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“A MAIOR DE TODAS AS IGNORÂNCIAS É REJEITAR UMA COISA SOBRE A QUAL VOCÊ NADA SABE."

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quarta-feira, 19 de novembro de 2014

O Movimento Martinista




O martinismo é um caminho da Vontade. Entre o Destino, por vezes cego, e a divina Providência, é preciso então escolher. Para o martinista, tornar-se um Homem de Desejo é empreender a reconstrução de seu Templo interior. Para edificar esse Templo eterno, ele se apoia em dois pilares: o da iniciação e o dos ensinamentos martinistas. A iniciação marca efetivamente o começo de seu grande trabalho, pois é o momento em que ele recebe a semente de luz que constitui o alicerce de sua obra. Cabe-lhe em seguida trabalhar para manifestar e irradiar essa luz. As iniciações martinistas constituem um momento privilegiado, no reencontro de um Homem de Desejo com o seu Iniciador. Só podem ser conferidas num Templo e na presença conjunta e efetiva daquele que outorga e daquele que recebe.
Para os martinistas as iniciações humanas, embora sejam um preliminar indispensável, são apenas “representações” terrenas de uma transformação maior. Só se tornam efetivas quando recebemos a iniciação central. Esta, segundo Saint-Martin, é aquela pela qual podemos entrar no coração de Deus e fazer entrar o coração de Deus em nós, para aí fazer um casamento indissolúvel... Não há outro mistério para se chegar a essa iniciação sagrada que o de mergulharmos cada vez mais nas profundezas do nosso ser e de não deixarmos escapar a vivificadora raiz, para que não corramos o risco de extirpá-la; graças a isso, então, todos os frutos que deveremos gerar, segundo nossa espécie, haverão de se produzir naturalmente em nós e fora de nós.



  • Tradicional Ordem Martinista - TOM
  • Ordem martinista sinárquica - OMS
  • Martinist Order of Unknown Philosophers - MOUP
  • Ordem Martinista dos Elus Cohens - OMEC
  • Ordem martinista (de Papus) - OMP
  • Ordem Martinista Sufi - OMSF
  • Ordem Martinista do Brasil
  • Ordem Martinista Britânica - OMB
  • Ordem Martinista Operativa - OMO


 “Verdade Eterna, Tu me cercas com Teus raios, mas as sombras escuras de minha alma elevam-se sem cessar e me impedem de dirigir os olhos para Ti. Todos os dias, às tardes, e à Meia-noite, às manhãs e ao meio-dia, Te invoco com ardor. Meus esforços são vãos e inúteis. O espesso véu de minhas afeições materiais afastam minha vista da Tua Luz. As imagens dos objetos aos quais entreguei mês sentidos colocam-se entre Tua ação benfeitora e os débeis esforços de minha vontade. Elas me apartam do caminho e me levam pelo das ilusões enganadoras. Tu me escapas e perco a esperança de chegar a Ti.

Oh verdade, sem a qual meu ser não é nada, nunca deixarei de Te invocar. Até que tenhas escutado meu desejo, meus desejos serão minha única existência. Escuta minha voz, vem ao socorro daquele que Te chama com tanto ardor. Renuncio aos objetos sensíveis; é a Ti somente que quero amar e sempre contemplar como minha única vida. Pois Tu és a vida do homem, e sei, com clareza, que meu destino é viver para sempre em Ti e por Ti.

Então, onde posso encontrar a ciência e a sabedoria? Passei dias e noites na busca e nas meditações e contudo, pergunto-me onde está escondida. O homem está muito distante de de conhecê-la e de saber seu preço.

Não está nas profundezas do mar, nem nas profundidades da terra. Onde está, então, essa sabedoria e inteligência? Onde poderei encontrá-la?

Consultei a todos os seres vivos; ninguém ainda a percebeu, e vi que não a possuem... Somente Deus conhece o caminho que conduz a ela; apenas Ele sabe onde ela está.

Quando Ele deu as leis a todos os seres, quando submeteu às suas ordens os ventos e as tormentas, e quando dirigiu o relâmpago dentro da rota que lhe foi imposta, a frente estava a sabedoria. Então disse ao homem: Não encontrarás a ciência nem a inteligência, senão no temor a Deus”.


Jean-Baptiste Willermoz

quarta-feira, 2 de março de 2011

10 motivos para não ser um martinista

1)Você está preparado e o "mestre" ainda não apareceu diante de seus olhos para lhe revelar todos os segredos do Universo? Então o Martinismo não é a sua melhor escolha. Em nossa fraternidade não há "gurus" nem lideres infalíveis, não defendemos nenhum dogma religioso. Para o Martinista o Mestre está dentro de si mesmo, pois somos todos filhos de um mesmo Pai

2)Você está convencido que todos os seus esforços pessoais, toda a dedicação a Fraternidade, deve ser minimamente recompensada com regalias, medalhas e títulos pomposos? Então o Martinismo não é a sua melhor escolha! Em Nossa fraternidade depois de décadas de estudo, práticas, erros e acertos você irá aprender a ser um Incógnito, apenas mais um na multidão, sem reconhecimento, sem distinção e sem nenhum engrandecimento social.


3)Você acredita que para uma fraternidade ser poderosa é necessário ter membros e afiliados poderosos? É necessário reunir várias Lojas? Ter poder político para atuar com força na sociedade? Então o Martinismo não é a sua melhor opção! Nossa Fraternidade é apolítica, nossas Ordens e nossos grupos não agregam um numero considerável de afiliados ou membros, não temos objetivos mundanos nem elegemos vereadores, deputados ou senadores. Dinheiro não garante evolução espiritual.

4)Você está preparado para ser caluniado, ridicularizado e humilhado publicamente? Cada passo que você der na direção da Verdade e do conhecimento, mais inimigos você irá atrair. A Natureza humana não está suficientemente educada para entender que: "quando um individuo se eleva a sociedade humana como um todo se eleva concomitantemente" então o trabalho individual representa na verdade uma labuta coletiva. A cada ser humano que você tiver o privilégio de tirar das trevas da ignorância, mais Luz é trazida sobre nossa natureza mundana. Para muitos a Luz e o conhecimento significam independência e esta independência é intolerável para os que acreditam serem superiores aos demais.

5)Você tem firme convicção que uma fraternidade ou uma Ordem pode transformar a sua vida e a vida de seus familiares em uma fonte inesgotável de prazer, satisfação e dádivas divinas? O Martinismo continua sendo uma opção a ser desconsiderada. Quem tem o poder de transformar a sua vida e a vida de seus familiares é você mesmo, ou melhor, são os seus atos e seus exemplos. De nada adiantaria uma fraternidade lhe oferecer conhecimentos, práticas e equilíbrio espiritual se você não colocasse tudo isto em prática. Portanto o Martinismo exigirá de você mais que estudo e dedicação, exigirá que você pratique o que aprendeu.

6)Você sente que se afiliando em uma Fraternidade secreta, você estará automaticamente abonado dos deveres de sua religião? Não se engane, o Martinismo não abona de seus membros nenhum dever e nenhuma obrigação, nem mesmo as de cunho religioso. O Martinista é incentivado a continuar praticando a sua religião, seja ela qual for. A pratica religiosa é fundamental para que o tão desejado equilíbrio seja alcançado.


7)Você espera que no final de anos de estudo, e ao atingir os mais altos graus, você terá o direito de usar um titulo espalhafatoso e incompreensível aos "profanos"? Saiba que o mais alto grau da Fraternidade Martinista é composto de duas letras e 6 pontos, nada mais que isto! E ainda mais desalentador, o Martinismo é inesgotável e mesmo após décadas de dedicação sempre haverá o que aprender.

8)Você espera estar preparado para aceitar a miséria material e espiritual da humanidade como um carma individual? Então não se submeta as regras Martinistas. Se uma criança ou um adulto lhe pedir dinheiro no farol da esquina, como Martinista você terá a obrigação moral e espiritual de atender ao pedido de esmola. Nós não sabemos se aquela moeda ou se aquela esmola irá contribuir para aliviar a dor de um estomago faminto ou evitar que uma criança seja conduzida a imoralidade por falta de opção. A decisão do que fazer com aquele dinheiro não é de quem o ofertou, mas de quem o recebeu. A Benemerência é uma obrigação insubstituível do Martinista.

9)Você tem desejos de um dia ser um "mestre" e ser constantemente rodeado e bajulado pelos seus discípulos? Definitivamente o Martinismo não deve ser a sua opção! Já dizia nossos antecessores " Pobre daquele que se julga mestre e tem sobre si a responsabilidade espiritual dos atos os atos de todos aqueles considerados discipulos" O verdadeiro Mestre, como já afirmamos, está dentro de cada um de nós, e a responsabilidade dos Iniciadores é manter a cadeia ininterrupta desde o Filósofo Desconhecido. Também os lideres devem ter humildade e equilíbrio, caso contrário estão sendo perjuros consigo mesmo e para com o Grande Arquiteto do Universo.

10)Você classifica as promessas e os juramentos mais ou menos sérios de acordo com o momento, a ocasião e a sobriedade do momento que o fez? Então você não será um bom Martinista. O juiz mais austero e mais exigente deve ser a nossa própria consciência, se você não é capaz de cumprir um juramento feito a você mesmo, como espera cumprir os juramentos feitos em solo consagrado pelos nossos antecessores? Faça um auto teste simples, um juramento a si mesmo, um juramento que nosso Amado Mestre Philippe de Lion cobrava de todos os seus atendidos: "não fale mal de ninguém nos próximos 10 dias" se você cumprir esta promessa, saberá que pode assumir juramentos mais sérios.

Se depois de ler e entender os 10 motivos acima, você ainda sente um desejo incontrolável de juntar a sua luz a nossa Luz, ótimo, você pode continuar a sua busca, encontrar o seu caminho pois temos certeza que a senda cardíaca está irremediavelmente contida em sua Alma.


sexta-feira, 24 de setembro de 2010

O Trabalho interno na Senda Martinista

O objetivo do trabalho Martinista é separar o Fixo (Corpo Glorioso) do Volátil (Corpo Passional) através da aquisição das Virtudes Morais das antigas Ordens de Cavalaria, em substituição e sublimação aos Vícios pecados) da natureza inferior do homem.
Sobre esta Sublimação, ou seja, a transformação do Vício em Virtude, afirma Eliphas Levi: " Os Cabalistas denominam o pecado uma casca: a casca, dizem eles, forma-se como uma excrescência, que se enruga por fora, pela seiva que se coagula em vez de circular; então, a casca seca e cai. Do mesmo modo o homem, que é chamado a cooperar com a obra de Deus, construindo a si próprio, aperfeiçoando-se pela ação de sua liberdade, se deixar coagular em si a seiva, que deve servir para desenvolver suas faculdades para o bem, o homem realiza um progresso retrógrado, degenera e cai como uma casca morta. Mas, segundo os cabalistas, nada leva ao mal na natureza, o mal sempre é absolvido pelo bem ; as cascas podem ainda ser úteis, se forem recolhidas pelo agricultor, que as queima e se aquece com seu calor, e depois faz de suas cinzas um adubo nutritivo para a árvore; ou, então, pela putrefação junto à arvore, elas a nutrem e retornam à seiva pelas raízes. Segundo as concepções da cabala, o fogo eterno que deve queimar os maus é pois o fogo regenerador, que os purifica e, por transformações dolorosas, mas necessárias, os faz servir à utilidade geral, e os devolve eternamente ao bem que deve triunfar. Deus, dizem, é o absoluto do bem e não pode haver dois absolutos: o mal é o erro que será absolvido pela verdade, é a casca que, putrefata ou queimada, retorna à seiva e contribui novamente à vida universal"

Queimar as cascas é uma obra difícil e lenta; a Iniciação abre as portas à essa possibilidade e acelera essa árdua tarefa, que é completada pela Oração; pois a Oração é o fogo alquimico capaz de levar a termo esta sublimação da natureza inferior em superior.
Entretanto esta Oração deve ser precisa para alcançar seu objetivo, pois como nos prometeu o Cristo: " Pedi e vos será dado; buscai e achareis; batei e vos será aberto. Pois tudo o que pede, recebe; o que busca, acha; e ao que bate, se abrirá. Quem de vós, sendo pai, se o filho lhe pedir um peixe, em vez do peixe lhe dará uma serpente? Ou ainda, se pedir um ovo, lhe dará um escorpião? Ora, se vós, que sois maus, sabeis dar coisas boas aos vossos filhos, quanto mais o Pai do Céu dará o Espírito Santo aos que o pedirem" (Lucas, 11: 10:13).

