possível fazer na matéria astral um nítido fio de comunicação que sirva de fio telegráfico para transportar vibrações, por meio das quais se pode ver tudo o que está acontecendo na outra extremidade. Esse fio é estabelecido, entenda-se bem, não por uma projeção direta no espaço de matéria astral, mas por uma ação tal sobre uma linha (ou, antes, muitas Unhas) de partículas dessa matéria que as torne capazes de formar um fio condutor para vibrações do gênero que se deseja.

Esta ação preliminar pode ser conseguida de duas maneiras — quer pela transmissão de energia de partícula a partícula, até que a linha ou fio esteja formado, ou pelo emprego de uma força de um plano superior que seja capaz de agir simultaneamente sobre toda a linha. É claro que este último método implica um desenvolvimento muito maior, visto implicar o conhecimento de (e o poder de usar) forças de um nível muito superior; de modo que o indivíduo que deste modo pudesse construir o seu fio não precisaria, para seu uso, de fio nenhum, visto que lhe seria possível ver de uma maneira muito mais fácil e completa empregando uma faculdade muito mais elevada.

Mesmo a operação puramente astral, aliás muito mais simples, é difícil de descrever, ainda que não custe a executar. Pode dizer-se que é mais ou menos do gênero da magnetização dum varão de aço; porque consiste do que podemos dominar a polarização, por um esforço da vontade humana, de um número de linhas paralelas de átomos astrais indo desde o operador

à cena que deseja observar. Todos os átomos sobre que assim se age ficam, enquanto a operação dura, com os seus eixos rigidamente paralelos uns aos outros, de sorte que formam uma espécie de tubo temporário pelo qual o clarividente pode espreitar. Este método tem a desvantagem de que o fio telegráfico é susceptível de ser desarranjado ou mesmo destruído por qualquer corrente astral bastante forte que aconteça atravessar-se-lhe no caminho; mas se o esforço inicial de vontade foi suficientemente nítido, é essa uma contingência que poucas vezes se dará.

A vista de uma cena distante obtida por meio desta "corrente astral" tem fortes semelhanças com a visão através de um telescópio. As figuras humanas parecem em geral muito pequenas, como as sobre um palco distan te, mas, apesar do seu pequeno tamanho, são tão nítidas como se estivessem perto. As vezes é possível, por este meio, não só ver, mas também ouvir, o que se está passando; mas, como na maioria dos casos tal não acontece, devemos considerar esse fenômeno antes como a manifestação de um poder adicional do que como necessariamente um corolário desta ordem de clarivisão.

Notar-se-á que neste caso o vidente, em geral, não abandona o seu corpo físico; não há espécie alguma de projeção do seu corpo astral ou de qualquer parte de si em direção àquilo para que está olhando; ele simples­mente fabrica para si um telescópio astral temporário. Por isso está, até certo ponto, de posse das suas faculdades físicas mesmo no momento de examinar a cena distante; por exemplo, estará de posse da sua voz, de modo que lhe será possível descrever o que está vendo, no próprio momento em que o está vendo. A consciência do indivíduo está, de fato, ainda do lado de cá do fio.

Este fato, porém, tem as suas limitações, como as suas vantagens, e essas limitações também em muito se parecem com as do indivíduo que emprega um telescópio no plano físico. O experimentador, por exemplo, não pode deslocar esse ponto de vista; o seu telescópio tem, por assim dizer, um certo campo de visão que não pode ser aumentado ou alterado; está olhando para a cena de determinado lado, e não pode de repente virá-la e ver como ela é do lado de lá. Se tem suficiente energia psíquica, pode largar esse telescópio e fabricar para si um outro, inteiramente novo, que lhe permita ver a cena dum modo já um pouco diferente; mas não é este um processo que seja natural que se adote na prática.

Mas, objetar-se-á, o mero fato de ele estar empregando a visão astral deve dar-lhe o poder de ver a cena de todos os lados simultaneamente. Assim seria se ele estivesse empregando essa visão do modo normal sobre um objeto que lhe estivesse próximo — dentro do seu alcance astral, por assim dizer; mas a uma distância de centenas de milhares de quilômetros

30o caso toma uma feição muito diferente. A vista astral dá-nos a vantagem de uma nova dimensão, mas, ainda assim, ainda há o fato chamado "posi ção" nessa dimensão, e ele é, naturalmente, um fator importante em limitar o uso dos poderes do seu plano. A nossa vulgar visão tridimensional dá-nos o poder de vermos simultaneamente todos os pontos do interior duma figura bidimensional, como, por exemplo, um quadrado, mas, para o poder mos fazer, esse quadrado tem de estar razoavelmente próximo dos nossos olhos; a mera dimensão a mais de nada servirá a um indivíduo em Londres se quiser examinar um quadrado em Calcutá.

A vista astral, quando é limitada por ser dirigida por o que é, para todos os fins práticos, um tubo, sofre limitações quase idênticas às da vista física em circunstâncias análogas; ainda que, se for perfeitamente possuída, consiga revelar, mesmo a tão grande distância, as auras, e portanto as emo ções e a maioria dos pensamentos, dos indivíduos observados.

Há muita gente para quem este tipo de clarividência se torna muito mais fácil se tiverem à mão qualquer objeto físico de que se possam servir para ponto de partida do seu tubo astral — um foco conveniente para a sua vontade. Uma esfera de cristal é o mais vulgar e o mais cômodo desses focos, visto que tem a vantagem adiciona] de conter qualidades que excitam a atividade psíquica; mas outros objetos se empregam, aos quais teremos ocasião de nos referir quando viermos a tratar da clarividência semi-intencional.

Tratando ainda desta forma de clarividência pela corrente astral, veremos que há "psíquicos" que não são capazes de a empregar salvo quando sob influência hipnótica. O que há de peculiar neste caso é que há duas variedades desses "psíquicos" — uma em que o indivíduo, uma vez assim liberto, consegue, por si, fazer o telescópio, e outra em que é o próprio magnetizador que constrói o telescópio, pelo qual o influenciado simplesmente espreita. Neste último caso, trata-se de um indivíduo que não tem suficiente vontade para construir, ele próprio, o tubo, e de um hipnotizador que, ainda que possuindo essa vontade, não é, por sua vez, clarividente, porque, se o fosse, seria capaz de espreitar pelo próprio teles cópio sem precisar de auxílio.

Por vezes, ainda que raramente, o tubo possui um outro dos atributos dum telescópio — o de aumentar o tamanho dos objetos sobre que é dirigido até que eles parecem de tamanho natural. Está claro que os objetos têm sempre de ser aumentados até certo ponto, pois, se o não fossem, seriam de todo invisíveis, mas, em geral, as dimensões são determinadas pelo tamanho do tubo astral, e toda a cena não passa de uma pequeníssima fita cinemato­gráfica. Nos poucos casos em que as figuras aparecem de tamanho natural, o mais provável é que se trate dos primeiros indícios de uma faculdade inteiramente nova; mas quando isto acontece, é preciso uma observação

cuidadosa para que se não confundam com os casos da seção que segue.

3. — Pela projeção de uma forma de pensamento. — A capacidade de usar este método de clarividência implica um desenvolvimento um pouco mais avançado de que o último de que se tratou, visto para ele ser precisa uma certa dose de domínio no plano mental. Todos os estudiosos da Teoso fia sabem que o pensamento toma uma forma, pelo menos no plano a que pertence, e, na grande maioria dos casos, também no plano astral; mas talvez não seja tão conhecido o fato de que, se um indivíduo pensar forte mente de que está num sítio qualquer, a forma assumida por esse pensamen to será uma semelhança do próprio pensador que aparecerá no sítio de que se trata.

Na sua essência, essa forma tem que ser composta de matéria do plano mental, mas em muitos casos rodear-se-ia também de matéria do plano astral, e, assim, muito mais se aproximaria da visibilidade. Há, de fato, muitos casos em que se torna visível à pessoa de quem se pensou — o que provavelmente acontece pela inconsciente influência mesmérica emanando do pensador inicial. Esta forma de pensamento, porém, nada levaria em si da consciência do pensador. Uma vez emanada dele, seria normalmente uma entidade inteiramente à parte — não, é certo, sem relação nenhuma com o seu criador, mas à parte dele pelo menos no que diz respeito à possi­bilidade de receber qualquer impressão.

Este terceiro tipo de clarividência consiste, pois, do poder de manter tanta ligação com, e tanto poder sobre, uma forma de pensamento recém emitida que seja possível receber impressões por meio dela. As impressões que a forma receber serão, neste caso, transmitidas ao pensador — não, como antes, por meio do fio telegráfico astral, mas por vibração simpática. Num caso perfeito deste gênero de clarividência, é exatamente como se o pensador projetasse uma parte da sua consciência para dentro da forma de pensamento, e a usasse como uma espécie de vedeta, através da qual lhe fosse possível observar. Vê tão bem como se estivesse ele próprio no lugar onde está a sua forma de pensamento.

As figuras para que estiver olhando parecer-lhe-ão de tamanho natural e próximas, em lugar de pequenas e a distância, como no caso anterior; e verá que lhe é possível deslocar, querendo, o seu ponto de vista. A clariaudição acompanha talvez menos freqüentemente este tipo de clarividência, do que o anterior, mas o seu lugar é até certo ponto tomado por uma espécie de percepção mental dos pensamentos e das intenções daqueles que estão sendo vistos.

Visto que a consciência do indivíduo está ainda no corpo físico, ser-lhe-á possível, mesmo no momento em que estiver exercendo esta faculdade, ouvir e falar, tanto quanto lhe seja possível fazê-lo sem quebra

33da sua atenção. Logo que lhe falhe a concentração do seu pensamento, toda a visão desaparece, e ele terá que construir uma nova forma de pensamento antes que a possa continuar. Os casos em que este gênero de visão acontece com sensível relevo a indivíduos sem instrução são, como é de supor, mais raros do que com respeito ao tipo anterior, por causa da capacidade de domínio mental que é precisa e a natureza em geral mais sutil das forcas que entram em ação.

4. — Viajando no corpo astral. - Trata-se agora de uma variedade inteiramente nova de clarividência, na qual a consciência do vidente já não permanece no seu corpo físico ou em íntima relação com ele, mas se transporta nitidamente à cena que está examinando. Ainda que tenha, sem dúvida, maiores perigos para o vidente não-instruído do que qualquer dos métodos já descritos, é, ainda assim, a melhor e mais completa forma de clarividência que lhe é possível, porquanto aquela forma imensamente superior, de que trataremos em quinto lugar, não é possível senão aos operadores altamente educados.

Neste caso o corpo do indivíduo está ou em sono ou em transe, e os seus órgãos não são portanto utilizáveis enquanto a visão dura, de modo que toda a descrição do que se vê, e todas as perguntas a propósito de detalhes, têm de ficar para quando o viajante regressa ao plano físico. Mas a visão desta ordem é muito mais completa e mais perfeita; o indivíduo ouve, assim como vê, tudo quanto perante ele se passa e pode mover-se livremente, conforme queira, dentro dos limites larguíssimos do plano astral. Pode ver e estudar com vagar todos os outros habitantes desse plano, de modo que o grande mundo dos espíritos da natureza (do qual o tradicional país das fadas não é senão uma parte pequeníssima) lhe está patente, assim como aquele dalguns dos devas inferiores.

Tem também a enorme vantagem de poder, por assim dizer, tomar parte nas cenas que se passam à sua vista, e de conversar livremente com essas várias entidades astrais, com quem tanto, de curioso e de interessante, há a aprender. Se, além disso, pode aprender a materializar-se (o que não apresenta grande dificuldade, uma vez que ele saiba como isso se faz), poderá tomar parte em acontecimentos físicos ou conversas passadas a grande distância, e mostrar-se a um amigo ausente, sempre que assim queira.

Tem, além disso, a faculdade de poder procurar o que deseja. Por meio das outras variedades de clarividência, que antes descrevemos, ele realmente só poderia encontrar um lugar ou uma pessoa se já os conhecesse, ou então pondo-se en rapport com eles pelo contato com qualquer cousa fisicamente com eles relacionada, como na psicometria. É verdade que no terceiro dos métodos, que descrevemos, é possível um certo movimento, mas o processo é lento e difícil, exceto para distâncias muito pequenas.

Pelo uso do corpo astral, porém, um indivíduo pode deslocar-se livre e prontamente em qualquer direção, pode (por exemplo) encontrar sem dificuldade um lugar apontado num mapa, mesmo sem prévio conhecimento do lugar ou razão especial para estabelecer uma ligação com ele. Pode tam bém com facilidade subir ao ar de modo a obter uma vista de conjunto do país que está examinando, de modo a saber a sua extensão, o contorno das suas costas, ou o aspecto geral da sua paisagem. Na verdade, de todas as maneiras o seu poder e a sua liberdade são muito maiores quando emprega este método do que em qualquer dos casos anteriores.

Um bom exemplo da plena posse desta faculdade é citada, reportando--se ao escritor alemão Jung Stilling, por Mrs. Crowe no seu livro O Lado Noturno da Natureza (p. 127). A história diz respeito a um vidente que se diz ter residido nos arrabaldes de Filadélfia, na América. Os seus hábitos eram solitários e reservados; era grave, bondoso e de índole religiosa, nada se dizendo contra o seu caráter, salvo que tinha a reputação de estar de posse de alguns segredos que não eram considerados como sendo de todolícitos. Dele se contavam muitas histórias extraordinárias, e entre elas a seguinte:

"A esposa de um comandante de navios (o qual tinha ido em viagem à Europa e à África, e de quem ela havia tempos não recebera notícias), apoquentada com esse fato, decidiu dirigir-se a esse indivíduo. Tendo ouvido o que ela lhe contou, ele pediu-lhe que o desculpasse um momento, ao fim do qual lhe traria a informação que ela desejava. Dito isto, entrou para um quarto interior e ela sentou-se a esperar que ele voltasse; como, porém, se demorasse mais do que ela esperava, ela, na sua impaciência julgando que ele se esquecera, aproximou-se da porta para o outro quarto e espreitou por qualquer greta. Foi grande a sua surpresa quando o viu estendido sobre um sofá, imóvel como se estivesse morto. Achando bom não o interromper, sentou-se outra vez e esperou que ele voltasse. Ao voltar, ele disse-lhe que o marido lhe não tinha podido escrever por várias razões, que enumerou, mas que estava ao momento num café em Londres e dentro em pouco regressaria à América.

"O comandante chegou de aí a pouco, e, como a senhora lhe ouvisse dar para o seu prolongado silêncio precisamente as mesmas causas que o indivíduo tinha indicado, ficou com um grande desejo de averiguar a verda de do resto da informação que lhe havia sido dada. Isto conseguiu, porque o capitão, mal pôs a vista em cima do mago, disse que já o tinha visto um certo dia, num café de Londres, onde ele lhe tinha dito que a sua esposa estava muito inquieta a seu respeito, ao que ele (comandante) tinha respon dido dando as razões por que não escrevera e acrescentando que em breve embarcaria para a América. Depois perdera de vista o estranho, no meio da multidão, e nada mais sabia a seu respeito."

34Não temos agora, é claro, maneira alguma de saber que razões tinha Jung Stilling para crer na verdade desse caso, ainda que ele se declare plena­mente satisfeito com as fontes onde o colheu; mas tanta cousa parecida se tem dado que não há razão para duvidar da sua autenticidade. O vidente, deve, porém, ter desenvolvido a sua faculdade, ou por si, ou em qualquer outra escola que aquela donde se deriva a informação teosófica; porque no nosso caso há uma regra bem explícita proibindo expressamente aos alunos que dêem desse poder qualquer manifestação que possa ser nitidamente verificada dum lado e doutro, como o caso citado, e constituir aquilo a que se chama um "fenômeno". Que esta regra é bem prudente, prova-o, perante todos quantos conheçam alguma cousa da história da nossa Sociedade, o resultado desastroso que produziu uma pequeníssima e temporária quebra dela.

Citei alguns casos modernos, quase paralelos ao que se citou, no meu livrinho sobre Auxiliares Invisíveis. O caso de uma senhora que conheço muito bem, e freqüentemente assim aparece a amigos ausentes, é citado pelo sr. Stead em Histórias Verdadeiras de Espectros (p. 27); e o sr. Andrew Lang relata, no seu livro Sonhos e Espectros (p. 89), como o sr. Cleave, então em Portsmouth, apareceu intencionalmente duas vezes a uma senhora que estava em Londres, assustando-a bastante. Há um grande número de testemunhos sobre o assunto, como pode verificar quem o quiser estudar a sério.

A realização de visitas astrais intencionais parece muitas vezes tornar-se possível, quando os princípios se estão desligando com a aproximação da morte, a pessoas que seriam incapazes de tal fazer em qualquer outra ocasião. Há ainda mais exemplos desta classe do que da outra; resumo aqui um, muito bom, citado pelo sr. Andrew Lang, à p. 100 do livro acima citado — um exemplo de que o autor diz que "não há muitas histórias que tenham em seu favor um testemunho tão completo".

"Mary, esposa de John Goffe, de Rochester, tendo caído de cama com uma longa doença, foi transportada para casa de seu pai, em West Mailing, a umas nove milhas de distância da sua própria casa.

"No dia antes de morrer tornou-se impacientemente desejosa de ver os seus dois filhos, que tinha deixado em casa, ao cuidado de uma ama. Mas estava doente demais para que a pudessem transportar, e entre a uma hora e as duas da madrugada caiu em transe. Uma viúva de apelido Turner, que estava velando essa noite ao pé do leito, diz que os seus olhos estavam abertos e fixos e o queixo caído. Mrs. Turner pousou-lhe a mão sobre a boca, mas não pôde sentir respiração alguma. Julgou-a num ataque, nem tinha a certeza se ela estava viva ou morta.

"Na manhã seguinte a moribunda disse à mãe que tinha estado em

casa, com os filhos, explicando: "Estive com eles a noite passada, enquanto dormia".

"A ama, que estava em Rochester, uma viúva chamada Alexander, afirma que um pouco antes das duas horas da madrugada viu a imagem da dita Mary Goffe sair do quarto ao lado (onde a mais velha das duas crianças estava a dormir), pois que a porta entre os dois quartos ficara aberta, e demorar-se perto de um quarto de hora à beira do leito dela (ama), onde estava, a seu lado, dormindo, a criança mais nova. Os olhos moviam-se e a boca também, mas não disse nada. A ama acrescenta que estava perfeita mente acordada; já era dia, pois que era esse um dos dias mais longos do ano. Sentou-se na cama e olhou fixamente para a aparição. Nessa altura ouviu o relógio da ponte dar duas horas, e pouco depois dirigiu-se à imagem, dizendo: "Em nome do Padre, do Filho e do Espírito Santo, o que és tu?" Então a aparição afastou-se e desapareceu; a ama vestiu-se e seguiu, mas não pôde ver o que foi feito da imagem."

A ama parece ter ficado mais assustada com o desaparecimento da imagem, do que com a presença dela, porque depois disto teve medo de ficar dentro de casa, e passou o resto do tempo até às seis horas a passear fora da porta para um lado e para o outro. Quando os vizinhos acordaram, ela contou-lhes tudo, e eles, é claro, disseram que ela o tinha sonhado; ela, como é natural, repudiou calorosamente essa idéia, mas não pôde conseguir que se desse algum valor às suas palavras senão quando chegou a notícia do que se tinha passado do outro lado, em West Mailing, e então houve quem pensasse que talvez a história não fosse inteiramente um sonho.