CREDO MARTINISTA

"Meditando sobre o sublime simbolismo do rito martinista, somos impelidos a realizar a seguinte profissão fé :

1. Cremos em um Deus Único e em uma Religião única como ELE, em um Deus para além de todos os deuses e em uma Religião que é síntese de todos os cultos. Cremos na infalibilidade do Espírito de Caridade mais que a temeridade dogmática de alguns homens.

2. Cremos na Liberdade absoluta, na Independência absoluta, na Realeza mesma, na Divindade relativa da Vontade humana, sendo ela regulada pela soberana Razão. Cremos que para se enriquecer é preciso dar, e que a felicidade individual não pode ir de contra a felicidade dos demais.

3. Reconhecemos no Ser dois modos essenciais : a Idéia e a Forma, a Inteligência e a Ação. Cremos na Verdade, que é o Ser concebido pela Idéia. Cremos na Realidade demonstrada ou demonstrável pela Ciência. Cremos na Razão, que é o Ser manifestado pelo Verbo. Cremos na Justiça, que é o Ser em ação, seguindo estas suas verdadeiras relações e suas proporções razoáveis.

4. Cremos que Deus mesmo, o Grande Princípio indefinível de Justiça, não saberia ser déspota nem carrasco com suas Criaturas; que não pode nem recompensá-las nem castigá-las; mas que a Lei da Harmonia Univesal leva em si mesma sua sanção, de sorte que o bem em si mesmo é a recompensa do Bem, e o mal o castigo, mas também o remédio do Mal.

Extrato do Ritual da Ordem Martinista escrito por Téder

Leonardo Rocha '.'

domingo, 19 de setembro de 2010

HISTÓRIA SUCINTA DA TRADICIONAL ORDEM MARTINISTA (TOM)








O início de tudo aconteceu em 1754, quando Martinès de Pasqually [teósofo do século XVIII - (1710-1774)] criou a Ordem Iniciática dos Elus-Cohen. A base do trabalho iniciático era a reintegração do homem mediante a prática teúrgica. Essa Teurgia, em última instância, apoiava-se no relacionamento do homem com as hierarquias angélicas, única via, segundo Pasqually, para sua reconciliação com a Divindade. O Martinismo, contudo, não é uma extensão da Ordem dos Elus-Cohen, e com o falecimento de Pasqually, em 1774, seus ensinamentos tomaram caminhos distintos. Dois discípulos de Pasqually sobressaíram-se e impuseram orientações esotéricas específicas para o pensamento original de seu Mestre: Jean-Baptiste Willermoz (1730-1824) e Louis-Claude de Saint-Martin (1743-1803) conhecido sob o Nome Iniciático de Phil … Inc … (PHILOSOPHE INCONNU).

Willermoz, adepto da Franco-Maçonaria e da teurgia, apesar de não ter transmitido àquela Agremiação as práticas teúrgicas dos Elus-Cohen, fez com que, em 1782, os ensinamentos de Martinès de Pasqually fossem incorporados aos graus de Professo e de Grande Professo da aludida Fraternidade.

Já Louis-Claude de Saint-Martin renunciou à Teurgia - senda externa - em proveito da senda interna. Considerava a teurgia perigosa e temerária. Reputava, outrossim, arriscada a invocação angelical quando operada pela via externa. O caminho era o interior. Saint-Martin desejava:
entrar no coração da Divindade e fazer a Divindade entrar em seu coração.
A iniciação transmitida por Saint-Martin perpetuou-se até o final do século XIX. Mas não foi ele próprio o fundador de uma associação com o nome de Ordem Martinista. Havia, entretanto, uma Sociedade dos Íntimos (Círculo Íntimo) formada de discípulos que recebiam a iniciação diretamente de L.C. de Saint-Martin. No final do século XIX, dois homens eram os depositários desse conhecimento e dessa iniciação: Gérard Encausse e Pierre-Augustin Chaboseau. Foram esses dois homens, Gérard Encausse, mais conhecido como PAPUS, e Augustin Chaboseau que, em 1888, decidiram transmitir a Iniciação de que eram depositários a alguns buscadores da verdade e fundaram a ORDEM MARTINISTA. É a partir dessa época que se pode efetivamente falar em uma Confraternidade Martinista.



Em 1891 a Ordem Martinista foi dotada de um Conselho Supremo, e Papus foi escolhido Grande Mestre da Ordem. O coração do Martinismo fixou-se em Paris, e, imediatamente, foram criadas quatro Lojas: Esfinge, Hermanubis, Velleda e Sphinge. Cada uma com características específicas, mas todas fiéis ao pensamento de seu inspirador: Louis-Claude de Saint-Martin – o FILÓSOFO DESCONHECIDO.
A Ordem, com o tempo, expandiu-se também no estrangeiro, e foram instaladas diversas heptadas na Bélgica, Alemanha, Inglaterra, Espanha, Itália, Egito, Tunísia, Estados Unidos, Argentina, Guatemala e Colômbia. Não há registros, s.m.j., do funcionamento da Ordem, naquela época, nem em Portugal, nem no Brasil.

Com o advento da Primeira Guerra Mundial a Ordem Martinista entrou em dormência. Papus transferiu-se voluntariamente para o front (para servir como médico), vindo a falecer antes do fim do conflito, em 25 de Outubro de 1916. Com a transição de Papus, a Ordem passou por dificuldades e quase desapareceu. Foi exatamente em 24 de Julho de 1931 que os martinistas autênticos, no intuito de distinguir a Ordem de movimentos pseudomartinistas (inautênticos), reuniram-se em torno de Augustin Chaboseau e acrescentam à denominação da Ordem o qualificativo
TRADICIONAL.

Nova prova para os martinistas: a Segunda Grande Guerra. A Ordem entra praticamente em nova dormência, pois no dia 14 de Agosto de 1940 o jornal oficial publicou um Decreto do Governo de Vichy proibindo na França o funcionamento de todas as organizações secretas. Todavia, duas Lojas continuavam a operar incógnita e silentemente: Athanor e Brocéliande. A Gestapo não dava sossego às organizações iniciáticas. E alguns iniciados, não apenas da TOM, foram martirizados e mortos nos porões do nacional-socialismo pelos títeres nazistas.

1945: término das hostilidades. Augustin Chaboseau (
Sâr Augustus), incansavelmente, reativou a Ordem pela última vez, pois veio a falecer em 2 de Janeiro de 1946. Na Europa, com a morte de Chaboseau, o movimento martinista passou mais uma vez por grandes dificuldades. Sua sustentação deveu-se a Ralph M. Lewis (Sâr Validivar), então Imperator da Ordem Rosacruz e Grande Mestre Regional da Tradicional Ordem Martinista que, com seu incansável trabalho e acurado senso de organização, sedimentou a agremiação na Europa. Foi eleito Soberano Grande Mestre da Ordem e dirigiu-a por 48 anos até o momento de sua Grande Iniciação, em 12 de Janeiro de 1987.

Hoje, a Tradicional Ordem Martinista é dirigida universalmente por Christian Bernard, também Imperator da Ordem Rosacruz - AMORC. Presentemente, a TOM está instalada também no Brasil.

Apesar de todas as adversidades, a Tradicional Ordem Martinista sempre conseguiu manter e transmitir sua Luz ao longo do tempo. Os martinistas - Servidores Incógnitos - sabem e concordam com Victor Hugo quando afirmou: A revolução muda tudo, menos o coração do homem. Por isso, como preconizou Saint-Martin, não é no exterior que se deve produzir a mudança, mas sim no coração de cada homem. É esse conceito que os martinistas denominaram (e denominam) de SENDA CARDÍACA.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

GÉRARD ANACLET VINCENT ENCAUSSE

O médico que tornou-se famoso no meio ocultista

sob o pseudônimo de PAPUS, nasceu no dia 13 de julho de 1865, em Corunã-Espanha, as sete horas

da manhã, sendo filho de pai francês, o químico Louis Encausse, e mãe espanhola, de origem

cigana, a senhora Irene Perez. O jovem Gérard criou-se, assim, em um ambiente favorável a um

futuro estudante de Alquimia e de Tarot.


Em 1869 a família Encausse veio estabelecer-se em Paris, no bairro Montmartre, onde Papus

iniciou seus estudos, primeiro no Colégio Rollin, depois aos 17 anos, na Faculdade de Medicina de

Paris. Ainda jovem, dedicou-se nas horas vagas ao Ocultismo; enquanto seus colegas preocupavam-

se com os problemas políticos da Europa e em percorrer todos os autores da Ciência Oficial, Papus

passava suas tardes na Biblioteca nacional de Paris ou na Biblioteca do Arsenal estudando os

autores clássicos da Alquimia e da Cabala, tomando notas dos principais manuscritos tão

zelosamente guardados há séculos nessas preciosas bibliotecas.


Papus teria sido iniciado por Henri Delaage em 1882, segundo ele mesmo nos diz, na Sociedade dos

Filósofos Desconhecidos, ordem que teria sido fundada por Louis Claude de Saint-Martin no século

XVIII, na França. Com 17 anos de idade, o jovem Papus passou a destacar-se no seio do Grupo que

passou a integrar, pela seriedade com que procurava as chaves da Iniciação.


Em 1887, aos 22 anos, escreveu sua primeira obra, denominada O Ocultismo Contemporâneo. Seu

Tratado Elementar da Ciência Oculta(1), no ano seguinte, alcançou grande sucesso em vários países

e proporcionou a seu autor grande liderança no meio ocultista parisiense. Fundou, em 1889, o

Grupo Independente de Estudos Esotéricos (Gidee), transformado mais tarde em Escola Hermética,

destinada a divulgar a espiritualidade e a combater o materialismo, igualmente, as revistas A

Iniciação e Véu de Isis, órgãos de divulgação do Ocultismo, planetas que giravam em torno do

centro irradiante de dinamismo, que era o Iniciador Papus.


Trabalhou como externo nos hospitais de Paris e não abandonou o exercício da medicina. Em 1894

defendeu sua tese de medicina, intitulada A Anatomia Filosófica e Suas Divisões, recebendo o título

de Doutor em Medicina, com elogios. Sua obra posterior, "Compêndio de Fisiologia Sintética", foi

igualmente muito elogiada nos meios acadêmicos.


Ao defender sua tese, Papus confessou-se um iniciante na arte de curar, pois vislumbrava as

possibilidades do Ocultismo. Como Paracelso, percorreu vários países da Europa, estudando todas

as medicinas, a oficial, a dos curandeiros e a homeopatia, aprendendo uma série de procedimentos

desconhecidos dos médicos tradicionais.

Praticou a alopatia, a homeopatia e a hipnose, realizando curas consideradas extraordinárias por

seus biógrafos. É o caso da senhora ricamente vestida, conta-nos Phaneg, que entrou em seu

consultório com ares de descrença. Papus sem que ela falasse e após ter chamado sua atenção pela

falta de fé no médico em presença, diagnosticou seu mal e falou de sua precária situação financeira.