O que há de notável neste caso é que à mãe foi preciso passar do sono vulgar para a condição, mais profunda, do transe antes que pudesse conscientemente visitar os filhos; há, porém, vários casos análogos que é possível respigar entre o vasto número deles que se encontra nos livros que versam tal assunto.

Dois outros casos de tipo exatamente semelhante — em que uma mãe moribunda, desejando ardentemente ver os seus filhos, cai num sono profundo, visita-os e regressa a si, dizendo que os visitou — são contados pelo Dr. F. G. Lee. Em um deles a mãe, moribunda no Egito, aparece aos filhos em Torquay, e é vista nitidamente, e em plena luz do dia, por todos os cinco filhos e também por uma criada que os acompanhava. (Vislumbres do Sobrenatural, vol. II, p. 64.) No outro uma senhora quaker, moribunda em Cockermouth, é vista e reconhecida em pleno dia em Settle pêlos seus três filhos, sendo o resto da história mais ou menos semelhante ao da outra(Vislumbres no Crepúsculo, p. 94). Ainda que estes casos sejam menos conhecidos do que o de Mary Goffe, a evidência em favor da sua autentici­dade parece ser tão boa como naquele, como se verá pêlos testemunhos aduzidos pelo reverendo autor dos livros de onde os citamos.

O homem que possui completamente este quarto tipo de clarividência tem ao seu dispor muitas e grandes vantagens, mesmo além das que já referimos. Não só pode visitar sem trabalho ou despesa todos os 'lugares famosos e belos da terra, mas, se é um erudito, considerai o que vale para ele o poder de visitar todas as bibliotecas do mundo! Que prazer não deve dar ao indivíduo de mentalidade científica o poder assistir a tantos dos processos da química secreta da natureza, ou ao filósofo o ver revelado a seus olhos muito e muito mais, do que antes sabia, dos mistérios da vida e da morte! Para ele aqueles que saíram deste plano não são já mortos, mas vivos e ao seu alcance durante muito tempo ainda; para ele muitas das concepções religiosas são já matéria, não de fé, mas de conhecimento. E, além de tudo, ele pode unir-se ao exército dos auxiliares invisíveis e ser útil em grande escala. Sem dúvida que a clarividência, mesmo quando limitada ao plano astral, é um 'grande benefício para o indivíduo.

Por certo que tem também os seus perigos, sobretudo para os não-instruídos, o perigo das entidades malignas de várias espécies, que podem assustar ou atacar aqueles que se deixam perder a coragem de as encarar ousadamente; o perigo de erros de toda a natureza, de conceber mal e interpretar mal aquilo que se vê; e, maior do que todos, o perigo de criar a vaidade desse poder e julgar impossível o erro por meio dela. Mas uma pequena dose de bom senso e de experiência devem salvar o indivíduo destes escolhos.

5. — Viajando no corpo mental. — Trata-se, simplesmente, de uma forma mais alta, e, por assim dizer, glorificada, do tipo que acabamos de descrever. O instrumento empregado já não é o corpo astral, mas o mental

— um instrumento, portanto, pertencente ao plano mental, e tendo em si todas as potencialidades do maravilhoso sentido desse plano, tão transcen­dente na sua ação e contudo tão impossível de descrever. Um indivíduo funcionando neste corpo deixa atrás o seu corpo astral, junto com o físico, e se por qualquer razão deseja mostrar-se sobre o plano astral, não manda buscar o seu corpo astral, mas, apenas por um simples ato de vontade, materializa-se um para o seu fim temporário. A uma materialização astral dessas chamam às vezes a mâyâvirüpa, e para a formar a primeira vez é em geral preciso o auxílio dum Mestre qualificado.

As enormes vantagens dadas pela posse deste poder são a capacidade de entrar na glória e na beleza da terra superior da felicidade, e a posse, mesmo quando operando no plano astral, do sentido mental, muito mais compreensivo, que revela ao estudioso tantas extraordinárias visões de conhecimento, tornando o erro, pode-se dizer que impossível. Este vôo altíssimo, porém. é possível apenas ao indivíduo instruído, visto que só

depois de uma instrução especial é que um indivíduo no atual estádio evolutivo da humanidade pode aprender a empregar o seu corpo mental como instrumento.

Antes de abandonarmos o assunto da clarividência plena e intencional, será bom dedicar algumas palavras a responder a algumas perguntas, que em geral lembram aos estudiosos, sobre as limitações dessa faculdade. Ao vidente será possível, muitas vezes se pergunta, encontrar qualquer pessoa com quem deseje comunicar, esteja ela viva ou morta?

A resposta a esta pergunta terá de ser uma afirmativa condicional. Sim, será possível encontrar qualquer pessoa se o experimentador puder, dum modo ou doutro, colocar-se en rapport com essa pessoa. Seria inútil lançar-se vagamente nos espaços à procura dum estranho entre os milhões que nos cercam, sem ter qualquer indicação para o encontrar; mas, verdade seja, uma indicação pequeníssima é em geral quanto basta.

Se o clarividente sabe qualquer cousa do indivíduo que procura, não terá dificuldade em o encontrar, porque cada indivíduo tem aquilo a que se pode chamar uma nota musical que o caracteriza — uma nota que é a expressão dele como conjunto, produzida talvez por uma espécie de média dos graus de vibração de todos os seus instrumentos diferentes nos seus respectivos planos. Se o operador sabe descobrir essa nota e vibrá-la, ela fará, por vibração simpática, com que a atenção do indivíduo, esteja ele onde estiver, seja atraída e acordará nele uma resposta imediata.

Que o homem esteja vivo ou recém-morto não fará para o caso dife rença nenhuma, e a clarividência da quinta classe encontrá-lo-ia imediata mente mesmo entre os inúmero., milhões no mundo celestial, se bem que nesse caso o indivíduo procurado não teria consciência de o estarem observan do. Claro está que um vidente cuja consciência não esteja mais alta de que o plano astral — que empregue portanto um dos primeiros métodos de vidência — não será capaz de encontrar um indivíduo no plano mental; mas mesmo esse saberá ao menos que o indivíduo está nesse plano, pelo simples fato de a vibração da nota até ao nível astral não produzir resposta nenhuma.

Se o indivíduo procurado for inteiramente estranho ao operador, este precisará de qualquer coisa relacionada com ele para o pôr na pista — um retraio, uma carta por ele escrita, um objeto que lhe pertenceu e se ache impregnado do seu magnetismo pessoal; qualquer destas cousas servirá nas mãos dum vidente experiente.

Torno a lembrar que não se deve crer que os alunos que aprenderam a usar esta arte têm a liberdade de estabelecer uma espécie de escritório de informações pelo qual se possa comunicar com parentes perdidos ou mortos. Um recado dado deste lado para um desses poderá ou não ser passado para ele, conforme as circunstâncias, mas, mesmo que fosse, o mais provável é que se não receba resposta, visto que então a transação entraria na categoria de um fenômeno — isto é, qualquer cousa que se podia provar no plano físico ter sido um ato de magia.

Uma outra pergunta, que muitas vezes surge, é se no ato de visão psíquica, há qualquer limitação quanto a distância. A resposta parece que deve ser que não deve haver limite senão o dos respectivos planos. Devemos não esquecer que os planos astral e mental da nossa terra são tão nitidamen te seus como a sua atmosfera, ainda que se estendam muito mais para além dela, mesmo no nosso espaço tridimensional do que o próprio ar. Por isso a passagem para, ou a visão detalhada de, outros planetas não seria possível a qualquer sistema de clarividência relacionado com estes planos. Ë na verdade perfeitamente possível e fácil ao indivíduo que elevou a sua cons­ciência até ao plano búdico passar para qualquer dos outros globos perten­centes à nossa cadeia de mundos, mas isso já não pertence ao assunto de que tratamos.

Ainda assim, uma boa dose de informação adicional acerca de outros planetas pode ser obtida pelo uso das faculdades clarividentes que descreve mos até agora. E possível tornar a vista enormemente mais clara passando para fora das constantes perturbações da atmosfera terrestre, e também não é difícil aprender como investir-se de um poder de aumentar muito elevado, de modo que mesmo pela clarividência usual se pode obter uma quantidade de conhecimentos astronômicos muito interessantes. Mas, no que respeita a esta Terra e ao que imediatamente a cerca, pode dizer-se que não há limites.

CLARIVIDÊNCIA NO ESPAÇO: SEMI-INTENCIONAL

Sob este título um pouco estranho reúno os casos de todos os indiví duos que claramente se propuseram ver qualquer cousa, mas sem terem noção do que essa cousa seria, nem domínio sobre a vista desde que hajam começado as visões — Micawbers psíquicos, que se colocam numa situação puramente receptiva e passam a esperar que qualquer cousa aconteça. Muitos médiuns de transe entrarão nesta categoria; ou se hipnotizam a si próprios, de qualquer maneira, ou são hipnotizados por qualquer "espírito-guia", passando depois a descrever as visões que aconteça passarem-lhes diante da vista. Às vezes, porém, quando neste estado, vêem o que se está passando a distância, e assim têm que tomar lugar entre os nossos "clari videntes no espaço".

Mas o grupo maior e mais espalhado destes clarividentes semi-intencionais é o dos vários gêneros de cristalovidentes — aqueles que, como diz o sr. Andrew Lang, "olham para dentro de uma esfera de cristal, de uma taça, de um espelho, de um pingo de tinta (Egito e índia), de um pingo de sangue (entre os maiores da Nova Zelândia), uma vasilha com água (peles-vermelhas), uma poça de água (Roma e África), água numa taça de vidro claro (em Fez), ou quase qualquer espécie de superfície polida"(Sonhos e Espectros, p. 57).

Duas páginas depois o sr. Lang dá-nos um ótimo exemplo da espécie de visão que mais freqüentemente se consegue desta maneira. "Tinha eu dado uma esfera de vidro", diz ele, "a uma jovem, Miss Baillie, que quase nada conseguiu ver nela. Ela emprestou-a a uma amiga, Miss Leslie, que viu um sofá antigo, grande, encarnado, coberto de musselina, que veio a encon trar numa casa de campo, que então desconhecia, e dali a dias aconteceu visitar. O irmão de Miss Baillie, um jovem atleta, chasqueou destas experiên cias, levou a esfera para o escritório e daí a pouco reapareceu, mostrando-se um tanto ou quanto perturbado. Admitiu que tinha visto uma visão — alguém que conhecia num quarto iluminado por um candeeiro. Durante a semana havia de descobrir se tinha acertado ou não. Aconteceu isto num domingo, às cinco e meia da tarde.

''Na terça-feira o sr. Baillie estava num baile numa cidade a umas quarenta milhas de distância de casa, e encontrou uma Miss Preston. "No domingo", disse ele, "pelas cinco horas e meia, vi-a; estava sentada ao pé dum candeeiro de petróleo, com um vestido que nunca lhe vi, uma blusa azul com rendas sobre os ombros; e estava deitando chá na chávena de um indivíduo vestido com um fato azul, que estava de costas para mim, de modo que da cara apenas lhe vi a guia do bigode".

"Ora essa! exclamou Miss Preston." "Então não estavam corridos os estores!"

"Eu estava em Dulby", respondeu o sr. Baillie, "e sem dúvida assim fora."

Ë este um caso absolutamente típico de cristalovidência — a cena absolutamente exata em todos os seus detalhes, como viram, e contudo absolutamente sem importância e evidentemente sem significação nenhuma para qualquer das pessoas, a não ser que serviu para provar ao sr. Baillie que a cristalovidência não era uma pura ilusão. E mais vulgar, talvez, as visões terem um caráter romântico — indivíduos em trajes estranhos, ou paisagens muito belas, ainda que em geral desconhecidas.

Ora qual é a explicação desta espécie de clarividência? Como acima indiquei, pertence em geral ao tipo de "corrente astral", e o cristal, ou outro qualquer objeto, constitui simplesmente um foco para a vontade do vidente, um ponto de partida conveniente para o seu tubo astral. Há indivíduos capazes de influenciar pela vontade aquilo que vêem, isto é, que têm o poder de apontar o telescópio para onde desejam; mas a grande maioria apenas pode formar um tubo casual e ver simplesmente o que acontece estar ao fim dele.

Às vezes trata-se, como no caso citado, de uma cena relativamente próxima; outras vezes a visão será de uma longínqua paisagem do oriente; outras, ainda, poderá ser o reflexo de qualquer fragmento de um registro acásico, e então a cena mostrará figuras com qualquer traje antigo, e o fenômeno pertencerá portanto à nossa terceira grande classe, a "clarivi dência no tempo". Diz-se que visões do futuro também às vezes surgem nos cristais; trata-se de um desenvolvimento de visão a que adiante nos referiremos.

Já vi um clarividente empregar, em vez da vulgar superfície brilhante, uma superfície baça, preta — uma mão cheia de carvão em pó num pires. De resto, parece ter pouca importância o objeto que serve de foco, exceto que o cristal puro tem sobre as outras substâncias a nítida vantagem de o arranjo peculiar de essência elemental ser especialmente excitante das faculdades "psíquicas".

Parece, porém, provável que nos casos onde uni pequeno objeto brilhante se emprega — como um ponto luminoso, ou o pingo de sangue

dos maiores — o caso seja, realmente, apenas de auto-hipnotização. Entre nações não-européias a experiência é muitas vezes precedida ou acompa nhada por ritos e invocações mágicas, de modo que é muito provável que a visão que se consiga seja realmente, não a do indivíduo, mas apenas a de qualquer entidade estranha, e assim o fenômeno será apenas um caso de possessão temporária, e não verdadeiramente de clarividência.

CLARIVIDÊNCIA NO ESPAÇO: NÃO-INTENCIONAL

Nesta classe podemos reunir todos aqueles casos em que as visões de qualquer acontecimento que se esteja passando a distância surgem inesperadamente e sem qualquer espécie de preparação. Há gente sujeita a este gênero de visões, ao passo que a muitos tal fenômeno aconteceu apenas uma vez em toda a vida. As visões são de todas as espécies e de todos os graus de perfeição, e podem, aparentemente, ser produzidas por várias causas. Às vezes a razão da visão é evidente, e o assunto da maior importância; outras vezes não se pode encontrar razão para ela, e os aconte cimentos vistos são dos mais banais e sem relevo.

Às vezes estes vislumbres da faculdade suprafísica vêm como visões em vigília; outras vezes revelam-se durante o sono como sonhos vívidos ou repetídíssimos. Neste último caso a vista empregada é, em geral, talvez da espécie que descrevemos na nossa quarta subdivisão da clarividência no espaço, porque o indivíduo que dorme viaja freqüentemente no seu corpo astral a um ponto qualquer com o qual as suas afeições ou os seus interesses estejam fortemente relacionados, examinando simplesmente o que se esteja passando nesse ponto; no outro caso parece mais provável que se esteja dando o segundo tipo de clarividência, por meio da corrente astral. Mas neste caso a corrente ou tubo é formado de modo inteiramente inconscien te, e é muitas vezes o resultado automático de um pensamento ou emoção forte projetado de uma extremidade ou de outra — do vidente ou do indivíduo visto.

O plano mais simples será o de dar alguns exemplos dos vários gêneros, juntando-lhes as explicações que pareçam necessárias. O sr. Stead coligiu um grande e variado número de casos recentes e bem-autenticados no seu livro Histórias Verdadeiras de Espectros, de onde extrairei alguns dos meus exemplos, resumindo ligeiramente, por vezes, para poupar espaço.

Há casos em que é imediatamente evidente a qualquer estudioso da Teosofia de que o caso excepcional de clarividência foi especialmente produ zido por um do grupo a que chamamos os "Auxiliares Invisíveis", com o fim de que auxílio fosse prestado a alguém que dele muito carecia. A esta classe, sem dúvida, pertence o caso relatado pelo capitão Yonnt, de Napa Valley, Califórnia, ao dr. Bushnell, que o conta no seu livro A Natureza e o Sobrenatural (p. 14).

"Há seis ou sete anos, numa noite de inverno, ele teve um sonho em que viu o que parecia ser um grupo de emigrantes preso pelas neves das montanhas, e sucumbindo rapidamente ao frio e à fome. Reparou no aspecto da paisagem, caracterizada sobretudo por uma grande mole perpen dicular de rochedo branco; viu os homens cortando o que parecia ser cimos de árvores, que saíam de fundos abismos de neve; fixou as próprias fisiono mias das pessoas e a expressão geral de angústia que tinham.

"Acordou profundamente impressionado com a nitidez e aparente realidade do sonho. Tornou a adormecer, e tornou, com igual vividez, a sonhar o mesmo sonho. De manhã não conseguiu arrancá-lo do espírito. Encontrando-se, poucas horas depois, com um velho camarada, caçador, contou-lhe o caso, e ainda mais impressionado ficou quando o outro lhe declarou reconhecer imediatamente a paisagem descrita. Esse camarada tinha atravessado a Sierra pelo Carson Valley Pass, e disse que havia um lugar nesse trajeto que era exatamente como ele descrevera.

"Com isto o capitão, aliás homem de decisões rápidas, não hesitou. Reuniu um grupo de homens com mulas, cobertores e provisões. Os vizinhos riam da sua credulidade. "Não importa", dizia ele; "posso fazer isto, e não deixarei de o fazer, porque creio, verdadeiramente, que este meu sonho é certo." Os homens foram mandados seguir para cento e cinqüenta milhas daí, diretamente para Carson Valley Pass. E lá encontraram toda a compa nhia exatamente nas condições que o sonho indicara, conseguindo trazer consigo os sobreviventes."

Visto que não consta que o capitão Yonnt tivesse o hábito de ter visões, parece evidente que qualquer Auxiliar, vendo a condição desesperada do grupo de emigrantes, pegou na pessoa impressionável que estava mais próxima e mais útil seria para o caso (calhando ser o capitão) e o transpor tou ao local no corpo astral, acordando-o suficientemente para que a cena lhe não saísse da memória. Pode ser que o Auxiliar tivesse, em lugar disso, arranjado uma "corrente astral" para o capitão, mas o outro processo é o mais provável. Em todo o caso, o motivo, e mesmo o processo, são, neste, caso, bastante claros.

Às vezes a "corrente astral" pode ser posta em ação por um forte pensamento emotivo da outra extremidade do fio, e isto pode acontecer mesmo que o pensador não tenha conscientemente desejado que assim seja. No caso, assaz curioso, que vou relatar, é evidente que a ligação se encontra no fato de o doutor pensar constantemente em Mrs. Broughton, ainda que não tivesse um desejo especial de que ela soubesse o que ele na ocasião estava fazendo. Não há dúvida que se trata deste gênero de clarividência: demonstra-o a fixidez do ponto de vista de Mrs. Broughton — o qual, note-se bem, não é o ponto de vista do doutor, simpaticamente transpor tado (como podia ter acontecido), visto que ela lhe vê as costas sem o reconhecer. O relato encontra-se nos Anais da Sociedade de Investigação Psíquica (vol. II, p. 160).

"Me. Broughton acordou de repente, numa noite do ano de 1844, e, acordando o marido, disse-lhe que uma cousa horrível tinha acontecido em França. Ele pediu-lhe que dormisse, e o não incomodasse. Ela respondeu-lhe que não estava a dormir quando viu o que por força lhe quis contar — o que na verdade vira.

"Primeiro um desastre de carruagem — ela não viu o desastre, mas apenas os resultados —, uma carruagem partida, uma multidão, um corpo erguido com cuidado e transportado para a casa mais próxima, e depois, sobre uma cama, uma figura que reconheceu como sendo a do duque de Orleans. Pouco a pouco viu amigos juntarem-se em torno ao leito — entre eles vários membros da família real francesa — a rainha, depois o rei, todos silenciosos, chorando, olhando para o duque evidentemente moribundo. Um indivíduo (ela não lhe via senão as costas e não podia saber quem era) era médico. Estava debruçado sobre o duque, tomando-lhe o pulso, com o relógio na outra mão. Depois a visão passou, e ela não tornou a ver mais nada.

"Logo que raiou o dia, Mrs. Broughton escreveu no seu diário tudo o que tinha visto. Era antes de haver a telegrafia elétrica, e por isso passaram dois ou mais dias antes que o Times noticiasse "A Morte do Duque de Orleans". Visitando Paris pouco depois, ela viu e reconheceu o local do desastre e teve também a explicação da impressão que recebera. O médico, que estivera ao pé do duque moribundo, era um velho amigo dela, e, ao estar ao pé do leito do duque, estava, por qualquer razão, constantemente pensando nela e na sua família."

Um caso mais vulgar é aquele em que uma afeição forte estabelece a precisa corrente; provavelmente uma corrente relativamente constante de pensamento mútuo está, nesse caso, constantemente passando entre os dois indivíduos, e qualquer súbita precisão ou difícil conjuntura da parte de qualquer deles dá temporariamente a essa corrente o poder de polarização que é necessário para que haja o telescópio astral. Um bom exemplo vem citado nos mesmos Anais (vol. I, p. 30).

"A 9 de setembro de 1848, no cerco de Mooltan, o General R ..., então ajudante do regimento, foi gravemente ferido; e, supondo-se à beira da morte, pediu a um dos oficiais que estavam com ele que lhe tirasse a aliança do dedo e a mandasse a sua esposa, que estava então a boas cento

e cinqüenta milhas de distância, em Ferozepore.

"Na noite de 9 de setembro de 1848, escreve sua esposa, "estando eu deitada sobre a cama, quase a pegar no sono, vi claramente o meu marido ser levado do campo de batalha, seriamente ferido, e ouvi a sua voz dizendo, "Tirem-me este anel do dedo e mandem-no a minha mulher." Durante todo o dia seguinte não pude arrancar do meu espírito quer a visão, quer a voz que ouvira.

"Depois vim a saber que o general R ... tinha sido gravemente ferido no ataque a Mooltan. Escapou porém, e ainda vive. Foi só bastante tempo depois do cerco que ouvi dizer ao general L ..., o oficial que ajudou a conduzir meu marido para fora do campo de batalha, que o pedido a propósi­to do anel fora realmente feito por ele, exatamente pelas palavras que eu ouvi, na mesma ocasião, em Ferozepore."

Há, depois, aquela grande classe de clarivisões casuais que não têm causa que se possa descobrir — que não têm, aparentemente, sentido nenhum, ou relação alguma com quaisquer acontecimentos conhecidos do vidente. A este grupo pertencem muitas das paisagens vistas por algumas pessoas antes de adormecer. Transcrevo um relato, magnífico e fortemente vincado, do livroHistórias Verdadeiras de Espectros do sr. W. T. Stead (p. 65):

"Deitei-me mas não pude dormir. Fechei os olhos e esperei que o sono chegasse; em vez de sono surgiram-me, porém, em série, vários quadros clarividentes curiosamente vividos. Não havia luz no quarto, e estava tudo absolutamente escuro; além disso, tinha os olhos fechados. Mas, apesar da escuridão, tive de repente consciência de estar olhando para uma cena de singular beleza. Era como se estivesse olhando para uma miniatura viva, do tamanho de uma chapa de lanterna-mágica. Tenho agora presente a cena, como se ainda a estivesse vendo. Era uma paisagem à beira-mar. A lua brilhava sobre as águas, _que subiam pela praia lentamente. Defronte de num uma extensa mole de terra entrava pelo mar dentro.

''De cada lado dela havia rochedos irregulares, erguendo-se acima da superfície das águas. Na costa estavam várias casas, quadradas e rudes, sem semelhança com qualquer tipo de casa que eu conhecesse. Não havia ali vivalma, mas só a lua e o mar e o brilho do luar sobre as águas inquietas, exatamente como se eu estivesse olhando diretamente para a paisagem real.

"Era tão belo que me recorde de ter pensado que, se aquilo continuasse, eu tomaria tanto interesse que não me deixaria dormir. Estava bem acordado, e ao mesmo tempo que via essa cena, ouvia claramente o som da chuva lá fora. Então, de repente, sem fim ou razão aparente, a cena mudou.

"O luar e o mar desapareceram, e. em vez de os ver, vi que estava olhando para o interior de uma sala de leitura. Parecia uma sala usada para aula de dia, e para sala de leitura de noite. Lembro-me de ver um leitor curiosamente parecido com o Tim Harrington, se bem que não fosse ele. levantar na mão um livro ou revista e desatar a rir. Não era um quadro: estava ali.

"A cena era exatamente como se se estivesse a olhar por um binóculo; via-se o jogo muscular, o brilho dos olhos, todos os movimentos das pessoas desconhecidas no lugar desconhecido para onde se estava olhando. Vi tudo isso sem abrir os olhos, nem propriamente tinham meus olhos qualquer cousa que ver com aquilo tudo. Estas cousas vêem-se como que com um outro sentido, que mais parece estar dentro da cabeça do que nos olhos.

"Foi uma experiência muito fraca e sem importância, mas fez-me compreender, melhor do que milhares de explicações, como é que os clari­videntes vêem.

"Os quadros eram a propósito de nada; não foram sugeridos por cousa alguma que eu tivesse lido ou de que tivesse falado; apareceram simplesmente como se eu pudesse espreitar por uma janela para o que estava acontecendo num outro lugar qualquer. Espreitei essa vez, e passou, nem tornei a ter outra experiência desse gênero."

O sr. Stead acha que aquilo foi "uma experiência muito fraca e sem importância", e talvez assim a devamos considerar em relação às maiores possibilidades; conheço, porém, muitos estudiosos que se considerariam felizes se tivessem tido tanto como isso a contar de sua experiência pessoal. Por pequena que seja, dá imediatamente ao vidente uma noção verdadeira do fenômeno, e para o indivíduo que viu mesmo esse pouco a clarividência é um fato real a um ponto que nunca poderá ser para o que não tiver tido esse pequeno contato com o mundo invisível.

Esses quadros foram vividos demais para que pudessem ser meros reflexos do pensamento alheio, e, além disso, a descrição mostra, sem que possa haver dúvida, que foram vistos por um telescópio astral; de modo que, ou o sr. Stead inconscientemente estabeleceu, por si, uma corrente, ou (o que é mais provável) qualquer amável entidade astral lhe fez esse serviço. dando-lhe, para lhe aliviar uma hora aborrecida, quaisquer quadros agradá­veis que acontecesse estarem no fim Ho tubo.

CLARIVIDÊNCIA NO TEMPO: O PASSADO

A clarividência no tempo — isto é, o poder de ler o passado e o futuro — é, como todas as outras variedades, possuída por diferentes pessoas em graus muito diferentes, desde o indivíduo que tem ambas as faculdades sob o pleno domínio da sua vontade, até àquele que apenas de vez em quando tem vislumbres ou reflexos involuntários e imperfeitíssimos destas cenas de outros dias. Um indivíduo deste último tipo poderá ter, por exemplo, uma visão de algum acontecimento do passado; mas essa visão está sujeita a uma deformação gravíssima, e, mesmo quando acontecesse ser razoavelmente precisa, é quase certo que seria apenas um quadro isolado, e o vidente seria provavelmente incapaz de o relacionar com acontecimentos anteriores ou posteriores, ou dar uma explicação cabal de qualquer detalhe mais estranho que nela aparecesse. O vidente educado, pelo contrário, poderia seguir o drama, a que essa cena está ligada, para antes ou para depois dela, tanto quanto quisesse, e traçar com igual facilidade as causas que a haviam produ zido ou os resultados que dela adviriam.

Talvez com mais facilidade compreendamos esta nada fácil seção do nosso assunto se a examinarmos segundo as subdivisões que naturalmente nos ocorrem, tratando primeiro da visão que olha, retrospectivamente, para o passado, e deixando para depois aquela que trespassa o véu do futuro. Em qualquer dos casos será bom que tentemos compreender, tanto quanto possível, o modus operandi, ainda que apenas imperfeitamente o consigamos fazer, devido, em primeiro lugar, ao caráter incompleto da informação sobre alguns pontos do assunto que os nossos investigadores por enquanto possuem, e, depois, à constante incompetência das palavras do mundo físico para exprimir um centésimo que seja do pouco que realmente sabemos a respeito dos planos e das faculdades superiores.

Tratando, pois, do caso de uma visão detalhada do passado longínquo, como é que ela se obtém, e a que plano da natureza é que verdadeiramente pertence'!1 A resposta a ambas as perguntas cifra-se em se dizer que se trata apenas de ler os registros akáshicos, mas esta afirmação, por sua vez, carecerá, para muitos leitores, de ser nitidamente explicada. O termo é, na verdade, até certo ponto impróprio, porque, ainda que os registros sejam sem dúvida lidos no akasha, ou matéria do plano mental, não é a ela, em todo o caso, que verdadeiramente pertencem. Pior ainda é o outro titulo "registros da luz astral", que por vezes tem sido empregado, pois que esses registros estão muito além do plano astral, e tudo o que neste se pode obter não passa de fragmentários vislumbres de uma espécie de duplo reflexo deles, conforme adiante se explicará.

Como tantos outros dos nossos termos teosóficos, a palavra akasha tem sido empregada sem grande justeza. Em alguns dos nossos primeiros livros era tida por sinônimo de luz astral, em outros era usada para significar qualquer espécie de matéria invisível, desde a mülaprakriti até ao éter físico. Nos livros mais recentes a sua aplicação tem sido restringida à matéria do plano mental, e é nesse sentido que se pode dizer dos registros que são akáshicos, porque, conquanto não sejam originalmente feitos nesse plano, como o não são no astral, em todo o caso é ali que primeiro nitidamente os encontramos e podemos com eles trabalhar cabalmente.

O assunto dos registros não é de modo algum fácil de tratar, porque pertence àquela numerosa classe que exige para a sua perfeita compreensão faculdades muito mais elevadas do que quaisquer que a humanidade por enquanto tenha adquirido. A verdadeira solução do problema está em planos muito além de quaisquer dos que nos é possível conhecer atualmente, e qualquer opinião que formemos do assunto terá de ser forçosamente imperfeitíssima, visto que é de baixo, e não de cima, que olhamos para o caso. A noção que dele formamos terá pois que ser apenas parcial, e contudo escusa de nos induzir em erro, a não ser que nos deixemos considerar esse pequeno fragmento, que é tudo quanto podemos ver, como se fosse o todo completo e perfeito. Se tivermos o cuidado de assegurar que os conceitos que formarmos sejam justos até onde cheguem, nada teremos que desapren der, ainda que muito tenhamos a acrescentar, quando, no decurso do nosso ulterior progresso, atingirmos uma mais perfeita sabedoria. Fique, pois, assente logo desde o princípio que uma idéia completa deste assunto é de todo impossível no nosso atual estádio evolutivo, e que muitos pontos surgirão, dos quais somos por enquanto incapazes de dar uma explicação exata, ainda que muitas vezes seja possível sugerir analogias e indicar a direção em que deve estar a explicação verdadeira.

Tentemos pois recuar o nosso pensamento até ao princípio deste sistema solar a que pertencemos. Conhecemos toda a vulgar teoria astronômica da sua origem — a hipótese nebular. como é costume chamar-lhe — segundo a qual ele primeiro existiu como uma enorme nebulosa ardente, de um diâmetro excedendo muito a órbita mesmo do mais afastado dos planetas, e como, depois, á medida que, no decurso de séculos sem número.

essa enorme esfera pouco a pouco, resfriando, se contraía, o sistema, tal qual o conhecemos, se formou.

A ciência oculta aceita essa teoria, nas suas linhas gerais, como repre­sentando acertadamente o lado puramente físico da evolução do nosso sistema, mas acrescenta que, se limitarmos a nossa atenção apenas a este lado físico, teremos uma idéia muito incompleta e incoerente do que realmen te aconteceu. Ela postula, em primeiro lugar, que o Ser elevadíssimo que toma a seu cargo a formação de um sistema (ao qual por vezes chamamos o Logos do sistema) principia por formar no Seu espírito uma idéia comple ta de todo o sistema com as suas sucessivas cadeias de mundos. Pelo próprio ato de formar essa idéia Ele dá ao conjunto uma existência objetiva simul tânea no plano do Seu pensamento — um plano, é claro, inteiramente superior a todos aqueles de que tenhamos qualquer conhecimento — do qual os vários globos descem, quando é preciso, a qualquer estado de maior objetividade que respectivamente se lhes destine. A não ser que tenhamos sempre presente este fato da existência real de todo o sistema, desde o princípio, num plano superior, erraremos repetidas vezes o sentido da evolução física que cá em baixo vemos desenrolar-se.

Mas o ocultismo tem mais do que isto a dizer-nos sobre o assunto. Diz-nos não só que a este maravilhoso sistema, a que pertencemos, foi dada a existência pelo Logos, tanto nos planos inferiores como nos superio res, mas também que a sua relação para com Ele é mais íntima mesmo do que isso, porque o sistema é absolutamente uma parte dEle — uma expressão parcial dEle no plano físico — e que o movimento e a energia de todo o sistema sãoa Sua energia, e que tudo acontece dentro dos limites da Sua aura. Esta concepção, por estupenda que seja, não é porém inteira mente improvável àqueles de nós que alguma cousa da aura tiverem estudado.

Conhecemos bem a idéia de que, à medida que um indivíduo progride no caminho ascensional, o seu corpo causal, que é o limite determinante da sua aura, aumenta nitidamente em tamanho, assim como em luminosida de e pureza de cor. Muitos de nós sabem, pela experiência, que a aura de um aluno que já progrediu bastante no Caminho é muito maior do que a de um indivíduo que apenas tenha pousado o pé sobre o primeiro degrau, e no caso de um Adepto o aumento proporcional é ainda maior. Lemos na escritura oriental, em livros perfeitamente exotéricos, como era imensamen te extensa a aura do Buda; parece-me que há um trecho onde se dá três milhas como sendo o seu limite, mas, seja qual for a medida exata, é eviden te que aqui temos outro relato do crescimento extremamente rápido do corpo causal à medida que o homem progride no seu caminho ascensional. Pouca dúvida pode haver de que este crescimento se faz por progressão geométrica, de modo que não nos deve surpreender se nos falarem de um Adepto num nível ainda superior, cuja aura seja capaz de incluir ao mesmo tempo todo o mundo; e de aqui podemos pouco a pouco levar o nosso pensamento até conceber que haja um ser tão elevado que dentro de si abranja todo o nosso sistema solar. E não devemos esquecer que este, por enorme que nos pareça, não passa duma gota pequeníssima no vasto oceano do espaço.

Assim, do Logos (que em Si contém todas as capacidades e qualidades que podemos concebivelmente atribuir ao mais alto Deus que possamos imaginar) é literalmente verdade, como antigamente se disse, que "dEle e por Ele e para Ele são todas as cousas" e "nEle vivemos e nos movemos e temos o ser".

Ora, se isto é assim, é claro que o que acontece, seja o que for, no nosso sistema acontece absolutamente dentro da consciência do seu Logos, de modo que imediatamente compreendemos que o verdadeiro registro deve ser a Sua memória; e, além disso, é evidente que, seja em que plano for que essa memória exista, o certo é que está muito acima de tudo quanto conhecemos e que, portanto, quaisquer registros que possamos ler não podem passar de um reflexo desse grande fato dominante, espalhados nos meios mais densos dos planos inferiores.

No plano astral é logo evidente que assim é — que lidamos apenas com o reflexo dum reflexo, aliás extremamente imperfeito, porque os registros ali atingíveis estão excessivamente fragmentados e por vezes, mesmo, seria mente deformados. Sabemos quão universalmente a água é empregada como símbolo da luz astral, e neste caso o símbolo é notavelmente justo. Na superfície de água imóvel podemos ver, exatamente como num espelho, uma imagem nítida dos objetos em Sua volta; mas não passa de uma imagem — uma representação em duas dimensões de objetos tridimensionais, diver gindo portanto em todas as suas qualidades, exceto na cor, daquilo que representa; e, além disto, a imagem é sempre invertida.

Perturbe porém o vento a superfície da água, e o que é que teremos? Uma imagem ainda, um reflexo, mas tão quebrado e deformado que de nada serve, ou, mesmo, só serve para nos enganar com respeito ao feitio e verda deiro aspecto dos objetos refletidos. Aqui e ali, um momento, pode aconte cer que obtenhamos uma imagem verdadeira de qualquer pequeno detalhe da cena — de uma folha de árvore, por exemplo; mas seria preciso um longo trabalho e um conhecimento considerável das leis naturais para obter qualquer cousa como a verdadeira noção do objeto refletido, juntando mesmo um grande número de tais fragmentos isolados duma imagem sua.

Ora no plano astral nunca poderemos ter cousa que se assemelhe ao que representamos por uma superfície tranqüila, mas pelo contrário, trata-se

sempre de uma superfície em movimento rápido e perturbador; calcule-se, pois, o pouco que podemos confiar em .obter um reflexo claro e definido. Assim um clarividente que possui apenas a faculdade de vista astral nunca poderá confiar em que qualquer quadro do passado, que ante ele se erga, seja justo e certo; bocados dele, aqui e ali, podê-lo-ão ser, mas ele não tem meio de saber quais são esses bocados. Se está ao cuidado de um professor competente, pode, mediante uma instrução longa e cuidadosa, aprender a distinguir entre as impressões que são certas e as outras, e a construir com os reflexos incompletos uma espécie qualquer de imagem do objeto refleti do; mas, em geral, antes que tenha superado estas dificuldades, terá já desenvolvido a visão mental, que torna desnecessários tais esforços.

No plano seguinte, que é o mental, as condições são muito diferentes. Ali o registro é completo e certo, e o impossível seria errar a sua leitura. Isto é, se três clarividentes possuindo os poderes relativos ao plano mental decidissem todos examinar certo registro ali feito, o que se lhes mostraria seria exatamente a mesma cousa no caso de qualquer dos três, e cada um deles tiraria dessa leitura uma mesma, e exata, impressão. Mas não segue que, quando depois no plano físico comparassem as suas notas, os seus relatórios coincidissem perfeitamente. É bem sabido que, se três indivíduos, que testemunharam um acontecimento cá no plano físico, passarem depois a descrevê-lo, os seus relatos divergirão sensivelmente uns dos outros, porque cada indivíduo terá notado especialmente aqueles detalhes que mais o interessam e insensivelmente os terá tornado os traços capitais do aconteci mento, deixando por vezes outros pontos que foram na verdade de muito maior importância.