A senhora ficou maravilhada pelas revelações que ouvia e pela nevralgia subitamente desaparecida.

Papus não lhe cobrou a consulta, porque aquela era seu último "louis".(2)


Muitas vezes Papus, para efetuar o diagnóstico, observava em primeiro lugar o astral do doente,

depois o curava misteriosamente, apelando à força vital-mãe, fonte de equilíbrio. Ele classificava,

assim as doenças, como sendo do Corpo, do Astral e do Espírito. As doenças do Corpo (como

febres, traumatismos) podem, segundo Papus, ser curadas pela medicina dos contrários; as doenças

do Astral (como tuberculose e o câncer) podem ser tratadas pela homeopatia e o magnetismo; e as

doenças do Espírito (como epilepsia, histeria e loucura) podem ser tratadas pela oração e pela

magia, desde que o mal não seja Cármico (dívida espiritual a ser paga pelo doente). Assim, Papus

praticava seguidamente a Medicina Oculta, curando à distância, agindo sobre a urina, o sangue e o

cabelo do paciente. Contam que Papus realizava diagnósticos insólitos, agindo pelos dons de

clarividência e de clariaudiência.


No Umbral do Mistério, Stanislas de Guaita escreve que Papus, "jovem médico dos mais eruditos e

fecundos, converteu-se em dupla personalidade: conquistou a notoriedade sob dois nomes

diferentes. Suas obras de anatomia e de fisiologia receberam apenas a subscrição de Gérard

Encausse. Seus Tratados de magia arvoram um outro nome".


"Cabeça enciclopédica e pena infatigável, saudemos este jovem iniciado que disfarça ou, diríamos,

que desfigura o lastimável pseudônimo de Papus. É mister, seguramente, que os seus livros

testemunhem uma superioridade assaz transcendente, para que se possa perdoar sua etiqueta! Fato é

que os amadores da teosofia pronunciam o nome de Papus sem esboçar qualquer sorriso mas, isto

sim, com admiração e apreço. Passando pelas brochuras já em número considerável, que têm

vigorosamente contribuído para a difusão das ciências esotéricas, mencionaremos tão-somente as

obras Ocultismo Contemporâneo (Carré, 1887, in 8º), O Sepher Yetsirah (Carré, 1888, in-8º) e a

Pedra Filosofal (Carré, 1889, in-12, frontispício)".


"Convém lembrar que Papus publicava, desde 1888, o seu "Tratado Elementar de Ciência Oculta"

(Carré, in-12, com figuras). Trata-se da primeira obra metódica em que se acham resumidos com

clareza, agrupados e sintetizados com maestria todos os dados primordiais do Esoterismo. Este livro

excelente, que enfoca a aplicação dos métodos experimentais de nossas ciências ao estudo dos

fenômenos mágicos, e ademais, uma ação boa e meritória: os próprios estudantes adiantados podem

recorrer a ela com segurança, como ao mais sábios dos gramáticos. Mas, Papus acaba de firmar para

sempre a sua reputação de Adepto através da aparição de uma monumental obra atinente ao Tarot

(3). Em nosso entender, não exageramos ao asseverar que este livro, em que se acha revelada, até às

profundezas, a lei ondulatória do ternário universal, constitui, no sentido mais alto do termo, uma

Chave absoluta das Ciências Ocultas".


Seu pseudônimo "Papus" foi retirado do Nuctameron de Apolônio de Tiana e significa o "médico da

primeira hora", aquele que não mede sacrifícios para atender seus semelhantes.


Papus consagrou-se ao estudo da Luz Astral e de sua influência sobre as doenças e sobre sua

terapêutica, tal como ensinava Paracelso um dos pais da Medicina. O papel da mente e suas relações

com o Plano Astral e o Homem. Durante longos anos dirigiu suas pesquisas sobre os fenômenos

hipnóticos, espíritas, parapsicológicos, exteriorização da sensibilidade e do magnetismo. Fundou a

Escola de Magnetismo de Lyon, tendo o Mestre Philippe de Lyon como seu Diretor.

Seus estudos dos Corpo Astral e do Plano Astral não tinham como objetivo apenas a cura do Corpo,

mas, principalmente, a cura da Alma, isto é, sua terapia pela iniciação. Fez da famosa divisa do

Templo de Delfos "Conhece-te a ti mesmo que conhecerás o Universo e os Deuses" o seu lema de

trabalho iniciático e profissional. Estudou profundamente a Antigüidade egípcia e os mistérios

gregos e romanos, concluindo que entre eles a Ciência e a Iniciação estavam intimamente

associadas.


A Escola Hermética, que tinha como professores famosos ocultistas da época, tais como Stanislas

de Guaita, Sedir, Barlet, Peladan, Chamuel, Marc Haven, Maurice Barrès (academia francesa)

Victor-Emile Michelet, entre outros, tinha como objetivo recrutar membros para as sociedades

iniciáticas dirigidas por Papus (Ordem Martinista) e por Stanislas de Guaita (Ordem Cabalística da

Rosa-Cruz) que ainda existem hoje em pleno vigor, através de cursos, conferências, pesquisas

ocultistas e publicações. Ensinavam o Hebraico, a Cabala, o Tarot, a Astrologia, a História Oculta, a

Magia, a Medicina Oculta, focalizando principalmente seu aspecto menos velado e mais científico.

Papus é tido como o divulgador do Ocultismo Científico de Louis Lucas, que se baseia na Analogia,

método que procura explicar o Invisível por inferência, a partir do Visível.


Papus teve como Mestre Intelectual o Marquês Joseph Alexandre Saint-Yves d´Alveydre e como

Mestre Espiritual, como ele próprio afirmava, o "Mestre Philippe de Lyon", a partir de 1887 e 1897,

respectivamente. Teve no seu companheiro Stanislas de Guaita um incentivador de primeira

grandeza, discípulo póstumos todos os dois de Eliphas Levi, Fabre d´Olivet, Saint Martin e Jacob

Böehme, cujas obras sabiam praticamente de cor.


Praticava a Cabala Prática(4),juntamente com seus principais companheiros, com a qual procurava

o aperfeiçoamento espiritual até chegar ao conhecimento da Divindade. O Adepto deve conhecer

toda a teoria da Magia, dizia Papus, os materiais usados pelos magos, os perigos da Magia que

enfrentam os praticantes temerários, a chave da magia negra, as ciladas do inimigo invisível, o

controle das paixões, a eliminação dos vícios, se o Iniciado desejar, sinceramente, tornar-se um

Mestre e obter a Salvação.


Sua vida foi uma ação constante em todos os planos, lutando contra o materialismo e o ateísmo e

divulgando a espiritualidade. A lembrança do duelo com Jules Blois, que tinha desacatado

fortemente a Stanislas de Guaita, ficou gravado na memória de todos os inimigos de Papus. Quando

Jules Blois dirigia-se em um fiacre para o local designado para o combate, os cavalos assustaram-se

com a aparição súbita de um vulto e empinaram-se, derrubando por terra Jules Blois e sua comitiva.

Assim, Jules Blois chegou à presença de Papus com dor de cabeça e cambaleante. O duelo

começou, sem muito entusiasmo, Papus procurando, dizem seus biógrafos, não ferir gravemente seu

opositor. Este recebeu um pequeno ferimento no ombro e a luta teve fim. Papus cumpriu sua

obrigação de médico, socorrendo seu adversário e a inimizade terminou.


Papus visitou a Rússia três vezes, sendo recebido pelo imperador. Em 1914 foi a Guerra como

capitão-médico, onde contraiu tuberculose. Faleceu em 25 de outubro de 1916, aos 51 anos de

idade. Seu corpo repousa no cemitério de Père Lachaise, em Paris, na divisão 93.


"Imitemos esse Iniciador, disse-nos Sedir, que desejou não ser mais do que um amigo para nós e

que foi bastante forte ao ponto de nos esconder suas dores e seus desgostos sob um perpétuo sorriso.

Enxuguemos nossas lágrimas; elas o reteriam nas sombras; regozijemo-nos, como ele próprio há

três dias o fez, por rever finalmente face à face o Todo Poderoso Terapeuta, o autêntico Pastor das

Almas, o Amigo Eterno, o Bem Amado de quem ele foi Eterno, o Bem Amado de quem ele foi o

fiel servidor".

"Digamos, juntos a Gérard Encausse, um até logo vibrante; demos a ele, por nossas boas vontades

doravante indefectíveis, a única recompensa digna de tão longas penas que ele suportou por nós"(5).


Papus foi sem dúvida alguma um grande Mestre ocultista, destacando-se por sua realização:

escreveu mais de 160 títulos, entre livros, artigos, conferências, abordando tanto a medicina como o

ocultismo. Os livros principais foram publicados em sua juventude, como o Tratado Elementar de

Ciências Oculta (23 anos), o Tarot dos Boêmios (24 anos), o Tratado Metódico de Ciência Oculta

(26 anos), a Cabala (27 anos), o Tratado Elementar de Magia Prática (28 anos).


Para seus companheiros de adeptado, suas obras principais foram o Tarot dos Boêmios, o Tratado

Metódico de Ciência Oculta e o Tratado Elementar de Magia Prática. São Três "dos mais belos

livros e dos mais fundamentais para o estudo do Ocultismo aparecidos após os de Eliphas Levi,

Louis Lucas e Saint-Yves d´Alveydre" (Stanislas de Guaita em No Umbral do Mistério (4).