Ora no caso de uma observação sobre o plano mental esta equação pessoal pouco ou nada afetaria as impressões recebidas, porque, visto que cada indivíduo abrange por completo todo o assunto, ser-lhe-ia impossível ver fora de proporção as partes de que esse assunto é composto; mas, a não ser no caso de indivíduos cuidadosamente educados e experientes, este fator já entraria em jogo quando se tratasse da transferência das impressões para os planos inferiores. Pela natureza das cousas, é impossível que qual quer relato dado neste mundo a respeito de uma experiência ou visão do mundo mental possa ser completo, porque nove décimos de quanto se vê e sente ali não poderia de modo algum ser expresso em palavras físicas; e, visto que a expressão tem forçosamente de ser parcial, é claro que há uma possibilidade de escolha no que respeite â parte expressa. É por esta razão que em todas as nossas mais recentes investigações teosóficas tanto se tem insistido sobre a necessidade de constantemente controlar e verificar os testemunhos de clarividentes; tanto assim, que nada, que se baseie no testemunho de apenas uma pessoa, tem sido incluído nos nossos últimos livros.

53Mas, mesmo quando as possibilidades de erro, provenientes deste fator da equação pessoal, tenham sido reduzidas ao mínimo por um sistema de cuidadoso controle e verificação, permanece ainda a gravíssima dificul dade inerente à operação de trazer impressões de um plano superior para um plano inferior. É ela um pouco do mesmo gênero que a dificuldade do pintor para reproduzir uma paisagem tridimensional numa superfície plana — isto é, na verdade, em duas dimensões. Assim como ao artista é precisa uma longa e cuidadosa educação visual e manual antes que lhe seja possível dar uma interpretação satisfatória da natureza, assim ao clarividente é precisa uma longa e cuidadosa educação antes que possa descrever num plano inferior o que num plano superior se passa; e as probabilidades que há a favor de obtermos uma descrição exata feita por um indivíduo sem instruçãoclarividente equivalem pouco mais ou menos àquelas que há de obtermos uma perfeita representação pictural duma paisagem feita por um indivíduo que nunca aprendeu desenho.

Devemos também não esquecer que o quadro mais perfeito está na realidade infinitamente longe de ser uma reprodução da cena que representa, porque não há nele linha ou ângulo que possa na verdade ser como o é no objeto copiado. É simplesmente uma tentativa engenhosíssima de produzir sobre apenas um dos nossos cinco sentidos, por meio de linhas e cores numa superfície plana, uma impressão semelhante àquela que teríamos tido se houvéssemos tido diante de nós a cena representada. Exceto por meio duma sugestão inteiramente dependente da nossa experiência anterior, nada nos pode o quadro dar do rugido do oceano, do perfume das flores, do sabor dos frutos, ou da dureza ou moleza da superfície desenhada.

De natureza precisamente idêntica, se bem que em grau ainda maior, são as dificuldades que um clarividente sente ao tentar descrever no plano físico o que viu no plano astral; e elas são ainda acrescidas pelo fato que, em vez de ter de evocar no espírito dos seus ouvintes concepções que eles já muito bem conhecem, como faz o pintor quando desenha homens ou animais, campos ou árvores, o clarividente tem de tentar, com os meios imperfeitíssimos de que para isso dispõe, sugerir-lhes concepções que, na sua grande maioria, eles por completo desconhecem.

Pouco admira pois que, por brilhantes e vívidas que as suas descrições pareçam ao seu auditório, ele próprio constantemente sinta que elas são inteiramente insuficientes, e que os seus maiores esforços não conseguiram dar idéia nenhuma do que realmente vê. Nem nos devemos esquecer que, no caso do relato feito neste mundo de um registro lido no plano mental, essa difícil operação da transferência do superior para o inferior tem lugar, não uma vez, mas duas, visto que a memória teve de atravessar o plano astral intermédio. Mesmo num caso em que o investigador tenha a vantagem de ter

a tal ponto desenvolvido as suas faculdades mentais que as possa usar quando desperto no seu corpo físico, mesmo assim ainda o estorva a absolu­ta incapacidade da linguagem física para exprimir aquilo que ele vê.

Tentai um momento compreender bem aquilo a que se chama a quarta dimensão, da qual já alguma cousa dissemos num capítulo anterior. Não custa nada a visionar as nossas três dimensões — representar no nosso espírito o comprimento, a largura e a altura de qualquer corpo; e vemos que cada uma destas dimensões é representada por uma linha perpendicular às duas outras. A noção da quarta dimensão é a de ser possível arranjar uma quarta linha que seja perpendicular às outras três já existentes.

Ora o espírito vulgar de modo algum pode abranger este conceito, ainda que os poucos indivíduos que tenham feito um estudo especial do assunto pouco a pouco tenham vindo a poder compreender uma ou duas das mais simples figuras quadridimensionais.

Ainda assim, não há palavras que eles possam usar no plano físico que consigam pôr qualquer representação destas figuras diante dos olhos dos outros, e se qualquer leitor, que se não tenha especialmente educado nessa direção, tentar visualizar uma figura dessas, verá que lhe é inteiramente impossível fazê-lo. Ora exprimir uma forma dessas claramente em palavras físicas importaria, com efeito, descrever com justeza um objeto existente no plano astral; mas, se examinarmos os registros no plano mental; ver-nos-emos a braços com a dificuldade maior de uma quinta dimensão! De sorte que a impossibilidade de explicar completamente esses registros ficará patente mesmo à observação mais superficial.

Referimo-nos já aos registros como sendo a memória do Logos, mas eles são muito mais do que uma memória, no sentido vulgar da palavra. Por impossível que seja imaginar como essas imagens são do ponto de vista dEle, sabemos, porém, que, à medida que formos subindo, mais e mais nos estaremos aproximando da verdadeira memória — mais e mais perto estaremos do modo como Ele vê; de modo que têm um grande interesse as experiências do clarividente, com respeito a estes registros, quando ele atingiu já o plano búdico — o mais alto que a sua consciência pode alcançar, mesmo quando longe do seu corpo físico, até que ele atinja o nível dos Arhats.

Aqui já o tempo e o espaço o não limitam; já não precisa, como no plano mental, de passar revista a uma série de acontecimentos, porque o passado, o presente e o futuro lhe estão todos simultaneamente presentes, por absurda que pareça a frase neste mundo. Na verdade, por infinitamente abaixo do Logos que esteja mesmo esse plano elevadíssimo, é contudo absolutamente evidente pelo que ali vemos que para Ele o registro deve ser muito mais do que aquilo a que chamamos uma memória, porque tudo

54quanto aconteceu no passado, e tudo quanto acontecerá no futuro se está passando agora ante os Seus olhos exatamente como os acontecimentos daquilo a que chamamos o presente. Inteiramente incrível, loucamente incompreensível, é claro, para o nosso entendimento limitado; mas nem por isso menos verdadeiro.

É claro que, no nosso atua! estado de conhecimento, não podemos esperar compreender como é que se produz um tão maravilhoso resultado, e tentar explicá-lo implicaria apenas envolver-nos numa névoa de palavras que nenhuma informação nos dariam. Ocorre-me, porém, uma ordem de pensamentos que talvez torne possível esboçar o sentido dessa explicação: e tudo quanto nos ajude a compreender que tão estranha afirmação pode, apesar de tudo, não ser de todo absurda, deve ao menos servir para alargar os nossos espíritos.

Lembro-me ter lido, há uns trinta anos, um livrinho curiosíssimo intitulado, creio, As Estrelas e a Terra, cujo fim era demonstrar como era cientificamente possível que aos olhos de Deus o passado e o presente pudessem ser absolutamente simultâneos. Os argumentos empregados pareceram-me ao tempo muito engenhosos, e vou portanto resumi-los, visto que me parecem bastante sugestivos em relação ao assunto que tratamos.

Quando vemos qualquer cousa, quer seja o livro que temos na mão ou uma estrela a milhões de milhas de distância, fazemo-lo por uma vibração no éter, a que vulgarmente se chama um raio de luz, que passa do objeto visto para os nossos olhos. Ora a velocidade desta vibração é tão grande — umas 186.000 milhas por segundo — que, ao tratar de qualquer objeto no nosso mundo, a podemos ter por instantânea. Quando, porém, passamos a tratar de distâncias interplanetares, temos de levar em conta a velocidade da luz, porque já ao atravessar esses grandes espaços ela leva um tempo apreciável. Por exemplo: a luz leva oito minutos e um quarto a chegar-nos do Sol, de modo que, quando olhamos para o orbe solar, vemo-lo por meio de um raio de luz que o abandonou há mais de oito minutos.

De aqui segue um resultado muito curioso. O raio de luz pelo qual vemos o Sol só nos pode, evidentemente, contar o que se passava no Sol quando ele, raio de luz, começou a sua viagem, e em nada seria afetado por qualquer cousa que ali acontecesse depois de ele ter de lá partido; de modo que realmente vemos o Sol, não como ele é agora, mas como era há oito minutos. Quer dizer, se qualquer cousa de importante aconte cesse no Sol — a formação de uma nova mancha, por exemplo — um astrônomo que na ocasião estivesse observando esse orbe pelo telescópio nada saberia do incidente quando ele se estivesse dando, visto que o raio de luz que lhe traria as notícias dele só oito minutos mais tarde lhe chegaria.

A diferença é muito mais impressionante quando consideramos as

estrelas fixas, porque nesse caso as distâncias são enormemente maiores. A estrela polar, por exemplo, está tão longe que a luz, viajando com a incon cebível velocidade já indicada, leva um pouco mais de cinqüenta anos a chegar aos nossos olhos; e de aí segue a conclusão estranha mais inevitável que estamos agora vendo a estrela polar, não como ela é agora, mas como ela era há cinqüenta anos. Mesmo que amanhã uma catástrofe qualquer fizesse em pedaços a estrela polar, nós ainda a veríamos brilhando tranqüilamente nos céus; os nossos filhos chegariam ao princípio da velhice, e teriam já filhos crescidos, antes que houvesse chegado a qualquer vista terrestre a notícia dessa catástrofe tremenda. Da mesma maneira, há estrelas tão afastadas que a luz leva milhares de anos a chegar de elas até nós, e com respeito à condição delas a nossa informação sofre portanto um atraso de uns milhares de anos.

Levemos mais longe o argumento. Suponha-se que podíamos colocar um indivíduo, à distância de 186.000 milhas da terra, dando-lhe ao mesmo tempo a maravilhosa faculdade de ver de essa distância tão nitidamente o que aqui estava acontecendo como se estivesse ao pé de nós. É claro que o indivíduo ali colocado veria todas as cousas terrestres um segundo depois de elas se passarem, e no momento atual estaria vendo o que se passou há um segundo. Dobre-se a distância, e o indivíduo estaria dois segundos em atraso, e assim proporcionalmente; leve-se esse indivíduo até à distância do Sol (conservando-lhe sempre o mesmo misterioso poder de visão) e ele, olhando de lá, estaria agora vendo, não o que estais fazendo agora, mas o que estáveis fazendo há oito minutos e um quarto. Transporta-o à estrela polar, e ele terá ante os seus olhos, agora, os acontecimentos de há cinqüenta anos; estará observando as brincadeiras infantis de indivíduos que nessa mesma ocasião já são velhos. Por maravilhoso que isto pareça, é literalmente e cientificamente verdadeiro, e ninguém o pode negar.

O livrinho, a que me refiro, seguia argumentando, com uma excelente lógica, que Deus, sendo todo-poderoso, deve possuir o assombroso poder de visão que temos estado postulando para o nosso observador; e, mais, que, sendo onipresente, deve estar em todos os pontos onde colocamos o indivíduo, e também em todos os pontos intermédios, não sucessiva, mas simultaneamente. Concedidas estas premissas, segue a inevitável dedu ção que tudo quanto tenha acontecido desde o princípio do mundo deve estar neste momento acontecendo ante os olhos de Deus — não uma mera memória de tudo isso, mas os verdadeiros acontecimentos todos eles objeto da Sua observação atual,

Tudo isto é bastante materialista, e no plano da ciência puramente física, e podemos ter portanto a certeza de que não é assim que o Logos age; e contudo é brilhantemente deduzido e absolutamente irrefutável, e, como já disse, não deixa de ser útil, visto dar-nos um vislumbre de possibi lidades que podiam não nos ocorrer, se não fosse este argumento.

Mas, pode perguntar-se, como será possível, entre a confusão enorme dos registros do passado, encontrar qualquer cena, quando a desejarmos ver? O fato é que o clarividente sem instrução não o pode fazer, em geral, sem qualquer ligação especial que o ponha en rapport com o objeto de que se trate. A psicometria é um caso que pode servir de exemplo, e é bem provável que a nossa memória vulgar não seja senão uma outra forma da mesma idéia. Parece haver uma como que ligação ou afinidade magnética entre qualquer partícula de matéria e o registro que contém a sua história — uma afinidade que a torna apta a servir de uma espécie de fio condutor entre esse registro e as faculdades de qualquer indivíduo que o possa ler.

Por exemplo: uma vez que eu trouxe de Stonehenge um pedacito de pedra, do tamanho de uma cabeça de alfinete, e, tendo-o metido num envelope e entregado a uma psicômetra que nenhuma noção tinha do que aquilo era, ela imediatamente passou a descrever aquela maravilhosa ruína e a paisagem desolada que a cerca, descrevendo depois vividamente cousas que eram evidentemente cenas da sua antiga história; mostrando assim que aquele pequeníssimo fragmento tinha sido o suficiente para a pôr em comunicação com os registros relacionados com o ponto de onde eu o havia tirado. As cenas através de que passamos no decurso da nossa vida parecem agir sobre as células do nosso cérebro do mesmo modo que a história de Stonehenge sobre aquele pedacito de pedra: estabelecem uma ligação com aquelas células, por meio das quais o nosso espírito é posto en rapport com aquela porção especial dos registros, e, assim, "lembramo-nos" do que vimos.

Mesmo um clarividente educado precisa de uma ligação que o habilite a encontrar o registro de um acontecimento de que não tenha conhecimen to. Se, por exemplo, quiser observar o desembarque de Júlio César nas costas da Inglaterra, há várias maneiras por que pode entrar no assunto. Se por acaso visitou a cena da ocorrência, o mais simples será evocar a imagem do lugar e depois percorrer os seus registros até encontrar o período que deseja. Se não tiver visto o lugar, poderá volver atrás, no tempo, até a data em que se deu o acontecimento e então procurar pela Mancha uma flotilha de galés romanas; ou poderá examinar os registros da vida romana do tempo, onde não terá dificuldade em identificar uma figura tão saliente como a de César, seguindo-o através de todas as campanhas na Gália até o encontrar desembarcando nas costas britânicas.

Muita gente pergunta qual o aspecto destes registros — se parecem estar longe ou perto, se as figuras neles são pequenas ou grandes, se os quadros se seguem como num panorama ou se fundem como nas vistas

dissolventes. Só se pode responder que o seu aspecto varia bastante consoan te as condições em que os vemos. Se é no plano astral, o reflexo é em geral um simples quadro, ainda que por vezes as figuras tenham movimento; neste último caso, em vez de um mero instantâneo, deu-se um reflexo mais perfei to e prolongado.

No plano mental eles têm dois aspectos inteiramente diversos. Quando o visitante desse plano não está especialmente pensando neles, os registros formam simplesmente o fundo para o que esteja acontecendo. Não devemos esquecer que, nestas condições, eles não passam de imagens da atividade incessante de uma grande Consciência num plano muito superior, sendo muito parecidas com a sucessão sem fim de quadros cinematográficos. Não se fundem uns nos outros como quadros dissolventes, nem se seguem uns aos outros, como uma série de quadros; mas a ação das figuras refletidas constantemente decorre, como se estivéssemos olhando para atores num palco distante.

Mas se o investigador educado dirige a sua atenção sobre qualquer cena especial, ou se deseja evocá-la para que diante dele apareça, dá-se imediatamente uma mudança extraordinária, porque este é o plano do pensamento, e, aí, pensar em qualquer cousa é tê-la imediatamente diante de nós. Por exemplo, se um indivíduo deseja ver o registro do acontecimento que nos serviu de exemplo — o desembarque de César — encontra-se imedia tamente, não vendo qualquer quadro, mas presente na costa entre os legio nários, com a cena toda desenrolando-se em seu redor, exatamente como se ali tivesse estado, em carne e osso, naquela manhã de outono do ano 55 antes de Cristo. Visto que o que ele vê não passa de um reflexo, os atores não têm, é claro, nenhuma consciência dele, nem pode esforço algum seu mudar, por pouco que seja, o curso da ação deles, salvo apenas que pode dominar a rapidez com que o drama ante seus olhos se desenrola

— podendo fazer com que os acontecimentos de um ano lhe passem diante da vista numa hora, ou podendo, a qualquer altura, fazer parar o movimento, para contemplar, durante o tempo que quiser, qualquer cena especial como se fosse um quadro.

De resto, ele não só observa o que teria visto se ali tivesse estado em carne e osso, mas muito mais. Ouve e compreende tudo quanto essa gente diz, e tem consciência dos seus pensamentos e motivos; e uma das mais interessantes das várias possibilidades que se abrem perante quem aprendeu a ler o registro é o estudo do pensamento de épocas remotas — do pensamen­to dos homens das cavernas e das habitações lacustres, assim como aquele que dominou nas grandes civilizações da Atlântica, do Egito ou da Caldéia. E fácil de imaginar que esplêndidas possibilidades são as do indivíduo que está de plena posse deste poder. Tem diante de si um campo de investigação histórica do mais alto interesse. Não só pode passar revista, a seu vagar, a toda a história que conhecemos, corrigindo, à medida que a vai vendo, os muitos erros e erradas interpretações que há nos relatos que temos; pode também vaguear à sua vontade por toda a história do mundo desde o seu início, observando o lento desenvolvimento da inteligência humana, a descida dos Senhores da Chama, e o progresso das grandes civilizações que eles fundaram.

Nem escusa o seu estudo de ficar limitado apenas ao progresso da humanidade; tem diante de si, como num museu, todas as estranhas formas animais e vegetais que havia no mundo quando ainda na infância; pode acompanhar todas as maravilhosas mudanças geológicas que se têm dado e seguir o curso dos grandes cataclismos que várias vezes têm mudado por completo a face da terra.

Num caso especial é possível ao leitor dos registros uma simpatia ainda maior com o passado. Se, no decurso das suas investigações, tem que observar qualquer cena em que ele próprio tomou parte em qualquer encar­nação anterior, pode tratá-la de duas maneiras; pode tratá-la da maneira habitual, como um espectador (ainda que — não o esqueçamos — um espec tador cuja compreensão e simpatia são perfeitas), ou pode tornar a identificar-se com aquela, há muito morta, personalidade sua — reentrando tempo­rariamente para essa vida passada tornando absolutamente a sentir os pensamentos e as emoções, os prazeres e as mágoas de um passado pré-histórico. Não é possível conceber aventuras mais estranhas e mais vividas do que aquelas por que ele assim poderá passar; mas, através de tudo isso, ele nunca deve perder pé na consciência de sua individualidade — deve conservar o poder de regressar, quando quiser, à sua personalidade presente.

Muitas vezes se pergunta como é possível a um investigador determi nar com justeza a data de qualquer cena do passado que ele desenterre dos registros. A verdade é que é por vezes tediento o trabalho de encontrar uma data exata, mas em geral é sempre possível, se valer a pena gastar nisso tempo e trabalho. Se se trata dos tempos gregos ou romanos, o método mais simples é, em geral, olhar para dentro do espírito da pessoa mais inteligente no quadro e ver que data é que ele supõe ser a dessa cena; ou o investigador poderá vê-lo escrever uma carta ou outro documento, reparan do, se for datado, qual é a data que ele lhe põe. Uma vez obtida a data romana ou grega, reduzi-la ao nosso sistema de cronologia é apenas questão dum cálculo.

Outro método, freqüentemente adotado, consiste em tirar os olhos da cena examinada e pô-los em qualquer cena contemporânea em qualquer cidade grande conhecida como Roma, reparando que rei está reinando, ou quem são os cônsules esse ano; obtidos esses dados, o resto constará dum

golpe de vista dado a um bom compêndio de história. Às vezes é possível obter uma data pela consulta de qualquer proclamação pública ou docu mento legal; de resto, nos períodos de que falamos, é dificuldade fácil de resolver.

O assunto, porém, já não é tão fácil quando se trate de períodos muito anteriores a estes - de uma cena do antigo Egito, da Caldéia, ou da velha China, ou, para ir mais longe ainda, da própria Atlântida e das suas numero sas colónias. Ainda não será difícil obter uma data pelo processo, já indica do, de olhar para o espírito de qualquer indivíduo educado no tempo, mas não há já maneira de a relacionar com o nosso sistema de datas, visto que o indivíduo estará contando por eras que de todo desconhecemos, ou em relação a reinados de reis cuja história se perde na noite dos tempos.

Os nossos métodos não estão, porém, esgotados. Devemos não esque cer que é possível ao investigador fazer os registros passar diante de si com a velocidade que deseje — a um ano por minuto, se quiser, ou mesmo muito mais depressa. Ora há um ou dois acontecimentos na história antiga cujas datas já estão nitidamente fixadas - como, por exemplo, o afundamento de Poseidônis no ano 9564 antes da nossa era. Ê portanto evidente que, se, pelo aspecto geral da paisagem, parecer provável que determinada cena vista está a razoável distância de qualquer destes acontecimentos, pode ser relacionada com esse acontecimento pelo processo muito simples de fazer passar rapidamente o registro, contando, à medida que vão passan do, os anos que medeiam.

Ainda assim, se esses anos entrassem pêlos milhares, como por vezes poderia acontecer, este plano resultaria terrivelmente tediento. Nestes casos, temos que recorrer ao método astronômico. Em conseqüência do movimen to a que vulgarmente se chama a precessão dos equinócios, ainda que mais propriamente se lhe devesse chamar uma espécie de segunda rotação da Terra, o ângulo entre o Equador e o eclíptico vai gradualmente mas lentamente variando. Assim, depois de grandes intervalos de tempo, vemos que o pólo da Terra não está já apontado para o mesmo ponto na esfera aparente dos céus, ou que, em outras palavras, a nossa estrela; polar não é, como agora, alfa Ursae Minoris, mas qualquer outro corpo celeste; e por esta posição do pólo da Terra, que facilmente se pode averiguar pelo exame do céu noturno no quadro que se esteja vendo, pode sem grande dificuldade encontrar-se uma data aproximada.

Ao calcular a data de ocorrências que se deram há milhões de anos em raças primitivas, o período da rotação secundária (ou precessão dos equinócios) é freqüentemente usado como unidade, mas é claro que uma exatidão absoluta não é em geral exigida nesses casos, bastando números redondos ao tratar de épocas tão remotas. A leitura exata dos registros, quer das nossas vidas passadas, quer das dos outros, não deve, porém, ser considerada como possível a qualquer pessoa que não tenha uma cuidadosa instruçãopreliminar. Como já se observou, ainda que se possam obter reflexos ocasionais no plano astral, o poder de usar o sentido mental é preciso para que se consiga uma leitura exata. De resto, para reduzir ao mínimo as possibilidades de erro, esse sentido deve estar inteiramente sob o domínio do investigador quando desperto no corpo físico; e a aquisição dessa faculdade leva anos de trabalho incessante e de rígida autodisciplina.

Muita gente parece julgar que mal assina o seu requerimento de admissão e passa a pertencer à Sociedade Teosófica, imediatamente passará a poder-se lembrar de três ou quatro das suas encarnações anteriores; há mesmo indivíduos que começam logo a imaginar "recordações" e declaram que na sua última encarnação foram Maria Stuart, Cleópatra ou Júlio César! E claro que pretensões tão extravagantes não conseguem senão trazer descré dito àqueles que disparatadamente as têm; mas infelizmente parte do descré dito tende a cair também, por injusto que isso seja, sobre a Sociedade a que eles pertencem, de modo que um indivíduo que sente fervilhar dentro de si a convicção de que foi Homero ou Shakespeare fará bem em não ir muito depressa, pondo isso bem à prova no plano físico antes de o comunicar ao mundo.

É absolutamente certo que muita gente tem tido em sonhos vislum bres de cenas de vidas passadas, mas, como é de esperar, esses vislumbres são quase sempre fragmentadíssimos e incertos. Eu próprio tive na juventu de uma experiência deste gênero. Havia entre os meus sonhos um que constantemente reaparecia — o sonho de uma casa com um pórtico virado para uma formosa baía, não muito longe de uma colina em cujo cimo se erguia um edifício muito belo. Eu conhecia essa casa perfeitamente, e sabia tão bem a distribuição dos seus quartos e a vista da sua porta como as da minha casa, nesta vida presente. Nesses dias eu nada sabia da reencarnação, de modo que não me pareceu senão uma curiosa coincidência que esse sonho tantas vezes se repetisse; não foi senão algum tempo depois de eu ter entrado para a Sociedade que, quando alguém que sabia me estava mostran do quadros da minha última encarnação, descobri que esse sonho constante era na verdade uma recordação parcial, e que a casa que eu tão bem conhe cia era aquela em que eu nascera havia mais de dois mil anos.

Mas, ainda que haja vários casos conhecidos em que qualquer cena bem lembrada assim atravessou de uma vida para outra, é preciso um grande desenvolvimento de faculdades ocultas antes que um investigador consiga descobrir definidamente uma linha de encarnações, quer suas, quer de um outro indivíduo. Isto será bem claro se nos lembrarmos das condições do

problema a resolver. Para seguir uma pessoa de esta vida para a vida anterior, é preciso, antes de mais nada, seguir a sua vida presente, retrogradando, até à sua nascença e depois seguir, em ordem inversa, os vários estádios pêlos quais o Eu desceu à encarnação.

Isto inevitavelmente nos levará até à condição do Eu nos níveis supe riores do plano mental; de modo que é evidente que para realizar eficaz mente esta tarefa, o investigador deve poder empregar o sentido correspon dente a esse nível elevadíssimo sem deixar de estar desperto no seu corpo físico — em outras palavras, a sua consciência terá de se centralizar no próprio Eu reencarnante, e já não na personalidade inferior. Nesse caso, a memória do Eu uma vez despertada, as suas próprias encarnações passadas estarão ante ele abertas como um livro, e ser-lhe-á possível, se quiser, exami nar as condições de um outro Eu nesse nível e segui-lo para trás, através das vidas mental inferior e astral, que até ali o conduziram, até chegar à última morte física do Eu e, assim, à sua vida anterior.

E esta a única maneira pela qual a cadeia de vidas pode ser seguida com uma certeza absoluta; e podemos por conseguinte imediatamente pôr de lado, como impostores conscientes ou inconscientes, aqueles indi víduos que anunciam que podem encontrar as encarnações passadas de qualquer pessoa, a uns tantos shülings por cabeça. Escusado é dizer que o verdadeiro ocultista não põe anúncios, e nunca, em circunstância alguma, aceita dinheiro em troco de qualquer demonstração dos seus poderes.

Não há dúvida que o estudioso que quiser adquirir o poder de seguir uma linha de reencarnações o pode fazer apenas aprendendo, com um professor competente, como é que esse trabalho se faz. Há quem tenha asseverado que basta que um indivíduo se sinta bom, "fraternal" e cheio de devoção para que toda a sabedoria das eras imediatamente vá ter com ele; mas um pouco de bom senso não tardará em revelar como essa teoria é absurda. Por boa que uma crença seja, se quiser aprender a tabuada, tem de a estudar; e o caso é precisamente idêntico quando se trata da capacidade de usar as faculdades espirituais. Essas faculdades sem dúvida que se mani festarão à medida que o indivíduo evolucione, mas só por um trabalho constante e um esforço paciente é que ele pode conseguir usá-las com segurança e vantagem.

Consideremos o caso daqueles que querem auxiliar outros quando no plano astral, durante o sono; é claro que quanto mais conhecimentos aqui possuam, mais valiosos serão os seus serviços nesse plano superior. Por exemplo: o conhecimento de várias línguas ser-lhes-á muito útil, porque, conquanto no plano mental os indivíduos possam comunicar diretamente por transferência de pensamento, sejam quais forem as línguas que falam, no plano astral não é assim, e um pensamento tem de ser formulado em palavras para que se possa compreender. Se, portanto, quiserdes auxiliar um indivíduo nesse plano, tendes que ter qualquer língua, que ambos saibam, pela qual com ele possais comunicar; e por isso quanto mais línguas souber des, mais úteis sereis. A verdade é que não há espécie nenhuma de conheci mento que não tenha utilidade no trabalho do ocultista.

Seria bom que todos os estudiosos nunca esquecessem que o ocultis mo é a apoteose do senso comum, e que qualquer visão que lhes aconteça não é necessariamente uma cena dos registros akáshicos, nem qualquer experiência uma revelação vinda de cima. E muito melhor errar no sentido de um cepticismo equilibrado do que no de uma credulidade excessiva; e é uma regra admirável a de não procurar uma explicação oculta para qual quer cousa, quando para a explicar baste uma causa física simples e eviden te. O nosso dever é tentar sempre conservar o nosso equilíbrio de espírito, nunca perder o nosso domínio de nós próprios, tomando sempre uma opinião razoável e cheia de bom senso a propósito de qualquer cousa que nos aconteça; assim seremos melhores teosofistas, ocultistas mais prudentes, e auxiliares mais úteis do que antes havíamos sido.

Como de costume, encontramos casos de todos os graus deste poder de ler na memória da natureza, desde o do homem instruído que pode, sempre que quiser, consultar sozinho o registro ao do indivíduo que não obtém senão vagos vislumbres casuais, ou que não teve, talvez, senão um só desses vislumbres em toda a vida. Mas mesmo o indivíduo que possua esta faculdade apenas parcial e ocasionalmente, a acha profundamente interes sante. O psicometrista, que precisa de um objeto fisicamente relacionado com o passado para o poder tornar a erguer todo em seu torno, e o cristalo-vidente que pode por vezes apontar o seu, menos certo, telescópio astral para qualquer cena do passado, podem ambos encontrar um grande prazer no exercício dos seus dotes respectivos, ainda que nem sempre compreen dam bem como esses resultados se produzem, nem tenham sempre domínio sobre eles.

Em muitos casos das manifestações inferiores destes poderes, vemos que elas são exercidas inconscientemente; há muito cristalovidente que observa cenas do passado sem que as possa distinguir de cenas do presente, e há muita pessoa vagamente "psíquica" que vê quadros vários erguerem-se constantemente ante os seus olhos, sem nunca lhe passar pela cabeça que está, de fato, psicometrizando os vários objetos próximos à medida que acontece tocar-lhes ou passar por eles.

Uma curiosa variante desta classe de "psíquicos" é o homem que é capaz de psicometrizar só pessoas e não, como é mais vulgar, só objetos. Na maioria dos casos esta faculdade revela-se irregularmente, de modo que um "psíquico" desses, quando apresentado a um estranho, muitas vezes verá, num relâmpago, qualquer cena importante na vida passada desse indivíduo, podendo, porém, outras vezes não receber impressão nenhuma. Mais raramente encontramos indivíduos que têm visões detalhadas da vida passada de toda a gente que encontram. Talvez um dos melhores exemplos desta classe seja o escritor alemão Zschokke, que descreve na sua autobio grafia esta estranha faculdade de que se encontrou possuidor. Diz ele:

"Por vezes me tem acontecido, ao falar a primeira vez com um estra nho, e ao escutar silenciosamente a sua conversa, que a sua vida passada, até ao momento presente, com muitas pequenas circunstâncias relacionadas com uma ou outra cena dela, me tem atravessado o espírito como um sonho, mas nitidamente, de modo inteiramente involuntário e sem que eu o desejas se, levando nisso apenas uns minutos.

"Durante muito tempo tive estas visões passageiras por uma ilusão da minha fantasia — tanto mais que a minha visão de sonho me revelava o vestuário eos movimentos dos atores, o aspecto do quarto, a mobília, e outros detalhes da cena; até que, numa ocasião, estando disposto a brincar, narrei à minha família a história secreta de uma costureira que acabava de sair do quarto onde estávamos. Nunca tinha visto, antes disso, essa criatura. Os ouvintes, porém, admiraram-se, riram e não foi possível persuadi-los de que eu não tinha prévio conhecimento da sua vida anterior, visto que o que eu lhes contara era perfeitamente exato.

"Eu, por minha parte, não fiquei menos admirado de verificar que a minha visão de sonho correspondia à realidade. Passei então a dar mais atenção ao assunto, e, tantas vezes quanto a correção o permitia, narrava às pessoas, cujas vidas assim o haviam passado diante de mim, a essência da minha visão de sonho, para que elas ma negassem ou confirmassem. Em todos os casos ma confirmaram imediatamente, não sem pasmo, como é de calcular.

"Certo dia de feira fui à cidade de Waldshut acompanhado por dois jovens, que ainda vivem. Era noite, e nós, cansados do passeio, entramos para uma estalagem, denominada "da Vinha". Ceiamos a uma mesa onde estava muita gente, e aconteceu que entraram de se divertir com as peculia ridades dos suíços, e com a sua credulidade em relação à sua crença no mesmerismo, no sistema fisionômico de Lavater, e cousas análogas. Um dos meus companheiros, cujo orgulho nacional se sentiu ferido por esta troça, pediu-me que respondesse qualquer cousa, sobretudo a um rapaz novo, com ares de importância, que estava sentado em nossa frente, e era dos que mais despejadamente troçavam.

"Calhou que os acontecimentos da vida desse indivíduo acabavam de me passar pelo espírito. Dirigindo-me a ele, perguntei-lhe se me responde ria francamente se eu lhe narrasse os mais secretos incidentes da sua vida, sendo ele, aliás, tão pouco meu conhecido como eu dele. Isso seria, disse-lhe mais, qualquer cousa de mais curioso mesmo que a habilidade fisiognomística de Lavater. Prometeu-me que, se eu dissesse a verdade, ele o declararia francamente. Narrei-lhe então os acontecimentos que a minha visão de sonho me revelara, e toda a assembléia ficou sabendo a história da vida do jovem comerciante, dos seus anos de colégio, das suas pândegas, e, por fim, de um pequeno ato menos honesto praticado por ele sobre o cofre-forte do patrão. Descrevi-lhe o quarto deserto, com as suas paredes brancas, onde, à direita da porta escura tinha estado, em cima da mesa, o pequeno cofre-forte preto, etc. O homem, impressionadíssimo, admitiu a exatidão de cada cir cunstância — mesmo (o que eu mal esperava) da última."

E contudo, depois de narrar este incidente, o nosso Zschokke passa a perguntar-se se afinal todo esse maravilhoso poder, que tantas vezes ele tinha mostrado, não poderia ter sido sempre um caso de simples coincidência!

Poucos casos de indivíduos com esta faculdade de ver o passado se encontram nos livros sobre estes assuntos, e pode por isso supor-se que tal poder é mais raro que o de previsão. Parece-me, porém, que a verdade é que esse poder é, afinal, muito menos reconhecido. Como já disse, pode muito bem acontecer que um indivíduo veja um quadro do passado sem o reconhe cer como tal, a não ser que qualquer detalhe o leve a formular essa suspeita — como, por exemplo, uma figura de armadura, ou num qualquer traje antigo. Também uma previsão não seria, ao dar-se, reconhecida como tal; mas a realização do acontecimento previsto trá-la imediatamente à memória, ao mesmo tempo que revela que foi uma previsão. De modo que um caso desses poucas vezes deixará de ser notado. E provável, portanto, que vislum bres ocasionais desses reflexos astrais dos registros akáshicos sejam mais vulgares do que seríamos levados a crer pelas publicações sobre o assunto.

CLARIVIDÊNCIA NO TEMPO: O FUTURO

Mesmo que, de um modo vago, nos sintamos capazes de compreender a idéia de que todo o passado pode estar simultânea e ativamente presente numa consciência suficientemente elevada, defrontamo-nos com uma dificuldade muito maior quando tentamos conceber como é que também todo o futuro pode ser compreendido nessa consciência. Se pudéssemos crer na doutrina maometana do Kismet, ou na teoria calvinística da predes tinação, a concepção nada teria de difícil, mas, sabendo, como sabemos, que ambas são grotescas deformações da verdade, temos que procurar uma hipótese mais aceitável.

Talvez ainda haja indivíduos que neguem a possibilidade da previsão, mas isso prova apenas que ignoram a evidência que há sobre o assunto. O grande número de casos autenticados não deixa lugar para dúvidas quanto ao fato da previsão, mas muitos deles são de tal natureza que tornam difícil de encontrar uma explicação razoável. E evidente que o Eu possui uma certa dose de poder previsor, e, se os acontecimentos previstos fossem sempre de grande importância, poder-se-ia supor que uma excitação extraordinária o tinha tornado capaz, por essa vez só, de dar uma impressão nítida do que vira à sua personalidade inferior. Sem dúvida que é essa a explicação para muitos dos casos em que se prevê a morte ou qualquer catástrofe gravíssima, mas há um grande número de casos conhecidos para os quais essa explicação não serve, visto que os acontecimentos previstos são muitas vezes extrema mente triviais e sem importância.

Para exemplificar, citarei um caso bem conhecido de dupla vista, que se deu na Escócia. Um indivíduo, que não acreditava no oculto, foi avisado por um vidente escocês do próximo falecimento de um vizinho. A profecia foi dada com uma grande abundância de detalhes, incluindo uma descrição completa do enterro, com os nomes dos quatro indivíduos que pegariam nas borlas e de outras pessoas que estariam presentes. O ouvinte parece ter rido da história e tê-la esquecido prontamente; a morte do tal vizinho no dia indicado relembrou-lhe, porém, a profecia, e ele decidiu fazer errar pelo menos parte dela, tornando-se ele um dos que pegavam às borlas. Conseguiu arranjar as cousas como queria, mas, exatamente quando o préstito ia sair, chamaram-no à parte para qualquer assunto de somenos importância e que o demorou apenas um ou dois minutos. Ao voltar à pressa, viu com surpresa que o préstito ia saindo sem ele, e que a profecia se verificava plenamente, visto que iam pegando às borlas os quatro indi­víduos que o vidente lhe indicara.

Ora aí está um assunto trivial, que não podia ser de importância para alguém, previsto nitidamente com alguns meses de antecedência, e, conquanto um indivíduo se esforce conscientemente por alterar os fatos indicados, essa tentativa resulta impotente para os alterar. Por certo que isto se assemelha muito à predestinação, mesmo nos seus mínimos detalhes, e é só quando examinamos este assunto desde os planos superiores que podemos achar meio de escapar a essa teoria. Está claro que — como já antes disse a propósito de outro ramo do assunto — uma explicação comple ta ainda nos escapa, e evidentemente nos escapará enquanto o nosso conhe­cimento não for infinitamente maior do que hoje é; o mais que podemos esperar fazer por enquanto é indicar a direção na qual uma explicação deve ser encontrada.