sexta-feira, 14 de maio de 2010

JEAN BAPTISTE WILLERMOZ


Nasceu em Lyon em 10/07/1730, morreu na mesma cidade em 20/05/1824, era filho de Claude e Caterin Willermoz, comerciante da cidade. Devido às necessidades da família foi obrigado a deixar os estudos aos 12 anos de idade para ajudar seu pai nos negócios, três anos mais tarde ingressou como aprendiz numa loja especializada no comércio de sedas.
Tendo aprendido a profissão, instalou-se, aos 24 anos, por conta própria, produzindo e comercializando sedas. Havia sido iniciado na Maçonaria aos 20 anos de idade, dois anos depois já era venerável da Loja, no ano seguinte, 1753, fundou sua própria Loja Maçônica, A PERFEITA AMIZADE, a qual teve um rápido desenvolvimento realizando estudos ocultistas e principalmente a alquimia.
Willermoz permaneceu Venerável dessa Loja durante 8 anos, dedicava parte de seus recursos a obras de caridade junto à comunidade, para o profano, era tido como um homem sério, honesto, enriquecido pelo trabalho com o comércio de sedas, cristão e freqüentador da Igreja; pelos seus discípulos era admirado pela sua cordialidade e pela grande dedicação aos trabalhos maçônicos.
Na própria família, outros membros se interessaram pelo ocultismo: sua irmã mais velha, Claudine (Madame Provensal), seus irmãos Antoine e Pierre-Jaques, seu sobrinho Jean Baptiste Willermoz Neveu.
No meio ocultista era admirado pela solidez de seus conhecimentos que eram praticados juntamente com um pequeno grupo de esoteristas, escolhidos criteriosamente no seio da Maçonaria.
Durante sua longa existência, Willermoz manteve correspondência com os principais ocultistas de sua época: Martinez de Pasqually, Saint Martin, Joseph de Maistre, Savalette de Lange, Brunswick, Saint Germain, Cagliostro, Dom Pernety, Salzman e outros ocultistas alemães, franceses, ingleses, italianos, dinamarqueses, suecos e russos.
Em 21 de novembro de 1756, sua Loja filiou-se à Grande Loja da França, com a evolução dos trabalhos, Willermoz fundou uma Obediência, composta por 3 Lojas, tornou-se o primeiro Grão Mestre da Grande Loja dos Mestres Regulares de Lyon. Em 1760 as 3 Lojas contavam com 62 membros: A Perfeita Amizade: 30 membros, A Amizade: 20 membros, Os Verdadeiros Amigos:12 membros. Foi eleito presidente da Grande Loja dos Mestres Regulares de Lyon, em 04/05/1760, o irmão Grandon, recebeu do Conde de Clermont, o reconhecimento da Grande Loja da França e também o direito de ocultar os Altos Graus Escoceses.
Willermoz elegeu-se Grão Mestre da Grande Loja de Lyon em 1761 e 1762 mas não aceitou a renovação de seu mandato em 1763 para que pudesse dedicar-se mais à parte oculta. Em 1763 fundou, juntamente com seu irmão Pierre-Jacques, o Capítulo dos Cavaleiros da Águia Negra, nele, entraram os irmãos mais instruídos das Lojas de Lyon. As reuniões eram secretas para evitar a curiosidade dos demais irmãos, a admissão de novos membros foi fechada, estudavam particularmente o simbolismo e a importância dos diversos níveis e os catecismos dos diferentes graus e sistemas maçônicos.
Willermoz e seus companheiros não aprovavam os graus de vingança contidos em muitos sistemas maçônicos, com relação aos exterminadores da Ordem do Templo em 1314.
Os membros do Soberano Capítulo da Águia Negra, estariam ligados aos Iluminados de Avignon, dirigidos por Dom Pernety, este, tinha contato com a Estrita Observância Templária, na Alemanha e provavelmente também com Dom Martinez de Pasqually e por seu intermédio, possivelmente, foi que Willermoz conheceu Pasqually e que se tornou Delegado Geral da Estrita Observância Templária para a região de Lyon.
Com a aprovação da grande loja da França, os maçons de Lyon desenvolveram seus trabalhos sob o comando de sua própria Grande Loja, Willermoz deixou o Grão-Mestrado em 1763, tornando-se simples Guarda-selos e Arquivista, nunca deixou de exercer alguma função na Maçonaria.
Willermoz acreditava, desde a sua primeira admissão na Maçonaria, que Ela detinha o conhecimento de um objetivo possível e capaz de satisfazer o homem honesto. Trabalhos e estudos por mais de vinte anos, uma correspondência particular intensa com os Irmãos mais instruídos da França e do exterior e os arquivos da Ordem em Lyon, forneceram-lhe os meios para encontrar os inúmeros sistemas, alguns mais singulares que os outros.
Willermoz era em primeiro lugar, um discípulo esforçado, dedicado aos estudos, em segundo, foi um grande organizador de sistemas iniciáticos, grande pesquisador, ativo e prático; pela relação com Dom Pernety, deu uma impregnação alquímica ao seu sistema maçônico cujo objetivo era alcançar a iluminação e realizar a Grande Obra.
Em uma viagem à Paris, em maio de 1767, encontrou Bacon de la Chevalerie, substituto da Ordem dos Elus-Cohens do Universo, no Grão Mestrado, foi nessa oportunidade que constatou pela primeira vez com a doutrina de Martinez de Pasqually. Tinha 37 anos de idade quando foi iniciado por Pasqually na Ordem dos Elus Cohens, em cerimônia realizada em Versalhes, proximidades de Paris.
Bacon colocou Willermoz em contato também com outros irmãos, juntamente com seu irmão Pierre Jacques, entraram na nova Sociedade, cujo chefe era Pasqually, um dos sete chefes soberanos universais da Ordem, como ele próprio se apresentava. Iniciado há 18 anos na Maçonaria e possuidor de todos os seus graus, compreendeu que até aquele momento nada sabia da Maçonaria essencial e que havia um vasto campo de conhecimentos a percorrer.
Seus conhecimentos de alquimia, uma ampla base de conhecimentos de simbolismo maçônico e do ocultismo em geral, permitiram-lhe destacar-se rapidamente na Ordem dos Elus Cohens do Universo. As teorias expostas por seu novo Mestre respondiam aos desejos secretos que possuía e a tudo aquilo que sempre procurou. A nova Ordem detinha prescrições particulares à seus discípulos, era vetado o consumo de sangue, dos rins, e da graxa dos animais, recomendava a prática mundana com moderação e duas vezes por ano praticavam um rigoroso jejum; abstinham-se de toda alimentação algumas horas antes de seus trabalhos.
Pasqually concedeu-lhe o direito de estabelecer uma Grande Loja do novo rito em Lyon e deu-lhe o título de Inspetor Geral do Oriente em Lyon e fez com que entrasse como membro não residente do Tribunal Soberano de Paris. Em 13 de março de 1768, Bacon de la Chevalerie ordena Willermoz no Grau Rosa Cruz. Willermoz iniciou longa correspondência com Pasqually, através da qual era instruído acerca das operações de equinócio e em relação aos trabalhos diários. Determinados irmãos iam de Bordeaux à Lyon para operarem com Willermoz. Os irmãos de Paris realizavam trabalhos a sós ou acompanhados por Pasqually, como o Mestre não tinha meios de estar presente em todos os lugares ao mesmo tempo, havia irmãos descontentes, Willermoz procurou acalmar os irmãos, tanto os de Paris como os de Versalhes e com tom moderado solicitou a assistência do Mestre em Bordeaux.
Todos aguardavam suas promessas, os discípulos impacientes esperavam a manifestação do sinal do Reparador. O Mestre mandou que estudassem com mais perseverança ainda e que tivessem paciência e esperassem que a luz se faria presente no interior de cada um. Essa cobrança de que Willermoz foi o porta-voz, parece ter irritado o Mestre, que proibiu Willermoz de realizar os trabalhos de determinado equinócio.
Desde 1768 Willermoz mantinha correspondência com Saint Martin, na época secretário de Pasqually, formou-se entre ambos uma forte amizade, estavam em início de carreira iniciática e ainda bastante imaturos na Iniciação Real.
Saint Martin reconfortava o líder Lyones, seu estilo elegante, seu fervor espiritual e seus conhecimentos de ocultismo acalmaram a mente dos irmãos de Lyon, dando-lhes coragem e paciência.
Através de Saint Martin, Willermoz em 11/07/1770, Pasqually falou-lhe de seus mestres, sendo ele próprio apenas um intérprete, possuidor do terceiro grau de uma Ordem originária dos lendários Rosa Cruzes.
Willermoz encontrou nos novos companheiros da Ordem dos Elus Cohens: Grainville, Champollion, Bacon de la Chevalerie, Saint Martin, entre outros, uma grande fé em Martinez de Pasqually, na imortalidade da alma e na iluminação humana. Todos praticavam as técnicas mágicas oriundas do sistema organizado por Pasqually; esperavam pacientemente o desenvolvimento espiritual que se mostrava lento para todos os discípulos.
Aguardavam a presença do agente incógnito, de "la Chose", que deveria um dia manifestar-se no seu meio e aportar-lhes os conhecimentos divinos.
Com a partida de Pasqually para São Domingos, a Ordem dos Elus Cohens começou a declinar, Willermoz não esperou o desaparecimento do Mestre para agir por conta própria. Da América o Mestre escreveu-lhe colocando um fim em sua punição e dizendo-lhe que continuasse seu trabalho com a dedicação demonstrada até aquele momento, porque acabaria obtendo o sucesso almejado nas operações.
Willermoz recebia encorajamento de Grainville e de Champollion no sentido de lhe pacientar, salientavam a necessária distinção que se deve estabelecer entre o instrutor, falível como qualquer ser humano e a doutrina secreta, divina, pura, que ele nada mais fazia de que interpretá-la.
A idéia de Willermoz de adaptar o sistema da Ordem dos Elus Cohens do Universo, de Pasqually, dentro da Maçonaria, não era tarefa fácil. O sistema maçônico representa a Iniciação Primitiva e é tão antigo como a própria raça humana. Sua ritualística está inserida dentro de um contexto histórico, simbólico e iniciático.
Em 1771 recebeu instruções de Saint Martin sobre a ordem e o método, Willermoz era apegado à organização e às experiências, ainda que se sentindo constantemente decepcionado pelos seus insucessos. Willermoz necessitava de provas para afirmar seu espiritualismo e sentia-se fascinado
pelo cerimonial e pelo ritualismo. Saint Martin tentava faze-lo acessível à voz interior. Willermoz procurava obter por carta, maiores esclarecimentos acerca dos problemas que iam surgindo no transcorrer de sua jornada iniciática. Os resultados positivos da iniciação não apareciam tão rapidamente como os discípulos desejavam, era necessário muito trabalho como em qualquer sistema de iniciação, para que surgisse alguma manifestação de aprimoramento espiritual.
Difícil era encontrar adeptos capazes de professar uma Maçonaria espiritualista, havia homens dispostos a praticar a Maçonaria Ocultista tanto em Lyon, como em Metz, em Estrasburgo, em Paris, em Versalhes; Willermoz mantinha contato com todos esses grupos de maçons.
Os contatos com os grupos maçons da Alemanha foram intensos a partir de 1772. Através do Venerável da Loja A Virtude, de Metz: Meunier de Précourt, Willermoz ficou sabendo da sobrevivência da Ordem do Templo na Alemanha através dos Cavaleiros Teutônicos, que era a herança externa e dos Rosa-Cruzes, o legado interno.
Em 1772, Willermoz recebeu uma carta da Loja La Candeur, de Estrasburgo, confirmando existir na Alemanha, uma Obediência Maçônica rica pelo número e pela qualidade de seus membros, fundada por Superiores Incógnitos e denominada Estrita Observância Templária. Seu Grão Mestre era o Barão de Hund e o objetivo: a prática das virtudes cristãs e o desenvolvimento moral e espiritual de seus membros.
Tratava-se de uma Maçonaria Templária e Ocultista, seus membros estudavam a Cabala, a Alquimia e o Ocultismo em geral, Willermoz foi conquistado ao tomar conhecimento dos objetivos altruísticos e da seriedade dos seus trabalhos.
Em 24 de junho de 1772, a Estrita Observância Templária tornou-se Lojas Reunidas Escocesas e o Barão de Hund foi substituído pelo Duque Ferdinand de Brunswick.
Em dezembro de 1772, Rodolphe de Salzmann, Mestre dos Noviços do Diretório de Estrasburgo, chega a Lyon para fazer a iniciação de Willermoz e de seus companheiros, na Sociedade dos Filósofos Desconhecidos, como Willermoz, Salzmann era um grande admirador do sistema maçônico.
Paralelamente, Willermoz e Saint Martin, que em setembro de 1772 havia se instalado em Lyon, na casa de Willermoz, Trabalhavam juntos para o aperfeiçoamento do sistema maçônico, com base na doutrina e no sistema oriundo da Ordem dos Elus Cohens e dos demais sistemas existentes que conheciam. Willermoz pretendia através da Maçonaria, a adaptação dos ensinamentos secretos recebidos de Pasqually.
Saint Martin permaneceu um ano em Lyon, seguiu depois para sua cidade natal e depois para Paris.
Em carta de 14/12/1772, Willermoz pedia a sua filiação na Estrita Observância Templária, o Barão Weiler respondeu-lhe em 18/03/1773, que nada aceitariam que fosse contrário à sua religião de nascimento e a seus deveres de cidadãos como fiéis súditos do Rei da França. Conservaram também a ligação com a Grande Loja da França no que dizia respeito aos graus simbólicos; a ligação com a Grande Loja da Alemanha foi estabelecida somente em relação aos altos graus.
Em 1773, o Barão Weiler foi a Lyon e iniciou Willermoz e seus companheiros na Estrita Observância Templária, deixou instalada a Loja Escocesa Retificada: La Bienfaisance, em condições de desenvolver independentemente seus trabalhos, isso aconteceu no dia 07/11/1773.
Face à decadência da parte externa da Ordem dos Elus Cohens, ocorrida a partir do ano de 1772, com a partida de Pasqually para São Domingos, Willermoz encontrou no sistema maçônico um substituto à altura. Nesse novo sistema, pretendia espargir as luzes recebidas na senda interior dos Elus Cohens e receber também a manifestação do Agente Invisível; Willermoz retirou, a partir dessa época, os melhores ensinamentos de suas operações e a luz começava a brilhar no seio das trevas.
Como a Ordem dos Elus Cohens, a Estrita Observância Templária possuía dez graus, sendo: três simbólicos, três intermediários e quatro superiores, esta última classe, de origem Templária.
Willermoz obteve a corrente de Jacob Böheme ao ser iniciado por Salzmann e confirmada na linha mais antiga dos Templários, ao associar-se com a Estrita Observância Templária.
Willermoz recebeu o grau de Grande Professo no Convento de Gaules, realizado em Lyon entre 25/11/1778 a 10/12/1778, também conseguiu com Salzmann, que se introduzisse após o sexto grau da Estrita Observância Templária, os dois graus denominados: Professo e Grande Professo que continham a doutrina da Ordem dos Elus Cohens.
A Estrita Observância Templária da região de Auvergne (Lyon) ficou conhecida pelo nome de Cavaleiros Benfeitores da Cidade Santa ou Maçonaria Retificada. Os graus simbólicos ficaram sendo quatro: Aprendiz, Companheiro, Mestre e Mestre Escocês; a classe superior ficou denominada: Cavaleiro Professo e Grande Professo.
Willermoz, tendo conseguido introduzir no sistema maçônico de Lyon, da Estrita Observância Templária, a filiação espiritual e doutrinária de Pasqually, tentou fazer o mesmo no resto das obediências maçônicas.
No seu conceito, o Rito Escocês Retificado tinha por objetivo o estudo das ciências ocultas, pretendia unir o ocultismo com o cristianismo, estudar o esoterismo do cristianismo, considerar a Cristo, o Reparador; crê em Cristo porém renega a autoridade do Vaticano, do Catolicismo de Roma.
No Rito Escocês Retificado seus princípios aparecem como cristãos, fundamentados nos evangelhos. O Willermosismo tendeu sempre para o agrupamento das fraternidades iniciáticas, à constituição de coletividades de iniciados dirigidas por centros ativos religados ao iluminismo.
No convento de Wilhemsbad, aberto no dia 14/07/1782, Willermoz encontrou o apoio precioso dos dois príncipes dignatários da Estrita Observância Templária: os irmãos: Ferdinand de Brunswick, que presidiu o Convento, e Charles de Hesse, recebeu a missão de organizar o Rito Escocês Retificado e foi designado Soberano Delegado Geral do Movimento para a região de Lyon.
Conseguiu também que todos os irmãos da Ordem Interior recebessem o título de Cavaleiro Benfeitor da Cidade Santa. E no novo conjunto de graus, no número de sete, continha todo o sistema doutrinário de Pasqually, organizado inteiramente em Lyon através de: Willermoz, Saint Martin, Grainville, Savaron e outros e que a partir do Convento de Wilhemsbad passou a ser adotado igualmente em toda a Alemanha e resto da França. O título "Cavaleiro Benfeitor da Cidade Santa" originou-se do nome da Loja "La Bienfaisance", de Lyon, que abrigou os primeiros cavaleiros.
Em 05/04/1785, Willermoz obteve sucesso com as suas operações, a "Coisa" ativa e inteligente mostrou-se aos homens. O Agente Incógnito, ser de natureza divina, teria ditado uma série de instruções aos Irmãos de Lyon, através de uma sonâmbula: Madame de Vallière:..." não rejeiteis a voz do Espírito Puro que se serve de uma mão corruptível", teria dito o Agente.
Era a prova definitiva da validade das cerimônias pela manifestação da "Coisa", 13 anos após a partida de Pasqually para São Domingos. Willermoz não rejeitou a voz do Espírito Puro, mensageiro da Divindade; seu grupo foi escolhido para ser o centro de irradiação da Luz. Com auxílio do Invisível, Willermoz e Saint Martin adquiriram um lugar de destaque na organização da Maçonaria Retificada e da Ordem Interior; iniciaram adeptos de toda a França e Alemanha, porém sabiam que o sucesso não seria fácil, Saint Martin disse à Willermoz: " o espírito é como o vento, ele sopra quando quer e como quer e ninguém sabe quem ele é e de onde vem...".
Foi também no seio desta Loja que foram recrutados os membros do Conselho dos Onze que fundaram a Loja Elue et Cherie pela ação do Agente Incógnito, o mensageiro divino esperado desde o tempo de Pasqually.
No dia 10/04/1785, Willermoz comunicou aos onze irmãos de sua Loja La Bienfaisance, que ela passaria a denominar-se Loja Elue et Cherie, centro de uma nova sociedade. Os irmãos escolhidos pelo Agente foram: Willermoz, Pagannuci, Graiville, Millancia, Monspey, Savaron, Braun, Périsse- Duloc, Castellas, Rachain, Antoine Willermoz. Havia um décimo segundo irmão que estava ausente dos trabalhos e o Agente disse que ele ainda não podia ser designado porque seu coração estava muito ocupado com os negócios profanos. Tudo leva a crer que se tratava de Saint Martin.
Willermoz falava sobre a iniciação: "Aquele que me a transmitiu não é um ser inspirado interiormente, nem um magnetizador privilegiado, nem um ser versado nas iniciações antigas, que conhece muito menos que nós".
"É um ser que goza de todos os sentidos ao escrever, que escreve quando lhe fazem pegar na pena, sem saber nada do que escreverá, nem a quem escreverá. Uma potência invisível, que não se manifesta a ele senão por diversas partes de seu corpo, toma a mão como se toma a mão de uma criança de três anos, para lhe fazer escrever o que se deseja. Ele não pode conduzir a ação, mas pode resisti-la por ato de sua vontade, que então pára de escrever; ele lê então o que sua mão escreveu e é o primeiro admirador do que vê, muitas vezes nada compreende de que escreveu, foi prevenido, desde o tempo que esse dom extraordinário começou a se manifestar nele, que escreveria coisas que não deveria compreender porque não foram escritas para si, mas para aqueles a quem elas se destinavam".
O próprio Agente tinha seus superiores, "as potências celestes superiores ou secundárias" que dirigiam seus trabalhos e faziam-no escrever. Eram depósitos de conhecimentos admiráveis, uma doutrina da verdade.
A revelação e o desenvolvimento dessa doutrina deveria continuar, através do Agente, desde que se formasse uma nova sociedade secreta de Iniciação, cujos membros escolhidos individualmente pelo Agente, seriam os obreiros da décima primeira hora, os sucessores dos Apóstolos e dedicados à Grande Obra; seriam os precursores de um novo amanhã, homens regenerados pela fé e pelo trabalho.
A reunião havia sido realizada na casa de Savaron, onde Willermoz também dissertou sobre os quatro cadernos de instrução ditados pelo Agente. " Informei-vos do que se passou, de vossa eleição pessoal, do destino atribuído a esta nova Sociedade. Esforcei-me, confesso, em vos comunicar a persuasão e a confiança de que venho de ser comulado. Ao aspecto desse depósito maravilhoso, ficaste tão admirados quanto eu... A Iniciação que ele fornecia e a forma que ele a apresentava vos pareceram um prodígio e vós permanecestes tomados de admiração e reconhecimento. ..assim a nova Sociedade de amigos foi fundada.
Os Iniciados da nova Sociedade não eram recrutados apenas em Lyon, um mês depois, Willermoz viu-se obrigado a aumentar sua correspondência com pessoas residentes em outras cidades. Dois amigos de Saint Martin foram iniciados: o Visconde de Saulx-Tavannes e o Saxon Tieman. Seguindo o apelo do Agente, Willermoz contatou o Cavaleiro de Barberin, Ferdinand de Brunswick e Charles de Hesse. Em 30/06/1785, a Sociedade possuía trinta membros. Quando o Abade Fournier, último secretário particular de Pasqually, soube do sucesso dos trabalhos de Lyon, partiu para essa cidade, porém, chegando à Lyon, não foi recebido no Templo, porque os altos graus na Ordem dos Elus Cohens nada valiam na nova Sociedade e também porque somente seriam iniciados novos membros mediante convite especial do próprio Agente.
A decepção tocou também o Dr. Archbold, que foi também rejeitado. Essas pessoas teriam desencadeado uma série de intrigas que abalou a Sociedade.
Willermoz parou de remeter sua contribuição ao Abade Fournier.
Saint Martin também ficou sabendo da notícia, partiu de Paris, em junho de 1785, levando consigo uma bíblia em hebraico e um dicionário, para entreter-se na viagem. Pelo que se pôde perceber ele teria tido previamente contato com o Agente, porém ele teria agido como precursor não autorizado em relação ao Agente Incógnito e publicado seu livro: "Dos Erros e da Verdade", sem autorização e com o pseudônimo de Filósofo Desconhecido. O próprio Saint Martin esclareceu esse ponto: "Eu sei que, em meu foro íntimo, a publicação de meus escritos jamais teve meu próprio assentimento completo. O erro que cometi em me deixar conhecer não me pareceu comparável ao de ter escrito. Este último erro ofendeu "La Chose" por me colocar em seu lugar, sem sua ordem; o outro erro não expunha senão minha pessoa".
Saint Martin acabou por alcançar a Graça da Reconciliação, porque os homens não são castigados eternamente. Após ter aceito o Agente como sinal da Divindade, foi recebido em julho de 1785, segundo as leis do Agente, sob o nome de Eques a Leone Sidero, no seio da Loja Elus et Chérie, permaneceu em Lyon até janeiro de 1786.
De abril a dezembro de 1785, cento e vinte cadernos foram escritos, somente trinta e um foram escolhidos por Willermoz para serem copiados pelos irmãos e servirem de instrução aos novos membros.
A Doutrina da Verdade ensinava que Phaleg deveria ser reverenciado como fundador da Maçonaria, no lugar de Tulbacain. Phaleg teria reagrupado pela primeira vez homens em Lojas. Esta palavra Loja, ensinou o Agente, teria se originado da palavra primitiva Logos ou Verbo. O Agente trouxe um reconhecimento divino às Lojas. Lyon tornou-se o depósito e centro dessa bem-aventurada Luz, que a partir desse local, propagou-se por toda a província, pela França e outros países.
Vários Homens de Desejo foram chamados em presença dos Martinistas de Lyon e se submeteram às formalidades da Iniciação na nova Ordem.
Saint Martin ajudou Willermoz a colocar em ordem os Cadernos de Instrução dos irmãos. Entre 1785 e 1787, foram iniciados várias pessoas, oriundas de inúmeras localidades, a organização dos círculos de Iniciados em Lyon, recebia a inspiração do Agente, o Superior Incógnito.
Desde a revelação, no dia 5 de abril de 1785, Willermoz, com 54 anos de idade, não cessou de trabalhar, inspirado pelo Agente, procurava suscitar nos corações de seus Iniciados, não apenas o conhecimento das coisas transcendentais, mas a convicção de que entravam em uma Loja onde a Luz estava presente e cuja aliança com a Divindade fazia irradiar dessa Loja a Luz dos últimos tempos sobre todas as nações, e que os Maçons Retificados de Lyon formavam os elementos do novo templo escolhido.
Esperando a conclusão da Grande Obra, os Iniciados de Lyon deveriam praticar as virtudes ensinadas pelo Agente Incógnito, antes de pretenderem propagar a doutrina por todo o Universo. A fraternidade reinante entre os irmãos castigava os recém-chegados, Gaspar de Savaron, Millanois e Périsse-Duloe salientavam-se por sua cordialidade em relação a todos os irmãos; o próprio Willermoz mostrava-se um mestre afável e hospitaleiro, irradiava amizade entre todos os irmãos.
No dia 10 de abril de 1786, os Iniciados de Lyon comemoravam o primeiro aniversário de fundação da nova Sociedade, alguns dias após, o Agente revelou que em três anos sua ação seria renovada e que um ser providencial faria a Sociedade entrar em uma fase decisiva: "Recebeis, como bons estudantes, as lições de Maria ainda no segundo ano, mas no terceiro, Jesus Cristo tornar-se-á vosso mestre. Sua sábia voz escolheu o "tipo" entre vós".
Em abril de 1786, Willermoz colocou a disposição dos irmãos o Caderno de Instrução nº 131.
Os três primeiros anos foram de muita expectativa para todos os Iniciados de Lyon, porque aguardavam o novo Mestre Incógnito. Esperavam todos os amigos íntimos de Willermoz: Gaspar de Savaron, Grainville, Saint Martin e à distância: Charles de Hesse, Ferdinand de Brunswick, Bernard Turkheim, banqueiro e maçom ativo de Estrasburgo, amigo íntimo de Salzmann.
O Agente teria também prometido comentários inéditos sobre a Bíblia e sobre os escritos dos primeiros Padres da Igreja. Até 1788 nada de novo ocorreu, o Agente suspendeu sua ação e isto fez com que alguns discípulos ficassem com a fé abalada. Um dos irmãos, o Conde de Tavannes, apresentava de vez em quando, crise de nervos, ele tinha sido encarregado pelo Agente, de procurar um manuscrito grego, que apresentava revelações sensacionais e que estaria depositado na Biblioteca Imperial. Tavannes tentou encontrá-lo mas não teve sucesso e responsabilizou as doutrinas da Iniciação Lyonesa pelo seu estado de saúde. Saint Martin tinha previsto que esse acidente, bem como a falta de comunicação do Agente, iria abalar a reputação dos Iniciados de Lyon.
Com efeito, os Iniciados de Estrasburgo começaram a vacilar na senda, através das dúvidas lançadas por Bernard de Turkheim, voltaram todos sua atenção para os príncipes alemães. Em 18 de junho de 1788, o Grão Mestre da Maçonaria Retificada, o Duque de Havré, depositou em Lyon, junto a Willermoz, sua demissão; em vão Willermoz tentou convencê-lo da realidade dos trabalhos, da sinceridade de intenções de todos os irmãos de Lyon.
"Infelizmente", escreveu Willermoz a Saint Martin, por essa época, "aquele que recebeu a ordem de velar pelo Agente, de falar a todos em seu nome, tendo as vezes que gritar para melhor se fazer ouvir, não deixou de ser, para alguns, senão um usurpador que, ao abusar dos mistérios, aproveitava-se das circunstâncias para dominar seus irmãos... Seu cargo excitou murmúrios secretos, ciúmes... Outros preferiram duvidar de sua missão, porque ele não a mantinha por prodígios que lhes pareciam necessários para ser acreditado."
Saint Martin, profundo conhecedor do caráter de Willermoz, vivendo na sua intimidade há quase vinte anos, acentuou suas atividades após julho de 1785, os Cadernos de Instrução passaram a ser copiados por ele.
Em 10 de outubro de 1788, Willermoz convocou uma assembléia extraordinária para tentar reconquistar a confiança dos Iniciados; não teve sucesso. Em dezembro de 1789, Saint Martin pediu demissão de Loja Maçônica de Lyon.
O Agente reapareceu em 1790, mandou destruir 80 Cadernos de Instrução, que não tinham sido copiados pelos irmãos, porém, entre 1790 e 1791 o Agente ditou mais 40 cadernos, tratando de: orações, liturgia, leis sobre a natureza, comentários sobre a Bíblia, etc. Em 1798, surgiu um caderno comentando criticamente as obras do Saint Martin: "Dos Erros e da Verdade", "A Tábua Natural", "O Homem de Desejo", "O Novo Homem", "O Homem Espírito".
Em 1793, quando eclodiu a Revolução Francesa, o terror tomou conta da cidade de Lyon, Virieu desapareceu, Millanois, Grainville e o veterano Guilaume de Savaron (irmão de Gaspar de Savaron), oficiais do exército em Lyon, foram condenados pelo tribunal e fuzilados; Antoine Willermoz e Bruyzet foram guilhotinados. A obra maçônica de Willermoz sofreu a perseguição da Revolução, muitos Templos Retificados ou Cohens foram obrigados a fecharem as portas. O sistema maçônico Retificado dos Cavaleiros Benfeitores da Cidade Santa passou para a Suíça, fugindo dos Revolucionários e depois de Napoleão, dando origem ao Sistema Retificado Moderno, mais tarde esse sistema voltou à França e recentemente à Alemanha.
Muitos fugiram para a Suíça, alguns para o campo, o grupo de Iniciados de Lyon ficou praticamente extinto, Willermoz foi à uma casa retirada onde se reuniam os Iniciados e em dois baús colocou os arquivos e os trouxe para a cidade, no dia seguinte aquela casa ficou reduzida a cinzas.
Na casa onde se alojava em Lyon, caiu uma bomba que atingiu um dos baús, desmanchando-o com todos os documentos, Willermoz fugiu levando o que restava dos documentos e colocou-os em mãos seguras; parte deles ficaram com seu sobrinho Jean Baptiste Willermoz Neveu.
Willermoz, como Périsse, seguiu as funções de caridade em hospitais e escapou da condenação, ação de seu irmão Pierre-Jaques Willermoz, médico, foi decisiva para salva-lo da Revolução.
Passada a tormenta revolucionária, graças aos rituais que havia salvo, Willermoz reorganizou a Maçonaria Espiritualista, até a morte procurou como objetivo, as práticas da virtude e da caridade e fez com que as Lojas e Capítulos fossem centros de seleção para os grupos de Iluminados.
A primeira parte de sua obra era clara, a segunda, oculta, Willermoz continuou sua obra sobre a terra, 19 anos após a partida de Saint Martin para o Mundo Invisível (1803), os dois Adeptos completavam-se, Willermoz destacou-se pelo seu dinamismo e pela capacidade de organização, usava a Maçonaria como centro de recrutamento para a Ordem Interior. Saint Martin, mais intelectual, procurava em todos os meios onde se encontrava, os Homens de Desejo para colocá-los em Sua Senda Interior. Willermoz escolheu a Maçonaria como base fundamental para preparar o Iniciado e colocá-lo em condições de marchar na Senda da Luz entre as duas colunas, até chegar ao Oriente, onde encontrará a coluna invisível que o ligará com a Divindade.
Para Willermoz, como para Saint Martin e demais Mestres do Ocultismo Ocidental, a Iniciação Real é um trabalho eminentemente pessoal e interior.
O Homem ao encarnar ficou com a alma por desenvolver, isto a partir de uma centelha espiritual. O receptáculo é a Alma Humana, a Pedra Bruta que deverá ser transformada e inserida na obra de construção do Templo Universal, a Jerusalém Celeste das almas regeneradas e imortalizadas pelo Verbo Divino.
Poucos anos, antes de sua morte, confiou os arquivos à seu sobrinho, seu Iniciado, posteriormente foram legados à Élie Steel e depois à Papus (1895).
Após sua morte subsistiram Lojas de seu sistema trabalhando com êxito em toda a França, Alemanha e Itália.