Não há dúvida nenhuma que, exatamente como o que está agora acontecendo é o resultado de causas postas em ação no passado, assim o que acontecerá no futuro será o efeito de causas já operantes. Mesmo aqui, neste mundo, podemos calcular que, se certas ações são praticadas, certos resultados se seguirão, mas o nosso cálculo tende a ser constantemente perturbado pela intervenção de fatores com que não podemos contar. Mas, se elevarmos a nossa consciência até ao plano mental, poderemos ver muito mais longe os resultados das nossas ações.

Podemos seguir, por exemplo, o efeito de uma palavra casual, não só sobre a pessoa a quem foi dirigida, mas através dela, sobre muitas outras, à medida que se propaga em círculos cada vez maiores, até afetar todo o país; e um só vislumbre de uma visão destas vale mais do que muitos preceitos morais para nos gravar no espírito a necessidade de um cuidado extremo em tudo quanto pensamos, dizemos ou fazemos. Não só podemos nós, de aquele plano, ver assim completamente o resultado de cada ação, mas podemos ver também onde e de que maneira os resultados de outras ações, aparentemente sem relação com ela, a virão perturbar e modificar. Pode, de fato, dizer-se que os resultados de todas as causas atualmente operantes, são claramente visíveis — que o futuro, como seria se nenhumas novas causas surgissem, está patente à nossa vista.

Ë claro que surgem novas causas, porque a vontade humana é livre; mas, no caso de toda a gente vulgar, o uso que farão da sua liberdade pode ser calculado de antemão com uma justeza considerável. O homem médio tem tão pouca vontade real, que é em grande parte um produto das circunstâncias; a sua ação em vidas anteriores coloca-o em determinadas circuns tâncias, e a sua influência nele é a tal ponto o fator mais importante na história da sua vida que o seu curso futuro pode ser predito com uma certeza quase matemática. Com o homem evoluído o caso é já diferente; para ele também os principais acontecimentos da vida são ordenados pelas suas ações no passado, mas o modo como ele deixará que elas o afetem, os • métodos pêlos quais, tratará delas e talvez delas triunfará — esses são inteiramente seus e não podem ser previstos mesmo no plano mental exceto como probabilidades.

Olhando, assim, de alto, para a vida do homem, parece-nos que o seu livre-arbítrio só poderá ser exercido em certas crises na sua carreira. Ele chega a um ponto da vida onde há evidentemente diante dele dois ou três cami nhos por onde seguir; tem plena liberdade de escolher o que quiser, e, conquanto alguém que lhe conhecesse bem a índole pudesse ter quase a certeza de qual seria a sua escolha, tal conhecimento da parte do seu amigo não é de modo algum uma força compulsora.

Mas quando ele escolheu, de vez, terá de ir para a frente e aceitar as conseqüências; tendo entrado para determinado caminho, pode, em muitos casos, ser forçado a continuar durante muito tempo antes que tenha uma oportunidade de se desviar dele. A sua situação é análoga à do maquinista de um comboio; quando chega a um entroncamento, pode entrar para esta ou aquela linha, mas, uma vez entrado para ela, tem que seguir por ela fora até chegar a outro entroncamento, onde possa novamente escolher um de dois caminhos.

Ora, olhando para baixo desde o plano mental, estes pontos de novo caminho seriam claramente visíveis, e todos os resultados da escolha que fizéssemos estariam patentes a nossos olhos, certos de se realizar nos seus mínimos detalhes. O único ponto que ficaria incerto seria aquele, importan tíssimo, sobre qual seria o caminho que o indivíduo escolheria. Teríamos, na verdade, não um, mas vários futuros patentes aos nossos olhos, sem podermos necessariamente determinar qual deles é que se materializaria num fato consumado. Na maioria dos casos, veríamos uma das probabili dades tão superior às outras que não hesitaríamos em decidir qual o cami nho que o indivíduo seguiria, mas, ainda assim, o caso que indiquei não deixa de ser teoricamente possível. Seja como for, mesmo esse conhecimento, tal qual é, tornar-nos-ia capazes de prever com segurança muita cousa; nem nos é difícil imaginar que um poder muito mais elevado que o nosso possa sempre prever para que lado a escolha se inclinará, e por isso vaticinar sempre com uma segurança absoluta.

No plano búdico, porém, não é já preciso um tal longo processo de cálculo consciente, porque (como já disse) de uma maneira que nós aqui

69não percebemos, o passado, o presente e o futuro existem ali simultanea­mente. Apenas podemos aceitar este fato, porque a sua causa está na facul­dade correspondente a tal plano, e o modos operandi dela é, como é de supor, inteiramente incompreensível ao cérebro físico. Mas de vez em quando encontramos uma sugestão que nos pode aproximar um pouco mais de uma vaga possibilidade de compreensão. Uma sugestão desse gênero foi dada pelo Dr. Oliver Lodge no seu discurso presidencial à Associação Britâ nica em Cardiff. Disse ele:

"É uma idéia luminosa e auxiliadora essa de que o tempo não seja senão um meio relativo de ver as cousas; atravessamos os fenômenos com uma certa velocidade definida, e interpretamos este avanço subjetivo de uma maneira objetiva, como se os acontecimentos se passassem também nessa ordem e exatamente com essa velocidade. Mas pode ser que isso não seja senão uma maneira de ver as cousas. Pode bem ser que os acontecimentos estejam sempre existentes, tanto os do passado como os do futuro, e que sejamos nós que constantemente passemos por eles, e não eles que aconte çam. A analogia de um indivíduo num comboio é, para este caso, muito útil; se ele nunca pudesse sair do comboio ou alterar a sua velocidade, naturalmente julgaria as paisagens necessariamente sucessivas, sendo incapaz de conceber a sua coexistência ... Ocorre-nos, pois, a possibilidade de haver no tempo um aspecto quadridimensional, sendo portanto o decorrer inexo­rável do tempo apenas uma parte natural das nossas atuais limitações. E, se compreendermos bem a idéia de que o passado e o futuro possam real mente estar existindo agora, podemos conceder que eles possam ter uma influência dominadora sobre todas as ações presentes, podendo os dois, juntos, constituir aquele "plano superior" ou totalidade das cousas que somos levados a buscar, em relação à direção da forma ou determinismo, e a ação dos seres humanos conscientemente dirigida para um fim nítido e preconcebido."

O tempo não é, realmente, de modo algum a quarta dimensão; mas considerá-lo, de momento, desse ponto de vista não deixa de ser útil para de algum modo podermos atingir o inatingível. Suponha-se que temos um cone de madeira apontado perpendicularmente para uma folha de papel, e que pouco a pouco o fazemos atravessar essa folha, começando pelo vértice. Um micróbio que vivesse na superfície dessa folha de papel, sem poder conceber qualquer cousa fora dessa superfície, não só nunca poderia ver o cone como um todo, mas nem sequer poderia formar conceito nenhum de um tal corpo. Apenas veria o súbito aparecimento de um pequeno círcu lo, que pouco a pouco e misteriosamente iria crescendo até desaparecer do seu mundo tão súbita e misteriosamente como tinha chegado.

Assim, o que era realmente várias seções do cone pareceria a esse

micróbio apenas fases sucessivas na vida de um círculo, e ser-lhe-ia impossí vel formar a idéia de que essas fases se podiam ver simultaneamente. E contudo é-nos fácil, a nós, vendo o fato de uma outra dimensão, ver que o micróbio é vítima de uma ilusão originada nas suas limitações, e que o cone existe sempre como conjunto. A nossa ilusão com respeito ao passado, ao presente e ao futuro talvez não seja diferente, e a visão que se tem de qualquer seqüência de acontecimentos desde o plano búdico corresponde a essa noção do cone como conjunto. Ë claro que qualquer tentativa de tornar clara no nosso espírito esta idéia dá conosco numa série de paradoxos confusos; mas o fato continua sendo verdadeiro, e o tempo virá quando será claro como o dia para nós.

Quando a consciência do aluno está completamente desenvolvida no plano búdico, a previsão perfeita é-lhe portanto possível, ainda que ele não possa — com certeza que não pode — trazer todo o resultado da sua visão completa e claramente para esta luz. Ainda assim, uma grande quantidade de lúcida previsão lhe é possível sempre que ele a queira exercer; e mesmo quando ele a não esteja exercendo,- vislumbres freqüentes de previsão lhe aparecem na vida quotidiana, de modo que muitas vezes tem uma intuição instantânea de como as cousas vão acontecer antes que elas sequer esbocem esse caminho.

Aquém desta previsão perfeita, vemos, como nos casos anteriores, que existem todos os graus deste tipo de clarividência, desde os casuais vagos pressentimentos a que se não pode chamar vidência, até a dupla vista freqüente e mais ou menos perfeita. A faculdade, a que se tem dado este nome, aliás pouco claro, de "dupla vista", é muito interessante e bem compensaria um estudo mais cuidadoso e sistemático do que até aqui dela se tem feito.

Essa faculdade é especialmente conhecida de nós como muitas vezes possuída pêlos highlanders escoceses, ainda que se não limite a eles. Exem plos casuais da sua posse têm aparecido em quase todas as nações, mas sempre tem sido mais freqüente entre montanheses e gente de vida solitária. Nós, em Inglaterra, geralmente falamos dela como sendo apanágio exclusivo da raça celta, mas a verdade é que se tem revelado em toda a parte do mundo entre povos semelhantemente situados. Diz-se, por exemplo, que é vulgaríssima entre os camponeses da Westfália.

Por vezes a dupla vista consiste num quadro mostrando claramente qualquer acontecimento futuro; mais freqüentemente, porém, o vislumbre do futuro é dado por qualquer visão simbólica. É de notar que os aconteci mentos previstos são invariavelmente os desagradáveis — sendo a morte o mais vulgarmente previsto; não me ocorre caso algum em que a dupla vista haja revelado qualquer cousa que não fosse triste. Ela tem um horrível simbolismo que lhe é próprio — um simbolismo de mortalhas e tochas e outros horrores fúnebres. Em alguns casos parece depender, até certo ponto, da localidade, porque se diz que os habitantes da ilha de Skye que possuem esta faculdade muitas vezes a perdem quando saem da ilha, ainda que seja apenas numa pequena viagem à outra costa. O dom de uma tal visão é por vezes hereditário numa família durante gerações, mas esta regra não é invariável, porque a dupla vista às vezes aparece esporadicamente num indivíduo pertencente a uma família livre da sua triste posse.

Já citamos um exemplo em que a nítida visão de um acontecimento futuro se deu, por meio da dupla vista, com alguns meses de antecedência. Vamos citar outro, mais notável ainda, que relato exatamente como me foi contado por um dos que nele tomaram parte.

"Metemo-nos pelo jungle dentro e havia uma hora que caminhávamos sem resultado, quando o Cameron, que por acaso estava a meu lado, de repente parou, empalideceu, e, apontando em frente, disse numa voz cheia de terror:

"Olhem! olhem! por amor de Deus, olhem para ali!"

"Onde? o quê? o que é?!" perguntamos todos confusamente, corren do para ele e olhando em roda e esperando encontrar um tigre, uma cobra nem sabíamos o quê, mas por certo qualquer cousa horrorosa, visto que fora o bastante para causar ao nosso camarada, em geral tão seguro dos seus nervos, uma emoção tão visível. Mas não se via tigre nem cobra — nada senão o Cameron, lívido, de olhos esbugalhados, a apontar para qualquer cousa que nós não víamos.

"Cameron! Cameron!" disse eu, sacudindo-o pelo braço, "fala por amor de Deus! O que é que aconteceu?

"Mal tinha dito isto quando ouvi um som leve, mas muito estranho, e o Cameron, deixando cair a mão com que apontava, disse numa voz tensa e trêmula, "Ouviste? ouviste? Graças a Deus que acabou!" e caiu no chão sem sentidos.

"Houve uns momentos de confusão enquanto lhe desapertávamos o colarinho e eu lhe borrifava a cara com alguma água, que felizmente trouxe ra comigo, e outro lhe tentava fazer beber uns goles de aguardente; e, enquanto isto se fazia, perguntei em segredo ao indivíduo a meu lado (um dos mais cépticos entre nós, por sinal). "Você ouviu qualquer cousa, Beauchamp?"

"Sim, lá isso ouvi", respondeu; "um som curioso, muito curioso; uma espécie de estrondo ou estralejar muito longe, mas perfeitamente nítido; se não fosse inteiramente impossível, era capaz de jurar que era o som de uma descarga."

"E exatamente a impressão que eu tive", murmurei; "mas basta!

ele já está melhor. "

"Num minuto ou dois o Cameron já podia falar e começou por nos agradecer e por pedir desculpa de nos dar todo este trabalho; de aí a pouco sentou-se contra uma árvore e, numa voz firme, se bem que ainda baixa, disse:

"Meus caros amigos, sinto que lhes devo uma explicação por causa do meu procedimento extraordinário. Ë uma explicação que eu muito prefe ria não dar; mas, como ela tem de vir, tanto faz dá-la agora como depois. Sem dúvida que já repararam que quando durante a nossa viagem vocês todos, falando de sonhos, visões, etc., riam de tudo isso, eu fugi sempre a dar qualquer opinião sobre o assunto. Fi-lo, não só porque não queria acarretar sobre mim o ridículo, ou, mesmo, estabelecer discussão, mas também porque sabia perfeitamente, pela minha própria triste experiência, que o mundo a que os homens costumam chamar do sobrenatural é tão real como — talvez mais real do que — este mundo que vemos à nossa roda. Em outras palavras, eu, como tantos outros escoceses meus compatriotas, tenho o maldito dom da dupla vista — essa terrível faculdade que prevê em sonhos calamidades que breve acontecerão.

"Foi uma visão dessas que acabo de ter, e o seu grande horror como veu-me ao ponto que viram. Vi diante de mim um cadáver — não de um indivíduo que tenha morrido uma morte natural e sossegada, mas da vítima de qualquer terrível desastre; uma massa horrível, sem forma, com uma cara inchada, esmagada, impossível de conhecer. Vi este horrível objeto ser metido num caixão, e rezado sobre ele o serviço fúnebre. Vi o cemitério, vi o padre; e, se bem que nunca os tivesse visto antes, tenho ambos presentes agora mesmo na minha visão anterior; vi-me a você, a mim, ao Beauchamp, a todos nós e a muitos mais, em volta do caixão; vi os soldados erguer as espingardas depois do fim dos reponsos; ouvi a descarga — e foi então que desmaiei."

"Quando ele falou dessa descarga, senti um arrepio e olhei para o Beauchamp; nunca me esquecerá a expressão de profundo horror que havia no rosto daquele céptico."

Isto não passa de um incidente (e de modo algum o principal) numa notabilíssima história de experiência psíquica, mas, como de momento estamos apenas tratando do exemplo de dupla vista que figura nessa história, basta que se diga que, mais tarde no mesmo dia, o grupo de militares, de que falamos, encontrava o seu comandante na horrorosa condição tão nitidamente descrita pelo sr. Cameron. A narrativa continua:

"Quando, na noite seguinte, chegamos ao nosso destino, e que a nossa triste narrativa tinha sido devidamente registrada pelas autoridades competentes, o Cameron e eu fornos dar um pequeno passeio, para ver se a influência tranquilizadora da natureza nos tirava pelo menos parte da tristeza que nos acabrunhava. De repente ele agarrou-me no braço, e, apontando através duma pequena divisória, disse numa voz trêmula, "Olha! lá está! lá está o cemitério que vi ontem." E quando, mais tarde, fomos apresentados ao capelão do posto, reparei, ainda que os meus companheiros o não fizes sem, no arrepio irreprimível que percorreu o corpo do Cameron ao apertar a mão do sacerdote, e vi que tinha reconhecido o oficiante no enterro da sua visão."

Quanto à explicação oculto de tudo isto, parece-me que a visão do sr. Cameron foi um puro caso de dupla vista, e, se assim é, o fato de que os dois indivíduos que estavam mais perto dele (um com certeza — e talvez os dois — tocando-lhe mesmo) tomaram parte nessa visão, pelo menos quanto a ouvir a descarga final, ao passo que tal não aconteceu aos que estavam mais afastados, indica que a intensidade com que a visão se impri miu no vidente ocasionou vibrações no seu corpo mental que se comunica ram àquelas pessoas em contato com quem estava, como na vulgar transmis são de pensamento. Quem quiser ler o resto da história encontrá-la-á nas páginas de Lúcifer, vol. XX, p. 457.

Podíamos com facilidade reunir dezenas de exemplos de natureza idêntica a este. Com respeito à variedade simbólica desta vista, diz-se vulgar mente entre os que a possuem que se, ao encontrarem um vivo, vêem uma mortalha envolvendo-o, isso é sinal seguro da sua própria morte. A data da doença que o vitimará é indicada, quer pelo ponto a que a mortalha lhe envolve o corpo, ou pela hora do dia a que se vê a visão; porque se é de manhã, cedo, dizem que o indivíduo morrerá nesse mesmo dia, mas se for de tarde, que será apenas durante o ano.

Outra variante (e notável) de forma simbólica da dupla vista é aquela em que a pessoa, cuja morte por aí se prevê, surge ao vidente numa aparição sem cabeça. Um caso deste gênero é citado em Sinais antes da Morte como tendo acontecido na família do dr. Ferrier, ainda que aí, se bem me lembro, o caso se não tivesse dado senão à hora da morte, ou muito perto dela.

Passando do caso de videntes que estão regularmente de posse de uma certa faculdade, ainda que as manifestações dela apenas algumas vezes estejam subordinadas à sua vontade, encontramos um grande número de casos isolados de previsão em indivíduos em quem essa faculdade não é de modo algum regular e certa. Talvez que a maioria destes aconteçam em sonhos, se bem que haja exemplos de visões dessas em vigília. As vezes a previsão diz respeito a um acontecimento de real importância para o vidente, e assim justifica a ação do Eu em ter o trabalho de a fixar. Em outros casos, o acontecimento é sem importância aparente, ou não tem relação alguma com o indivíduo que o vê. As vezes é claro que a intenção

do Eu (ou da entidade comunicadora, seja ela qual for) é avisar a personali dade inferior da aproximação de qualquer calamidade, quer para que essa calamidade se evite, quer (se isso não for possível) para que a dor, que causa, seja diminuída pela preparação.

O acontecimento mais vulgarmente assim previsto é (talvez porque assim é natural) a morte — às vezes a morte do próprio vidente, às vezes a de alguém que lhe é caro. Este gênero de previsão é tão vulgar na literatura do assunto, e o seu fim tão evidente, que escusamos de citar exemplos dela; mas um ou dois casos em que a visão profética, ainda que claramenteútil, ainda assim foi de um tipo menos sombrio, talvez tenham algum interesse para o leitor. O que segue é tirado daquele repositório do estudioso das cousas estranhas, O Lado Noturno da Natureza, de Mrs. Crowe, à p. 72.

"Há alguns anos o dr. Watson, atualmente residente em Glasgow, sonhou que era chamado para ver um doente que morava a uma distância de algumas milhas do lugar onde vivia; que partiu para lá a cavalo, e que, ao atravessar uma charneca, viu, correndo para o atacar, um touro, a cujo assalto, só escapou fugindo para um lugar inacessível ao animal, onde se demorou muito tempo até que apareceu vária gente que, observando a sua situação, veio em seu auxílio e o soltou.