ELIPHAS LEVI


Eliphas Levi Zahed é tradução hebraica de Alphonse Louis Constant, abade francês, nascido no dia 8 de fevereiro de 1810 em Paris. O maior ocultista do século XIX, como muitos o consideram, era filho de um modesto sapateiro, Jean Joseph Constant e de Jeanne-Agnès Beaupurt, de afazeres domésticos. Possuía uma irmã, Paulina-Louise, quatro anos mais velha do que ele. Apesar de
mostrar desde menino aptidão para o desenho, seus pais encaminharam-no para o ensinamento religioso. Foi assim que aos dez anos de idade ingressou na comunidade do presbitério da Igreja de Saint-Louis em Lille, onde aprendeu o catecismo sob a direção do abade Hubault selecionava os garotos mais inteligentes, que demonstravam alguma inclinação para a carreira eclesiástica. Desse modo, Eliphas foi encaminhado por ele ao seminário de Saint-Nicolas du Chardonnet, para concluir seus estudos preparatórios(1). A vida familiar cessou para ele a partir desse momento. No seminário, teve a oportunidade de aprofundar-se nos estudos lingüisticos e aos dezoito anos já era capaz de ler a bíblia em seu texto original. Em 1830, foi transferido para o seminário de Issy para cursar Filosofia. Dois anos mais tarde, ingressou em Saint-Sulpice para estudar Teologia. Foi em Issy que escreveu seu primeiro drama bíblico, intitulado Nemrod; no grande seminário de Saint-Sulpice criou seus primeiros poemas religiosos, dotados de uma grande beleza. Após seu curso de Teologia, Eliphas ingressou nas ordens maiores, sendo ordenado sub-diácono e encarregado de ministrar o catecismo para meninas. "Esse ministério, diz Eliphas, tão poético e tão
suave, foi para mim muito agradável; parecia-me que eu era um anjo de Deus, enviado a essas crianças para iniciá-las na sabedoria e na virtude; as palavras tornavam-se abundantes para elas em meus lábios, pois meu coração estava repleto e tinha necessidade de expandir-se(2)". Nosso jovem Alphonse são tardou a sentir o despertar em seu interior da força de sua juventude asceticamente reprimida desde a adolescência. Um dia, quando estava ensinando o catecismo às meninas, alguém chamou-o à sacristia. Era uma senhora, com uma jovem pálida e tímida, que pediu a Eliphas que a preparasse para a primeira comunhão. Outros padres tinham recusado por ser ela
pobre e a filha doente e tímida. Eliphas não só aceitou a tarefa, como prometeu tratá-la como filha. A menina, que se chamava Adele Allenbach, de uma beleza pura e cândida, pareceu a Eliphas ser a imagem da própria Virgem Maria. Essa beleza juvenil correspondeu para ele a uma "iniciação a vida", pois amou-a ternamente como se fosse uma deusa.


Eliphas Levi foi ordenado diácono em 19 de dezembro de 1835; em maio de l836 teria sido ordenado sacerdote se não tivesse confessado a seu superior o amor que devotava à jovem. Suas convicções religiosas receberam um choque tão grande, que Eliphas sentiu-se jogado fora da carreira eclesiástica. Após 15 anos de estudos, Eliphas deixou o grande seminário para ingressar no mundo, tinha então vinte e seis anos de idade. Sua mãe, ao saber disso, suicidou-se. Abalado, sem experiência do
mundo, teve muitas dificuldades para encontrar um emprego. Essa dificuldade aumentava ainda mais pelo boato que correu, segundo o qual teria sido expulso do seminário. Após ter percorrido o interior da França, trabalhando em um circo, Eliphas encontrou em Paris alguns trabalhos como pintor e jornalista. Fundou, com seu amigo Henri-Alphonse Esquirros(3), uma revista denominada "As Belas Mulheres de Paris", na qual aplicava-se como desenhista e pintor e Esquirros como redator.
Mas, apesar desse pequeno parêntese em sua vida, Eliphas não tinha perdido sua inclinação para a vida religiosa. Despedindo-se de Esquirros, partiu em 1839 para o convento de Solesmes, dirigido por um abade rebelde. Eliphas aí encontrou uma biblioteca com mais de 20.000 volumes, iniciando-se na leitura dos antigos Padres da Igreja, dos Gnósticos e de alguns livros ocultistas, principalmente os da Senhora Guyon: "A vida e os escritos dessa mulher sublime, diz-nos Eliphas, abriram-me as portas de inúmeros mistérios que ainda não tinha podido penetrar; a doutrina do puro amor e da obediência passiva de Deus desgostaram-me inteiramente da idéia do inferno e do livre arbítrio; vi Deus como o ser único, no qual deveria absorver-se toda personalidade humana. Vi desvanecer o fantasma do mal e bradei: um crime não pode ser punido eternamente; o mal seria
Deus se fosse infinito!"(4).
Eliphas vislumbrou, através do Spiridion e de outros escritos dessa autora, o reino futuro do Espírito Santo, o trabalho do homem de amanhã. O Cântico dos Cânticos lhe foi revelado; compreendeu por que em teologia a esposa tinha preferência em relação a mãe. Ficou imensamente feliz ao compreender que todos os homens poderiam ser salvos. Partiu de Solesmes sem dinheiro, sem roupas, mas com uma profunda paz no coração. Não acreditava mais no inferno!(5).
Eliphas Levi passou, então, de emprego em emprego, sempre perseguido pelo clero que via nele um apóstata. Foi então que escreveu sua Bíblia da liberdade, desejando dividir com seus irmãos as alegrias de suas descobertas (1841). Essa publicação custou-lhe oito meses de prisão e 300 francos de multa! Foi acusado de profanar o santuário da religião, de atentar contra as bases da sociedade, de propagar o ódio e a insubordinação. Foi mais ou menos por essa época que conheceu os escritos de Swedenborg. Segundo Eliphas, tais escritos não contêm toda a verdade, mas conduzem o neófito com segurança na senda. Saindo da prisão, realizava pequenos trabalhos, principalmente pintura de quadros e murais de igrejas e colaborações jornalísticas. Apesar dos contratempos materiais, não deixou jamais de aperfeiçoar seus conhecimentos e enriquecer sua erudição. Foi após Swedenborg que encontrou os grandes magos da Idade Média, que o lançaram definitivamente no Adeptado: Guillaume Postel, Raymond Lulle, Henry Corneille Agrippa. Assim em 1845, aos trinta e cinco anos de idade,
escreveu sua primeira obra ocultista, intitulada O livro das Lágrimas ou o Cristo Consolador.
Em 13 de julho de 1846 casou-se com Marie Noémi Cadiot, matrimônio que durou sete anos. Esse casamento foi para ele um suplício. Instigado pela mulher, lançou-se a escrever panfletos políticos, resultando-lhe um segundo período de cárcere. Em 3 de fevereiro de 1847, foi condenado a um ano de prisão e ao pagamento de mil francos de multa, acusado de levar o povo ao ódio e ao desprezo do governo imperial. Sua mulher, grávida, percorreu os mistérios a fim de obter a redução da pena imposta a seu marido, o que conseguiu após seis meses. Em 1847, sua esposa deu à luz uma menina, que faleceu em 1854, para desespero de seu pai, que a adorava. Era uma criança muito doente e esteve várias vezes à morte. "Um dia, diz o Mestre, trouxeram-me essa pobre criança agonizante, porque não ouso dizer morta, por uma estúpida mulher que Noemi, incapaz de ser mãe, tinha admitido como ama-de-leite. A criança estava fria; o coração e o pulso não batiam mais. Noemi, que não soube cuidar dela como devia, estava furiosa, dizendo que mataria o filho da ama-de-leite (que mulher eu tinha, grande Deus!). Para apaziguá-la,
jurei-lhe que a menina não estava morta. Transportei o pobre corpo para a cama e coloquei-o sobre meu peito; assoprei ao mesmo tempo em sua boca e em suas narinas; senti que ela começava a se destorcer. Peguei em seguida um pouco de água morna e bradei: Maria! Si quid est in baptismate catholico regenerationis et vitae, vive christiana! Ego enim te baptizo en nomine Patris et Filii et Spiritus Sancti. Meu amigo, não vos conto um sonho: a criança abriu imediatamente seus grandes olhos azuis espantados e sorriu... Levantei-me precipitadamente com um grande grito de alegria e
conduzi-a aos braços de sua mãe, que não podia acreditar no que estava vendo". (6)
A Vontade, a Fé, o poder do Verbo Humano, juntos, operam as maravilhas da Natureza que os profanos denominam milagre... Em l848, Eliphas Levi fundou um clube político, denominado Clube da Montanha, com fins eleitorais, no qual era presidente; Noemi Constant era a Secretária e Esquirros um dos vice-presidentes. Para sorte dos ocultistas, somente Esquirros foi eleito Deputado para a Assembléia
Nacional (1849). Em 1851, Esquirros partiu para o exílio, na Inglaterra, onde escreveu uma série de obras, sendo uma delas de cunho ocultista, apesar de seu título (O Evangelho do Povo). Entre os discípulos de Esquirros contava-se Henri Delaage, Iniciador de Papus, em 1882 na Sociedade dos Filósofos Desconhecidos, entidade que provém de Louis Claude de Saint-Martin. Foi a partir desse episódio que Eliphas Levi abandonou integralmente sua obra social, para dedicar-se exclusivamente ao Ocultismo.
"Na Bíblia da Liberdade, explica-nos Eliphas, saudamos o gênio da revolução, do progresso e do futuro. Na festa de Deus, Assunção da Mulher e Emancipação da Mulher procuramos explicar nossa religião materna. Na Última Encarnação demonstramos o papel do Cristo sobre a terra e saudamos o gênio do Evangelho, marchando à frente do progresso. Agora, nossa obra social está concluída; não pedimos por ela, indulgência nem severidade. Escrevemos o que ditou nossa inteligência e nosso coração"(6).
Sabemos a origem dos estudos ocultistas de Eliphas Levi, mas permanece obscura sua origem iniciática. Sabemos de suas relações de amizade com Hoene Wronski e com Edward Bulwer Lytton. O polonês Wronski, falecido no dia 9 de Agosto de 1853, em Paris, deixou setenta manuscritos catalogados por sua esposa, à Eliphas Levi e outros, os quais foram doados à Biblioteca Nacional de Paris.
Em 1854, um ano após a morte de Wronski, Eliphas viajou à Londres, onde se encontrou com inúmeros ocultistas ingleses, que lhe pediram revelações e prodígios. Longe de querer iniciá-los na magia cerimonial, isolou-se no estudo da Alta Cabala.
Havia um, contudo, Adepto de primeira linha, que se tornou grande amigo de Eliphas Levi: Bulwer Lytton, autor de Zanoni, Os Últimos Dias de Pompéia, A Raça Futura, etc. Os dois Mestres teriam trocado informações iniciáticas dos mais altos interesses para as sociedades ocultistas, das quais certamente eram os chefes. Haveriam inclusive, realizado trabalhos espirituais entre 20 e 26 de julho de 1854, em Londres. As anotações relacionadas com esses eventos foram parar nas mãos de Papus, sendo publicadas, em parte, em um dos números da Revista L´Initiation. Registram três visões, de São João, de Jesus e de Apolônio de Tiana, os quais lhes teriam revelado os mistérios dos Sete Selos do Apocalipse; alguns enigmas do futuro, que desejavam saber; detalhes da Magia Celeste (revelados pelo livro do Rabino Inaz que lhes indicaram onde encontrar), as chaves dos milagres, bem como o sagrado dever de honrar a Coroa, uma vez conquistada. Retornando a Paris, instalou-se no atelier do pintor e discípulo Desbarrolles, uma vez que estava separado de sua esposa Noemi (fato ocorrido antes de partir para Londres). Desenrolou-se nova etapa em sua vida.
Foi a fase do Adeptado. Em 1855 fundou a Revista Filosófica e Religiosa (cujos artigos principais encontram-se em seu livro A Chave dos Grandes Mistérios). Nesse mesmo ano publicou seu Dogma e Ritual da Alta Magia e o poema Calígula, identificado no personagem, o imperador Napoleão III. Foi preso imediatamente. No fundo da prisão escreveu uma réplica, o Anti-Calígula, retratando-se. Foi posto em liberdade.
Em 1859 veio à luz sua História da Magia, formando com A Chave e o Dogma a Trilogia ocultista tida como bíblia por seus discípulos, entre os quais, nessa época, figuravam Desbarrolles, Delaage e Rozier. Os dois últimos vieram a transmitir a Papus e aos demais ocultistas do fim do século XIX o precioso depósito da Tradição, proveniente de Martinez de Pasqually, Willermoz, Saint-Martin e vivificada por Eliphas Levi.
O círculo de amigos de Eliphas Levi era constituído por uma elite de homens de Desejo, que se reuniam na casa de Charles Fauvety. Constavam-se entre os discípulos parisienses, além dos mencionados acima, Louis Lucas (autor de Química Nova), Louis Ménard (tradutor de Hermes Trismegistro), o conde Alexandre Branicki, Littré, Considérant, Reclus, Leroux, Caubet, Eugène Nus, Constantin de Branicki. O Conde Alexandre de Branicki, polonês, amigo pessoal de Bulwer Lytton, era tido como o principal discípulo de Eliphas Levi, "o mais avançado em Cabala"(8).
Mas nem todos os discípulos do Mestre habitavam em Paris, como era o caso do Barão Nicolas-Joseph Spedalieri, nascido em 1812, na Sicília. Iniciado desde os vinte anos na Sociedade dos Martinistas de Nápoles, era leitor assíduo de Louis Claude de Saint-Martin, o Filósofo Desconhecido. Aos trinta anos, fixou residência na França (Marselha). Em 1861, entrou em contato com o autor do Dogma e Ritual de Alta Magia, tornando-se seu discípulo. A correspondência entre Eliphas e Spedalieri, iniciada em 24 de Outubro de 1861, prolongou-se até 14 de Fevereiro de 1874. Apesar de cultivar relações de amizade com pessoas ricas, que freqüentava, Eliphas levava uma vida bastante simples. Suas regras eram: "uma grande calma de espírito, um asseio com o corpo,
uma temperatura sempre igual, de preferência um pouco mais fria do que quente, uma habitação arejada e bem seca, onde nada lembre as necessidades grosseiras da vida, refeições regulares e proporcionais ao apetite, que deverá ficar satisfeito e não excitado. Uma alimentação simples e substanciosa; deixar o trabalho antes do cansaço; fazer um exercício moderado e regulado; jamais aquecer-se ou excitar-se à noite, para que a maior calma preceda o sono. Com uma vida regulada assim, pode-se prevenir todas as doenças, que se apresentam sempre sob a forma de indisposições,
fáceis de combater com remédios simples e brandos... uma xícara de vinho quente para o enfraquecimento e o resfriado, alguns copos de hidromel! como purgativo, infusão de borragem(9) e leite para a gripe, muita paciência e alegria farão o resto"(10).
Em agosto de 1862 editou seu livro Fábulas e Símbolos, considerado por ele mesmo como o mais profundo que escreveu. Ao elaborar essa obra, conta-nos Eliphas, o Espírito projetou-se em sua alma, de sorte que via todo o conteúdo do livro na Luz, antes de ser escrito. Toda a obra foi feita de
um só fôlego, sem qualquer rasura. As idéias brotavam espontaneamente e coisas simples e belas emergiam da Luz, admirando o próprio autor. "Que a Vontade de Deus seja feita! Exclamou Eliphas. Estou maravilhado e espantado pelas grandes obras que Ele me faz executar. Se soubésseis como meu mérito é pequeno... Sou um verdadeiro cadáver que o Espírito Santo anima".(11) Suas obras causavam impacto no mundo ocultista da França e do exterior. Recebia visitas de toda espécie: curiosos, ocultistas, estudantes sinceros, aprendizes de feiticeiro ... "Um dia, diz Eliphas, entre três e quatro horas da tarde, ouvi alguém bater a minha porta. Eram sete batidas secas, assim
espaçadas: 00-0-00-00. Abri a porta e um rapaz muito bem vestido e de boa apresentação entrou lentamente, rindo, com um ar um pouco sarcástico, dizendo-me em um tom familiar: "meu caro Senhor Constant, estou encantado por encontrá-lo em casa". Tendo dito isso, passou para meu escritório como se estivesse em sua própria casa e sentou-se em minha poltrona. "Mas Senhor, disse-lhe, não vos conheço"! Ele soltou uma gargalhada: "Sei perfeitamente disso: é a primeira vez que me vedes, pelo menos sob esta forma. Mas eu vos conheço muito bem! Conheço toda vossa vida passada, presente e futura. Ela está regulada pela lei inexorável dos números. Sois o homem do Pentagrama e os anos terminados pelo número cinco sempre vos foram fatais. Olhai para traz e julgai: em 1815 vossa vida moral começou, pois vossas recordações não vão além, em 1825 ingressastes no seminário e entrastes na liberdade de consciência; em 1845 publicastes A Mãe de Deus, vosso primeiro ensaio de síntese religiosa, e rompestes com o clero; em 1855 vós vos tornastes livre, abandonado que fostes por uma mulher que vos absorvia e vos submetia ao binário. Notais que se houvésseis continuado juntos, ela vos teria anulado completamente ou teríeis perdido a razão. Partistes em seguida para a Inglaterra; ora, o que é a Inglaterra? Ela é o Iod da Europa atual; fostes temperar-vos no princípio viril e ativo. Lá vistes Apolônio, triste, barbeado e atormentado como estáveis naquele período. Mas esse Apolônio, que vistes era vós mesmo; ele saiu de vós, entrou em vós e em vós permanece".
"Vós o revereis neste ano de 1865, mais bonito, radioso e triunfante. O fim natural de vossa vida está marcado (salvo acidente) para o ano de 1875(12); mas se não morrerdes neste ano, vivereis até 1885. Apolônio, quando o vistes, temia as pontas das espadas; vós as temeis como ele, pois neste momento, me tomais por um louco. Como um dia alguém quis assassinar-vos(13), perguntais inquietamente se não vou terminar minha extravagante alocução com um gesto semelhante (aqui começou a rir). Sim, sou louco, acrescentou, retomando seu ar sério, mas não sou a loucura morta, sou a loucura viva; ora, a loucura viva é o inverso da sabedoria de Deus. Sabeis vós o que é Deus? Deus sois vós, pois Satã é Deus visto ao contrário. "Existem atualmente dois grandes escritores, continuou o estranho visitante, que são úteis à Ciência, Mirville e Eliphas Levi. A todo tempo são necessárias duas colunas; vós sois Jakin, ele é Boaz. Sabeis bem que nenhuma força se produz sem resistência, nenhuma luz sem sombra, nenhuma afirmação sem negação". Calou-se por alguns instantes e eu lhe perguntei:
- Sois Espírita? Respondeu-me gravemente:
"Os espíritas são escorpiões que inoculam um veneno cadavérico sob as pedras tumulares. Atraem os mortos, mas não os ressuscitam. Em breve a terra estará coberta de cadáveres que andam.
Estamos em uma época de morte. Louis-Philippe era um Mercúrio sem asas na fronte; ele as tinha nos pés e foi-se. Napoleão III é um Júpiter sem estrela; após ele virá o Saturno coxo e o rei dos padres. O Senhor Conde de Chambord... "O visitante refletiu um instante, olhou-me fixamente e
disse de repente:


"Por que não quereis ser papa"? Dessa vez fui eu quem soltou uma gargalhada. Respondi-lhe:
- Porque não quero ser despropositado. "Ah! disse-me ele, ainda tendes um véu para rasgar e não conheceis vossa força toda-poderosa, acrescentou, retratando-se. Nós dois já criamos e destruímos muitos mundos e vós não ousais aspirar a governar um. Esperai, então, a derrota, o esmagamento dos tímidos, a cruz desse pobre homem que se chamava Jesus Cristo". "Mas, finalmente, quem sois vós?", perguntei-lhe, então, levantando-me.
"Vós negastes minha existência, respondeu-me ele; chamo-me Deus. Os imbecis denominam-me Satã. Para o vulgo chamo-me Juliano Capella. Meu envelope humano tem vinte e um anos; ele nasceu em Bordéus; tem pais italianos".
"Enquanto esse rapaz falava, eu sentia um peso extraordinário na cabeça; parecia-me que minha testa iria explodir. Observava meu interlocutor com surpresa. Seu rosto lembrava os retratos de Lord Byron, com menos correções nos traços; possuía as mãos muito brancas e carregadas de anéis, o olhar seguro e crepitante de sarcasmos, a boca vermelha, os dentes regulares". (14) O curioso visitante partiu e jamais os biógrafos de Eliphas Levi encontraram qualquer traço dele. O ano de 1865, como ele tinha predito, foi triunfal para Eliphas, pois a publicação de sua Ciência dos Espíritos trouxe-lhe enorme reputação entre os ocultistas de seu tempo. No dia 31 de maio de 1875 faleceu Eliphas Levi. Aqueles que o acompanharam até o último momento testemunharam sua grande coragem e resignação. No momento de expirar, estava bastante calmo. Sua vida tinha sido plena de realizações espirituais. Havia cumprido a missão de iniciado e de iniciador. Acima de seu leito, estava fixado um crucifixo, que olhava seguidamente nos últimos momentos. Disse antes de expirar: "Ele prometeu o Consolador, o Espírito. Agora espero o Espírito,
o Espírito Santo". O Mestre faleceu logo em seguida. Dedicando praticamente todo seu tempo à pesquisa da verdade e ao apostolado perante seus
discípulos, Eliphas Levi levou uma vida bastante humilde. Os bens materiais que possuía não passavam de muitos livros e algumas obras de arte, como prova seu testamento, redigido em uma quarta-feira, no dia 26 de maio de 1875, cinco dias antes de sua morte: "Em nome da Justiça e da Verdade, este é meu testamento:
Lego ao Conde Georges de Mniszech meus manuscritos, livros e instrumentos de ciência, particularmente uma dupla esfera metálica portanto um resumo de todas as ciências.(15) Desejo que ninguém toque em meus; manuscritos, a não ser o Conde de Mniszech, a condessa sua esposa, o Conde Branicki e a senhora Gustaf Gebhard, que reside na rua Koenigstrasse, 64, em Esberfeld.
Meu amigo Edouard Pascal, que se ocupou de mim com o maior devotamento, escolherá dentre meus livros não científicos e entre meus objetos de arte e de curiosidade o que lhe interessar. Lego à minha irmã Pauline Bousselet, que sou forçado a deserdar, por causa de meu cunhado, todos os meus quadros e objetos de devoção. Desejo, ademais, que todas minhas vestes e roupas em geral sejam legadas às irmãs de caridade da rua Saint-Jacques.


O que resta de móveis, curiosidades, tapeçarias, vasos, pratos de cobre, etc., será vendido e o resultado dividido entre as pessoas que se ocuparem de mim até os últimos momentos; não me refiro a mercenários, mas a amigos".
O Conde de Mniszech faleceu em 1885. Os manuscritos de Eliphas Levi foram vendidos e dispersos; mas graças a Stanislas de Guaita foram reencontrados. Cabe salientar que a Condessa de Mniszech era prima da Condessa Keller, esposa de Saint-Yves d´Alveydre, o Mestre intelectual de Papus, fato que certamente facilitou a recuperação dos preciosos manuscritos. Edouard Pascal ficou também com a espada mágica de Eliphas Levi e com a famosa caderneta de anotações referentes aos trabalhos mágicos de Londres. Em 1894 esses objetos caíram nas mãos de Papus, graças a intercessão de amigos que conheciam a viúva de Pascal. O Filho de Eliphas Levi que só viu o pai no dia de sua morte, acompanhou-o até a sua última morada.(16) M.A.C. foi visto em 1914 por Chacornac, que ficou admirado com sua extrema semelhança com Eliphas Levi. Era um velho de estatura média, de cabelos brancos e que exalava bondade. Mostrou-lhe sua biblioteca, com quase todas as obras de seu pai, cuidadosamente encadernadas. Presenteou-o com um busto de Eliphas e com um de seus manuscritos, denominado
O livro de Hermes. Compunha-se de 294 folhas, com 47 figuras no texto e com 78 lâminas do Tarot, em anexo, desenhadas pelo próprio autor. Em 1919, Chacornac encontrou-se com o neto de Eliphas Levi, filho de M.A.C.
M.A.C. legou em 1914, a amigos de Papus, manuscritos inéditos de Eliphas, e objetos pessoais do Mestre. A Tradição Ocultista continuou através dos discípulos póstumos de Eliphas Levi Zahed. A vida continua depois da vida; o sol parte e vem a noite; mas ele não deixa de renascer no dia seguinte, para aquecer e iluminar todos os recantos da Natureza.

Notas
1-) Eliphas Levi tinha 15 anos de idade. Cf. CONSTANT, A.L. Livre des Larmes ou le Christ
Consolateur. Paris, Paulier, 1845, p.214.
2-) Cf. CHARCONAC, P. Eliphas Levi, Rénovateur de I´Occultisme em France. Paris, Charconac
Freres, 1926, p.17.
3-) Nasceu em Paris em 1814; foi autor de Magicien (1834), Charlotte Corday (1840), Evangile du Peuple(1840); exilado na Inglaterra em 1851, retornou à França em 1869, após a queda do império. Foi nomeado administrador da região de Bouches-du-Rhone, onde tomou medidas enérgicas do ponto de vista econômico e administrativo. Suspendeu o jornal La Gazette du Midi e dissolveu a congregação dos Jesuítas de Marselha; esses atos foram desfeitos pela administração superior, o que culminou com sua demissão. Foi reeleito deputado para a Assembléia Nacional em 1871. O papel que desempenhou como político à partir desta data, foi sem expressão.
4-) CONSTANT,A.L. L´Assomption de la Femme ou le livre de L´Amour. Paris, Le Gallois, 1841,
p. XIX.
5-) CONSTANT, A. L. Op. Cit., p. XXI.
6-) Carta de Eliphas Levi ao Barão Spedalieri, Correspondência, t. IX. Essa correspondência entre os dois ocultistas comporta mais de mil cartas. A presente tradução engloba apenas o tomo I (Citado por CHACORNAC, p. op. cit., p. 108).
7-) CONSTANT,A.L. Le Testament de la Liberté. Paris, Frey,1848, p. 218-9.
8-) ELIPHAS LEVI. Correspondência, tomo I.
9-) Planta de Largas flores azuis, que crescem em regiões temperadas. Suas infusões são sudoríferas, diuréticas e depurativas.
10-) ELIPHAS LEVI. Correspondência, tomo I.
11-) ELIPHAS LEVI. Correspondência, tomo I.
12-) Todas essas observações estão admiravelmente corretas.
13-) Em 1862, com efeito, um alucinado procurou Eliphas Levi durante dezoito meses, para assassina-lo. Um dia ele apareceu com um punhal em uma mão e um exemplar do Dogma e Ritual da Alta Magia em outra. O mestre encarou-o com brandura. Falou-lhe com docilidade e ele foi embora tremendo.
14-) ELIPHAS LEVI, Correspondência, vol. V, citado por CHACORNAC, p. op. cit. p. 242 a 244.
15-) Trata-se do famoso Prognóstico de Wronski, aparelho reencontrado por Eliphas Levi em um antiquário de Paris.
16-) M.A.C. era filho de Eliphas Levi e de Eugene C.. Em 1867, Eliphas quis ocupar-se de seu filho, mas não se entendeu com Eugene. Até sua morte não mais avistou Eugene e o filho. Este, informado por um amigo, conseguiu rever o pai sobre seu leito de morte. Cf. CHARCONAC,P.ELIPHAS LEVI, op.cit.p.192.

O que procuras? '.' .'.