"Estava a almoçar na manhã seguinte, quando veio a chamada; achan do graça à curiosa coincidência (pois assim lhe pareceu), montou a cavalo e partiu. Não conhecia a estrada por onde tinha que seguir, mas de aí a pouco chegava à charneca, que reconheceu, e instantes depois surgia o touro, correndo para ele furiosamente. Mas o sonho tinha-lhe revelado o lugar de refúgio, para onde se dirigiu imediatamente; ali passou três a quatro horas, sitiado pelo touro, até que vieram uns camponeses que o livraram. O dr. Watson declara que, se não fosse o seu sonho, não teria sabido em que direção correr para se salvar."

Um outro caso, em que um intervalo muito maior ocorreu entre o aviso e o fato, é dado pelo dr. F. G. Lee, em Vislumbres do Sobrenatural, vol. I, p. 240.

"Mrs. Hannah Green, governante duma família da província em Oxford, sonhou uma vez que tinha ficado sozinha em casa num domingo à noite, e que, ouvindo bater à porta principal, a tinha ido abrir, encontrando um vadio mal encarado, armado de um cacete, que quis imediatamente meter-se pela casa dentro. Parece-lhe que, no sonho, ela tentou resistir e evitar a entrada do homem, mas sem o conseguir, pois que, agredida por ele e caindo no chão sem sentidos, ele pôde então entrar à vontade. Nisto acordou.

"Como durante bastante tempo nada acontecesse, o sonho foi-lhe esquecendo, e, como ela própria diz, acabou por já não pensar nele. Sete anos depois, porém, esta mesma governante ficou com duas outras criadas a tomar conta de uma casa um pouco isolada em Kensington (que veio depois a ser a casa de cidade da mesma família), quando, numa noite de domingo, tendo ambas as criadas saído e estando só ela em casa, uma pancada à porta de repente a sobressaltou.

"De repente a memória do seu antigo sonho voltou-lhe com uma estranha e forte vividez; ela sentiu agudamente a sua situação isolada. Por isso, tendo imediatamente acendido um candeeiro no átrio — e durante este tempo todo continuavam a bater à porta — tomou a precaução de ir espreitar pela janela que do patamar de cima dava sobre a porta da rua; foi grande o seu terror quando viu, em carne e osso, o indivíduo que havia anos havia visto no seu sonho, armado com o mesmo cacete e exigindo que lhe abrissem a porta.

"Com grande presença de espírito, ela desceu à entrada principal, correu quantos mais fechos ela tinha, tornou mais seguras as janelas, tocou quantas campainhas havia na casa e iluminou os quartos do primeiro andar. Parece que isto tudo teve o desejado efeito, pois que o vadio desapareceu."

Evidentemente que também neste caso o sonho foi realmente útil, visto que, se o não tivesse tido, a governante teria sem dúvida aberto a porta, como de costume, quando ouviu bater.

Não é, porém, só em sonhos que o Eu fixa na sua personalidade inferior aquilo que julga bom que ela saiba. Muitos casos desta ordem podiam ser extraídos dos livros, mas, em lugar de citar de ali, referirei um caso que há algumas semanas me contou uma senhora minha conhecida — um caso que, ainda que o não realce nenhum incidente romântico, tem pelo menos a vantagem de ser novo.

Essa senhora tem duas filhas pequenas, e há pouco uma delas apanhou (julgava a mãe) uma grande constipação, sofrendo durante alguns dias de uma obstrução completa na parte superior do nariz. A mãe ligou pouca importância a isto, julgando que breve passaria; até que um dia, de repente, viu diante de si no ar o que ela descreve como sendo um quadro de um quarto, ao centro do qual estava uma mesa em que a filhita jazia imóvel ou morta, estando vários indivíduos debruçados sobre ela. Ela viu a cena nos seus mínimos detalhes, e especialmente reparou que a pequena tinha uma camisa de noite branca, o que estranhou, porque todas que tinha eram cor de rosa.

A visão impressionou-a bastante, e pela primeira vez fez com que lhe ocorresse que talvez a criança tivesse qualquer cousa mais séria do que uma constipação, em vista do que levou-a ao hospital para a examinarem. O médico que a atendeu descobriu que ela tinha um pólipo no nariz, que devia ser quanto antes extraído. Poucos dias depois, a criança foi levada para o

hospital, para a operarem, e deitada numa cama. Quando a mãe chegou ao hospital, viu que se tinha esquecido de trazer uma camisa de noite da pequenita, de modo que as enfermeiras tiveram de arranjar uma, que erabranca. Com esta camisa branca vestida é que a criança foi, no dia seguinte, operada, no quarto que a mãe tinha visto na visão, cujos detalhes, todos, exatamente se deram.

Em todos estes casos a previsão conseguiu o resultado para que viera,, mas os livros estão cheios de avisos a que não se prestou atenção ou se não deu importância, e das desastrosas cousas que vieram a acontecer. Nalguns casos a informação é dada a alguém que mal se pode dizer que possa intervir no assunto, como no histórico exemplo em que John Williams, gerente de uma empresa mineira em Cornwall, previu, nos seus mínimos detalhes, oito ou nove dias antes de se dar, o assassínio do sr. Spencer Perceval, então Chanceler das Finanças, no átrio da Casa dos Comuns. Mesmo neste caso, porém, é vagamente possível que alguma cousa se pudesse ter feito, por1 que lemos que o sr. Williams ficou tão impressionado que consultou amigos sobre se deveria ou não ir a Londres avisar o sr. Perceval. Infelizmente eles dissuadiram-no disso, e o assassínio deu-se. Não parece, de resto, muito provável que, mesmo se ele tivesse ido a Londres e contado a sua história, lhe ligassem grande importância, mas, em todo o caso, sempre é possível que se houvessem tomado algumas medidas preventivas, pelas quais o assassínio se evitasse.

Poucos elementos temos que nos mostrem que ação especial nos planos superiores levou a esta curiosa visão profética. Os dois indivíduos não eram conhecidos, de modo que a visão não foi causada por nenhuma simpatia pessoal. Se se trata de uma tentativa de qualquer Auxiliar para evitar o acontecimento, parece estranho que não se encontrasse uma criatura impressionável mais perto do que em Cornwall. Talvez que o sr. Williams, quando no plano astral durante o sono, de qualquer modo encontrasse essa imagem do futuro, e, assustando-o ela (o que é naturalíssimo), assim a passasse ao seu ser inferior, na vaga esperança de que qualquer cousa se pudesse fazer para a evitar; mas é impossível fazer do caso um diagnóstico acurado sem examinar os registros akáshicos para ver o que é que na verda­de aconteceu.

Um caso típico da previsão absolutamente inútil é aquele que conta o sr. Stead, no seu livro Histórias Verdadeiras de Espectros (p. 83) a propósito da sua conhecida Miss Freer, mais citada como Miss X. Quando estava passando uns dias numa casa de campo, esta senhora, estando perfeitamente desperta e consciente, viu uma vez uma charrete, puxada por um cavalo branco, parada â porta da casa; nela estavam dois estranhos, um dos quais desceu da charrete e ficou a brincar com um cão que por ali andava. Ela reparou que esse indivíduo estava de sobretudo e viu também, nítidos, os sinais recentes das rodas da charrete na terra. Mas, ao tempo, não estava ali carro nenhum; meia hora depois, porém, surgiram dois estranhos dentro duma charrete, e a visão, que essa senhora havia tido, realizou-se em todos os seus detalhes. O sr. Stead cita, a seguir, um outro caso de previsão igual mente inútil, onde sete anos mediaram entre o sonho (dessa vez tratava-se de um sonho) e a sua realização.

Todos estes casos (e são apenas exemplos citados ao acaso de entre muitas centenas deles) mostram que uma certa dose de previsão é sem dúvida possível ao Eu, e estes casos seriam sem dúvida muito mais freqüentes se não fosse a excessiva densidade e falta de vibração correspondente nos instrumentos inferiores da maioria do que nós chamamos a humanidade civilizada — qualidades principalmente atribuíveis ao crasso materialismo prático da nossa época. Não me refiro a qualquer profissão de fé materialista como sendo cousa vulgar, mas sim ao fato de que nas cousas práticas da vida quotidiana quase toda a gente é guiada apenas por considerações de interesse material de uma forma ou outra.

Em muitos casos o próprio Eu pode ser um Eu pouco desenvolvido, e a sua previsão, por conseguinte, muito vaga; em outros poderá, ele, ver claro, mas possuir instrumentos inferiores tão pouco impressionáveis que apenas consiga imprimir ao cérebro um vago presságio de desgraça iminente. Há, ainda, casos em que uma previsão é obra, não do Eu, mas de qualquer entidade exterior, que, por qualquer razão, sente interesse pela pessoa a quem dá esse sentimento. Na obra que citei, o sr. Stead refere-se à certeza, que teve muitos meses antes, de que assumiria a direção da Pall MaU Gazette ainda que, de um ponto de vista normal, nada parecesse menos provável. Se esse pré-conhecimento foi resultado de uma impressão dada pelo seu próprio Eu ou de qualquer aviso amigável de qualquer entidade estranha, é impossível dizer sem que se investigue, mas o fato é que a confiança nesse pressentimento foi amplamente justificada.

Há ainda uma variedade de clarividência no tempo que não deve passar sem referência. Ë relativamente rara, mas há dela bastantes exemplos para que a devamos referir, ainda que, infelizmente, os detalhes dados em geral não incluam aqueles que nos seriam essenciais para que pudéssemos fazer um diagnóstico seguro. Refiro-me aos casos em que exércitos espec trais ou rebanhos espectrais foram vistos. Em O Lado Noturno da Natureza (p. 462 et seqs.*) temos vários exemplos dessas visões. Ali se conta como em Havarah Park, ao pé de Ripley, vários batalhões de soldados — umas cente nas, ao todo — foram vistos, por pessoas merecedoras de crédito, fazer várias manobras e, em seguida, desaparecer; e como, alguns anos antes, um exército visionário semelhante foi visto na vizinhança de Inverness por

um lavrador e seu filho, ambos criaturas respeitáveis.

Neste caso, também, o número dos soldados era muito grande, e os dois espectadores não tiveram, a princípio, a mais pequena dúvida de que se tratava de gente de carne e osso. Contaram, pelo menos, dezesseis seções duplas, e tiveram bastante tempo para observar todos os detalhes. Os que iam na frente marchavam sete a sete e eram acompanhados por muitas mulheres e crianças, que levavam latas e outros apetrechos de cozinha. Os soldados iam fardados de vermelho, e as armas luziam ao sol. No meio deles ia um animal — uma corça ou um cavalo (não puderam ver bem o que era) — que eles aguilhoavam furiosamente à baioneta.

O mais novo dos espectadores observou para o outro que de vez em quando, as últimas filas tinham que correr para apanhar as dianteiras;« o mais velho, que tinha feito serviço militar, observou ter sido esse sempre o caso, recomendando-lhe que, se alguma vez viesse a assentar praça, visse sempre se conseguia marchar nas primeiras filas. Havia só um oficial a cavalo; o cavalo era cinzento, e o oficial tinha um capacete ornamentado a dourados e uma capa azul de hússar, com largas mangas forradas de encar­nado. Os dois espectadores observaram-no tanto que disseram que o reco­nheceriam em qualquer parte. Tiveram, porém, receio de ser maltratados ou de ser forçados a acompanhar as tropas, que lhes pareceu que deviam ter vindo da Irlanda, tendo desembarca-lo em Kyntyre; e, enquanto trepa vam por cima de uma barreira para sair do caminho, tudo aquilo de repente desapareceu.

Um fenômeno da mesma ordem se observou no princípio do século XIX em Paderborn, na Westfália, sendo observado por umas trinta pessoas; mas como, uns anos depois, uma revista a uns vinte mil soldados se realizou naquele mesmo lugar, concluiu-se que a visão fora uma espécie de dupla vista — faculdade não rara naquele distrito.

Estes exércitos espectrais aparecem, porém, às vezes, onde um exérci to de homens normais de modo algum poderia marchar, nem antes nem depois da visão. Um dos mais curiosos relatos desse fenômeno é feito por Miss Harriet Martineau, lia sua descrição de Os Lagos Ingleses. Escreve ela:

"Este Souter ou Soutra Fell é aquela montanha sobre a qual espectros apareciam aos milhares, a intervalos durante dez anos no século passado, apresentando o mesmo aspecto a vinte e seis testemunhas escolhidas, e a todos os habitantes de todas as casitas donde se podia ver a montanha, e isto por um espaço de duas horas e meia de cada vez — a passagem espectral acabando pela escuridão! A montanha, note-se bem, está cheia de preci­pícios, que tornam impossível toda a marcha de um número qualquer de homens; e do lado norte e oeste mostra uma face perpendicular de novecen­tos pés de altura. "Nas vésperas de S. João, em 1735, um criado do lavrador sr. Lancas-ter, estando a uma distância de meia milha da montanha, viu o lado oriental do seu cimo coberto de tropas, que, durante uma hora, prosseguiram na sua marcha. Vinham, em massas separadas, de uma saliência no lado norte e desapareciam numa cavidade no píncaro. Quando o pobre homem contou a sua história foi insultado por muita gente, como em geral acontece aos observadores originais quando vêem qualquer cousa de anormal. Dois anos depois, também na véspera de S. João, o sr. Lancaster viu ali alguns indiví duos, aparentemente seguindo, a pé, os seus cavalos, como se houvessem regressado da caça. Não deu importância a isto; mas, por acaso, tornou a olhar para lá passados uns dez minutos, e viu as figuras, agora montadas, e seguidas por uma massa interminável de tropa, cinco a cinco, marchar da tal saliência para a cavidade no píncaro, como dantes. Toda a família viu isto, assim como as manobras da força, à medida que cada batalhão era mantido em ordem por um oficial a cavalo, que galopava de um lado para o outro. À medida que caía o crepúsculo, a disciplina parecia enfraquecer, e as tropas, misturando-se, prosseguiram a passo irregular, até que tudo se perdeu na escuridão. Foi agora, é claro, a vez dos Lancastere serem insulta dos por toda a gente, como tinha acontecido ao seu criado; mas não tardou que viesse a sua justificação.

"Na véspera de S. João do terrível ano de 1745, vinte e seis pessoas, especialmente para isso chamadas pela mesma família, viram tudo quanto eles tinham já visto, e mais. Carruagens estavam, agora, misturadas com as tropas, e toda a gente sabia muito bem que nunca tinham estado, nem podiam estar, carruagens no cimo do Souter Fell. A multidão era enorme; porque as tropas enchiam um espaço de meia milha e marchavam rapida mente até que a noite as escondeu, marchando ainda. Nada havia de vaporo so ou indistinto no aspecto destes espectros. Tão reais pareciam, que no dia seguinte alguns dos espectadores da véspera subiram à montanha para ver se lá estavam os sinais das ferraduras dos cavalos; grande foi o seu terror quando não viram sinal, de pé humano ou ferradura, na erva ou na terra. As testemunhas fizeram disto depoimento jurado perante um juiz; e foi por conseguinte terrível a expectativa de toda aquela região a respeito dos acontecimentos próximos da rebelião escocesa.

"Soube-se então que tinha havido mais duas pessoas que tinham visto qualquer cousa de análogo no intervalo — isto é, em 1743 — mas tinham-no ocultado, para escapar aos insultos de que haviam sido vítimas os seus vizinhos. O sr. Wren, de Wilton Hall, e um criado seu, viram, uma tarde de verão, um homem e um cão sobre a montanha, perseguindo alguns cavalos num lugar tão íngreme que era absolutamente impossível que qualquer cavalo ali se aguentasse. A velocidade, com que corriam, era prodigiosa, e tão rápido foi o seu desaparecimento na extremidade sul do Fell, que o

sr. Wren e o criado subiram até lá a manhã seguinte à busca do cadáver do homem, que com certeza devia ter morrido. De homem, cavalo, ou cão, não encontraram nem um sinal; por isso desceram e calaram-se. Quando chegaram a falar, não foram tratados com mais consideração por terem .vinte e seis companheiros na desgraça.

"Quanto à explicação, o diretor do Lonsdale Magazine declarou (vol. II, p. 313) "que se descobriu que na véspera de S. João de 1745 os revoltosos estiveram fazendo manobras na costa ocidental da Escócia, e os seus movimentos foram refletidos por qualquer vapor transparente análogo à Fada Morgana". Não se pode dizer que seja uma explicação muito satisfatória, mas, que saibamos, é a única que até agora apareceu. Estes fatos, porém, fizeram com que se citassem muitos outros; como a marcha espectral, do mesmo gênero, observada em Leicestershire em 1707, e a tradição da marcha de tropas sobre o Helvellyn, na véspera da batalha de Marston Moor."

Outros casos se citam em que rebanhos de carneiros espectrais têm sido vistos em certas estradas, e existem, é claro, várias histórias alemãs de cavalgadas espectrais de caçadores e de salteadores.

Ora nestes casos, como tanta vez acontece na investigação de fenômenos ocultos, há várias causas possíveis, cada uma das quais bastaria para produzir as ocorrências observadas, mas, na ausência de detalhes mais completos, pouco mais se pode fazer do que lançar uma hipótese sobre as causas prováveis, que estavam em operação nesse momento.

A explicação mais vulgarmente dada (quando toda a história não é posta de parte, por se considerar falsa) é que o que se vê é um reflexo, por miragem, do movimento de um exército real, que esteja manobrando ou marchando a. uma distância considerável. Eu próprio já, por várias vezes, vi a miragem vulgar, e sei portanto qualquer cousa dos seus espantosos poderes de decepção; mas parece-me que seria preciso que arranjássemos qualquer variedade nova de miragem, inteiramente diferente de aquela que a ciência atual conhece, para explicar estes casos de exércitos espectrais, alguns dos quais passam à distância de alguns metros do espectador.

Em primeiro lugar, podem ser, como no caso citado, e que se passou na Westfália, apenas casos de previsão em grande escala — por quem arranja­dos, e para que fim, não é fácil de adivinhar. Podem, também, muitas vezes pertencer ao passado, e não ao futuro, e ser, de fato, reflexos de cenas dos registros akáshicos — ainda que aqui, também, se não compreenda bem a razão e o processo da imagem.

Há muitas tribos de espírito de natureza perfeitamente capazes, se por qualquer razão o quisessem fazer, de produzir essas aparições pelo seu grande poder de manifestação (v. Manual Teosófico v, p. 60), e isto estaria perfeitamente de acordo com o prazer que têm em mistificar e impressionar os seres humanos. Ou talvez tudo isso seja bondosamente destinado por eles a avisar os seus amigos de acontecimentos que sabem que vão acontecer. Parece que deve ser qualquer explicação desta ordem que mais satisfaça a extraordinária série de fenômenos descrita por Miss Martineau — isto é, se os relatos, que lhe fizeram, são dignos de crédito.

Outra possibilidade é que, em alguns casos, o que se tomou por soldados foi simplesmente um grande número de espíritos da natureza executando algumas daquelas manobras ordenadas que eles têm tanto prazer em fazer, ainda que se deva confessar que essas manobras raras vezes são de gênero que possa ser tomado por militar, a não ser por criaturas excessivamente ignorantes.

Os rebanhos de animais são provavelmente, na maioria dos casos, meros registros, mas há casos em que eles, como os "caçadores selvagens" do conto alemão, pertencem a uma classe de fenômenos inteiramente diferente, e que está de todo fora do assunto que ora tratamos. Os estudio sos do oculto devem saber que as circunstâncias que cercam qualquer cena de terror intenso ou intensa paixão são susceptíveis de ser por vezes reproduzidas numa forma que precisa apenas um pequeno desenvolvimento de faculdades "psíquicas" para se poder ver; e por vezes tem acontecido que vários animais formavam parte dessas circunstâncias, e esses são, por isso, periodicamente reproduzidos pela ação da má consciência do assassino (v. Manual v, p. 83).

Provavelmente o que haja de realmente verdade nas várias histórias de cavaleiros espectrais ou grupos espectrais de caçadores deve pertencer a esta categoria. E esta também a explicação, evidentemente, de algumas das visões de exércitos espectrais, como aquela da notável reprodução da cena da batalha de Edgehill que parece ter-se dado várias vezes durante alguns meses depois da data do combate, conforme o testemunharam um juiz de paz, um sacerdote, e outras testemunhas oculares, num curioso panfleto contemporâneo intitulado Prodigiosos Ruídos de Guerra e de Combate, em Edgehill, perto de Keinton, em Northamptonshire. Segundo se diz neste panfleto, este caso foi investigado ao tempo por alguns oficiais do exército, que reconheceram nitidamente algumas das figuras espectrais que viram. Isto parece, sem dúvida, ser um exemplo do terrível poder, que têm as paixões violentas do homem, de se reproduzirem e efetuarem, de qualquer estranha maneira, uma espécie de materialização do seu registro.

Em alguns casos é evidente que os rebanhos vistos não deviam passar de simples hordas de elementais artificiais de vil espécie que tomavam essa forma para irem alimentar-se das emanações horrendas de lugares especialmente horrorosos, como poderia ser o sítio de uma forca. Um

exemplo disto é dado pêlos chamados "Gyb Ghosts", ou espectros da forca, descritos em Mais Vislumbres do Mundo Invisível, p. 109, como sendo repetidamente vistos sob a forma de manadas de estranhos e disfor mes animais de aspecto suíno, correndo, escavando e debatendo-se noite após noite no sítio desse horrível monumento do crime. Mas estes perten cem mais ao assunto aparições do que ao assunto clarividência.

MÉTODOS DE DESENVOLVIMENTO

Quando um indivíduo se convence da realidade do valioso poder da clarividência, a sua primeira pergunta é geralmente: "Como posso eu, no meu caso, desenvolver essa faculdade, que se diz estar latente em toda a gente?"

Ora o fato é que há muitos métodos pêlos quais ela pode ser desen volvida, mas um só que se possa seguramente recomendar a qualquer pessoa — aquele que referiremos em último lugar. Entre as nações menos avançadas do mundo o estado clarividente tem sido produzido de várias maneiras menos recomendáveis; entre algumas das tribos não-rias da índia pelo uso de drogas perturbadoras ou de inalações de fumo estonteante; entre os dervixes pelo processo de girar até cair em vertigem e insensibilidade; entre os sequazes das abomináveis práticas do culto do Vudu por horrendos sacrifícios e ritos mágicos. Métodos destes não estão felizmente em uso na nossa raça, e contudo mesmo entre nos alguns praticantes nesta arte antiga adotam qualquer plano de auto-hipnotização, como olhar fixamente para um ponto luminoso ou repetir qualquer fórmula até que se produza um estado de semi-estupefação; ao passo que outra escola pretende chegar a esses resultados pelo emprego de alguns dos sistemas índios de domínio da respiração.

Todos estes métodos devem ser inteiramente condenados como pouco seguros para que os pratique o indivíduo vulgar que não tem bem idéia do que está fazendo — que está simplesmente a fazer experiências num mundo desconhecido. Mesmo o método de obter clarividência deixando-se hipnoti zar por um outro indivíduo é de aqueles perante os quais eu recuaria com a maior das repugnâncias; e sem dúvida que nunca deve ser tentado, exceto em condições de absoluta confiança e afeição entre o magnetizador e o magnetizado, e duma perfeição de pureza em coração e alma, em espírito e intenção, difícil de encontrar exceto entre os maiores dos santos.

As experiências em relação ao transe mesmérico são do maior interes se, visto que oferecem (entre outras vantagens) uma possibilidade de provar ao céptico a existência da clarivisão, mas, exceto nas condições que referi —

condições, admito, de quase impossível realização — eu não aconselharia a ninguém que se oferecesse para magnetizado.

O mesmerismo curativo (no qual, sem levar o paciente até ao estado de transe, se faz um esforço para aliviar os seus padecimentos, para o curar de qualquer doença, ou para lhe aumentar a vitalidade por meio de passes magnéticos) é uma cousa inteiramente diferente; e se o mesmerizador, ainda que sem instrução nisso, tem saúde e está animado de boas intenções, não é natural que aconteça algum mal ao mesmerizado. Num caso tão extremo como o de uma intervenção cirúrgica, um indivíduo pode razoavelmente submeter-se mesmo ao transe mesmérico, mas é preciso acentuar que não é estado com que se deva fazer experiências. De resto, a alguém que me honrasse pedindo-me a opinião sobre o assunto, eu aconselharia que não tentasse qualquer investigação sobre o que para ele ainda seriam as forças ocultas da natureza sem que primeiro tivesse lido cuidadosamente quanto se tem escrito sobre o assunto ou — o que é ainda melhor — sem que tivesse a guiá-lo um professor qualificado.

Mas onde, dir-se-á, é que existe esse professor qualificado: Não, por certo, entre aqueles que se anunciam como professores, que oferecem por tantas libras ensinar os mistérios sagrados das eras, ou que têm "círculos de desenvolvimento" onde se dá entrada a quaisquer pessoas mediante o pagamento de um tanto por cabeça.

Muito se tem dito neste livro sobre a necessidade de uma instrução cuidadosa — das imensas vantagens do clarividente instruído sobre o que não é; mas isso apenas nos traz outra vez para o mesmo ponto — onde é que se pode ir buscar essa instrução agora?

A resposta é que essa instrução se pode receber onde sempre se pode receber desde o início da história do mundo — às mãos da Grande Irmanda de Branca dos Adeptos, que está agora, como sempre esteve, por detrás da evolução humana, guiando-a e auxiliando-a sob o domínio das grandes leis cósmicas que para nós representam a Vontade do Eterno.

Mas como, perguntar-se-á, é que se pode entrar em comunicação com eles? Como é que o aspirante ansioso por conhecer pode fazer-lhes constar o seu desejo de ser instruído?

Mais uma vez se diga: é ainda pêlos métodos de sempre. Não há méto do novo pelo qual um indivíduo se qualifique sem trabalho para se tornar aluno nessa Escola — não há estrada real para a sabedoria que nela se pode adquirir. Hoje, como nas brumas da antigüidade, o homem que deseja chamar a atenção deles deve entrar no caminho lento e laborioso do desen­volvimento de si próprio — deve aprender antes de mais nada a dominar-se e tornar-se tudo quanto deve ser. Os degraus desse caminho não são segredos nenhum; citei-os em detalhe em Auxiliares Invisíveis, e por isso não preciso aqui repeti-los. Mas o caminho não é fácil de seguir, e contudo todos terão de o seguir, mais tarde ou mais cedo, porque a grande lei da evolução pouco a pouco mas irresistivelmente leva a humanidade para o seu destino.

Daqueles que se estão aglomerando à entrada para este caminho os Mestres escolhem os seus alunos, e é só tornando-se digno de ser ensinado que um indivíduo pode conseguir que o ensinem. Sem essa qualificação, de nada servirá ser membro de qualquer Loja ou Sociedade, secreta ou não. Ë certo, como todos sabemos, que foi a instâncias de alguns destes Mestres que se fundou a nossa Sociedade Teosófica, e que das suas fileiras alguns foram escolhidos para entrar em mais íntimas relações com eles. Mas essa escolha depende da sinceridade e perseverança do candidato, não do fato de ele pertencer à Sociedade ou a qualquer corpo a dentro dela.

É essa, pois, a única maneira absolutamente segura de desenvolver a clarividência — entrar com toda a nossa energia para o caminho da evolução moral e mental, a um estádio da qual esta e outras das faculdades superiores espontaneamente começarão a mostrar-se. Há, porém, uma prática que todas as religiões aconselham — que, se for cuidadosa e reverentemente adotada, não poderá fazer mal a ninguém, e da qual muitas vezes tem saído um tipo muito puro de clarividência; é a prática da meditação.

Escolha um indivíduo uma certa hora em cada dia — hora em que tenha a certeza de que o não perturbarão, ainda que deva ser preferivelmen te de dia e não de noite — e dedique-se durante esse tempo a manter o seu espírito inteiramente livre de todos os pensamentos materiais, seja de que espécie forem, e, atingido isso, trate de dirigir toda a força do seu pensamen to sobre o ideal mais elevado que conheça. Verificará que a obtenção desse domínio do seu pensamento é imensamente mais difícil do que julga, mas, logo que ele o atinja, não pode deixar de lhe ser de todas as maneiras muito benéfico, e, à medida que ele se torna mais e mais capaz de elevar e concen trar os seus pensamentos, poderá descobrir que, pouco a pouco, ante ele se vão abrindo novos mundos.

Como exercício preliminar para o pleno conseguimento de tal medita ção, verá que é útil exercitar-se na prática da concentração nas cousas da vida quotidiana — mesmo nas mais banais e simples. Se escreve uma carta, não pense senão na carta enquanto não a acabar; se lê um livro, trate de ver que o seu pensamento nunca se desvie do sentido do que o autor escreveu. Deve aprender a dominar o seu espírito, a ser dono dele, assim como das suas paixões inferiores; deve pacientemente trabalhar para obter um domí­nio absoluto dos seus pensamentos, de modo que saiba sempre em que e que está pensando, e por quê — de modo que possa usar o seu espírito como um esgrimista hábil usa o sabre.

E, contudo, se aqueles que tanto desejam ter a clarividência a pudessem ter temporariamente por um dia, ou mesmo por uma hora, é duvidoso que quisessem conservar o dom. É verdade que abre diante deles novos mundos para estudo, novos poderes para ser útil, e por esta última razão muitos de nós achamos que vale a pena; mas não devemos esquecer que, para alguém cujo dever o chama a viver ainda no mundo, a clarividência não é inteiramente agradável. Sobre alguém, em quem se abriu essa visão, a tristeza e a desgraça, o mal e o vício do mundo caem como um fardo constante, até que, nos primeiros dias do seu conhecimento, ele muitas vezes evoca o sentido doloroso daqueles versos vibrantes de Schiller:

Dien Oiakel zu verkünden, warum warfest du mich hin

In die Stadt der ewig Blinden, mit dem aufgeschloss'nen sinn?

Frommfs, den Schleiei aufzuheben, wo das nahe Schreckniss dioht?

Nur der Irrthum ist das Leben; dieses Wissen ist der Tod.

Nimm, O nimm die tiaui'ge Klarheit mir vom Aug'den blut'gen Schein!

Schrecklich ist es deiner Wahrbeit sterbliches Gefass zu seyn!

que talvez assim possam ser traduzidos: "Por que me lançaste assim para a cidade dos eternamente cegos, para proclamar o teu oráculo através do sentido aberto? De que serve levantar o véu quando as trevas próximas ameaçam? Só a ignorância é a vida; esta sabedoria é a morte. Leva outra vez esta triste clareza de vista; tira aos meus olhos esta luz cruel! É horrível ser o canal mortal da tua Verdade!" E mais adiante ele exclama: "Torna a dar-me a minha cegueira, a feliz escuridão dos meus sentidos; torna a levar o teu dom terrível!"

Mas este não passa, é claro, dum sentimento que desaparece, porque a visão superior breve mostra ao aluno qualquer cousa para além da tristeza — cedo traz à sua alma a certeza esmagadora de que, seja o que for o que as aparências pareçam indicar, todas as cousas estão sem dúvida trabalhando juntas para a vitória final do bem de todos. Ele pondera que o pecado e o sofrimento ali estão, quer ele os veja ou não, e que, afinal, quando os pode ver, sempre está em melhor situação para poder auxiliar os outros do que se estivesse trabalhando às escuras, e assim, pouco a pouco, aprende a tomar a sua parte do pesado carma do mundo.

Há alguns tristes mortais que, tendo a boa sorte de possuir alguma cousa deste poder superior, são porém tão destituídos do verdadeiro senti mento que se deve ter em relação a ele, que o empregam para os fins mais sórdidos — chegando mesmo a anunciar-se como "clarividentes demonstra tivos e comerciais"! Escusado é dizer que este uso da faculdade é uma mera prostituição e degradação dela, mostrando que o seu infeliz possuidor de qualquer modo dela se apoderou antes que o lado moral da sua natureza esteja suficientemente desenvolvido para poder suportar o esforço que ela impõe. Uma noção da quantidade de mau carma que pode ser originado por uma ação destas dentro em pouco transforma em compaixão o nojo que há pelo infeliz que perpetra essa loucura sacrílega.

Por vezes se objeta que a posse da clarividência destrói toda a intimi dade e dá um poder ilimitado de explorar os segredos dos outros. Não há dúvida que dá esse poder, mas, em todo o caso, a idéia é ingênua e ridícula para quem saiba qualquer cousa do assunto. Pode ser que tal objeção colha quando se trate dos limitados poderes do "clarividente demonstrativo e comercial", mas o homem que a assaca contra aqueles que adquiriram essa visão no decurso dos seus estudos, e que por conseqüência, a possuem completamente, esquece três fatos fundamentais: primeiro, que é inteira­mente inconcebível que qualquer pessoa, que tenha diante de si o vasto campo para a investigação, que a clarividência lhe abre, tenha o mais peque no desejo de espreitar para os segredos pequeninos de qualquer indivíduo; segundo, que, mesmo que por qualquer acaso impossível o nosso clarividen te tivesse essa curiosidade indecente a propósito de assuntos de senhora vizinha, há, contudo, uma cousa chamada a honra de um cavalheiro, que, tanto, nesse plano como neste, o inibiria de dar largas a uma tal curiosidade; e terceiro, que, se por um acaso e uma possibilidade inimaginável, se encon trasse qualquer variedade de baixo pitai com quem essas considerações não pesassem, plenas instruções são sempre dadas a cada aluno, logo que ele comece a revelar sinais da faculdade, sobre as limitações impostas ao seu uso.

Em poucas palavras, essas restrições são que não haja curiosidade indiscreta, que não haja uso egoísta da faculdade, e que não haja demons­trações de fenômenos. Quer dizer, as mesmas considerações que guiam as ações de um indivíduo reto e nobre no plano físico devem valer também nos planos astral e mental; que o aluno de modo algum e em circunstância alguma deve usar o poder, que o seu conhecimento maior lhe dá, para fins de vantagens mundanas, ou, de qualquer forma que seja, para ganhar dinhei­ro; que nunca deve dar aquilo a que se chama entre espíritas uma "demons­tração" — isto é, qualquer cousa que prove aos descrentes no plano físico que ele possui aquilo que lhes parecerá um poder anormal.

Com respeito a esta última condição, muitas vezes se tem perguntado. "Mas por que não? Seria tão fácil confutar e convencer o descrente, e isso seria tão bom para ele!" Estes críticos perdem de vista o fato de que, em primeiro lugar, nenhum daqueles que sabem qualquer cousa tem o mínimo desejo de confutar ou convencer descrentes, ou se importa de qualquer maneira com a atitude do descrente; e, em segundo lugar, não compreendem como é muito melhor para esse descrente que ele gradualmente obtenha uma apreciação intelectual dos fatos da natureza, do que os conheça de repente, como que com uma pancada que o abata. Mas este assunto foi tratado plenamente há muitos anos em O Mundo Oculto do sr. Sinnett,

e é desnecessário repetir os argumentos que ali se empregaram.

Ë muito difícil a alguns dos nossos amigos compreender que a curiosi dade ociosa e as conversas de senhoras vizinhas, que enchem plenamente as vidas da descerebrada maioria dos homens, já não podem ter lugar na vida mais real do discípulo; e por isso às vezes perguntam se, mesmo sem querer ver, não pode acontecer ao clarividente observar casualmente algum segredo que outro indivíduo quisesse guardar, exatamente como o nosso olhar pode cair casualmente sobre uma frase numa carta de outra pessoa que esteja sobre a mesa. Está claro que isso pode acontecer; mas isso que importa? O homem de honra desviaria imediatamente os olhos, num caso como noutro, e seria como se não tivesse visto nada. Se quem faz estas objeções compreendesse que nenhum aluno se importa com a vida das outras pessoas, exceto quando lhe compete auxiliá-las, e que tem muitíssimo trabalho seu a que dar atenção, não estaria tão espantosamente longe de compreender os fatos da vida mais ampla do clarividente instruído.

Mesmo do pouco que disse a respeito das restrições impostas ao aluno, se concluirá que muitas vezes ele saberá muito mais do que se sinta com liberdade para dizer. Isto, é claro, é verdade, ainda que num sentido muito mais vasto, a respeito dos próprios grandes Mestres da Sabe doria, e é por isso que aqueles que têm o privilégio de ocasionalmente estar na sua presença dão tanta atenção às suas mínimas palavras, mesmo em assuntos inteiramente fora do que eles diretamente ensinam. Porque a opinião dum Mestre, ou mesmo dum dos seus alunos superiores, sobre qualquer assunto é a de um homem cujas oportunidades de acertar estão inteiramente fora de proporção com as nossas.

A sua posição e as suas faculdades alargadas são na realidade a herança de toda a humanidade, e, por longe que estejamos ainda desses grandes poderes, nem por isso é menos certo que um dia eles serão nossos. E que diferente que será este velho mundo quando toda a humanidade possuir a clarividência superior! Refleti na diferença que fará para a história quando todos puderem ler os registros; para a ciência quando todos os processos, a respeito dos quais os homens hoje teorizam, puderem ser vistos em opera ção; para a medicina, quando o médico e o paciente puderem ambos ver, com clareza e justiça, tudo o que se está fazendo; para a filosofia, quando já não for possível qualquer discussão quanto à sua base, porque todos podem ver um mais largo aspecto da verdade; para o trabalho, quando todo o trabalho será uma alegria, porque cada indivíduo só terá de fazer aquilo que melhor possa fazer; para a educação, quando os espíritos e os corações das crianças estiverem patentes ao professor que está tentando da formação dos seus caracteres; para a religião, quando já não houver possibilidade de discussão sobre os seus dogmas fundamentais, visto que a verdade a respeito dos estados depois da morte e da Grande Lei que rege o mundo estará aberta aos olhos de todos.

E, acima de tudo, quão mais fácil não será aos homens evoluídos desse tempo auxiliarem-se uns aos outros, em condições tão mais livres! As possi bilidades que se abrem ante os nossos olhos são como visões gloriosas que de todos os lados nos cerquem, de modo que a nossa sétima volta deve na verdade ser uma verdadeira idade de ouro. Bem é para nós que essas grandes faculdades não serão possuídas pela humanidade inteira senão quando ela tiver evoluído até um nível muito superior de moralidade, assim como de sabedoria; se assim não fosse, iríamos apenas repetir, em condições muito piores, a terrível derrocada da grande civilização da Atlântida, cujos mem bros não compreenderam que o aumento do poder implica o aumento da responsabilidade. E contudo nós próprios estivemos, na grande maioria, entre esses homens; oxalá que tenhamos aprendido alguma cousa com essa derrocada, e que, quando as possibilidades da vida maior se abrirem diante de nós, possamos, desta vez, haver-nos mais nobremente.

FIM

Nenhum comentário:

Postar um comentário

O que procuras? '.' .'.